12 de outubro de 2018, 20h30

Dennis de Oliveira sobre o antipetismo: “A burguesia aposta em saídas conservadoras para manter privilégios”

Na avaliação do jornalista e professor, “o antipetismo se torna uma força política considerável com o reposicionamento da burguesia brasileira diante da crise econômica mundial”

Um dos elementos mais presentes no cenário político brasileiro, pelo menos nos últimos anos, e mais intensos no atual processo eleitoral é o antipetismo. Sentimento cego, que, extrapola qualquer opinião, ideia ou posicionamento político-ideológico. Uma parcela significativa da população não gosta do PT, porque não gosta. Simples assim. Evidentemente que há erros no PT, o que não justifica a sanha de pessoas que manifestam este sentimento por meio das mais variadas e piores ações, inclusive com extrema violência. É certo que a narrativa de Jair Bolsonaro estimula o ódio. No entanto, há outras explicações para o antipetismo. “É uma combinação de ações reativas de parcela das classes dominantes que, diante da crise do capitalismo mundial, não aceitaria dividir a conta e buscou manter seus privilégios e, para tanto, utilizar o inconformismo com setores mais reacionários da classe média, incomodados com a ascensão das classes populares durante o ciclo de governos do PT”, analisa Dennis de Oliveira, jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Dennis tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Comunicação Popular, atuando principalmente nos temas comunicação e cultura, processos midiáticos e culturais, comunicação e recepção, processos midiáticos e jornalismo, mídia e racismo e integração na América Latina. É colunista da Fórum.

Fórum – Em sua opinião, qual é a origem do antipetismo?

Dennis de Oliveira – É uma combinação de ações reativas de parcela das classes dominantes que, diante da crise do capitalismo mundial, não aceitaria dividir a conta e buscou manter seus privilégios e, para tanto, utilizar o inconformismo com setores mais reacionários da classe média, incomodados com a ascensão das classes populares durante o ciclo de governos do PT. Por isso, o antipetismo é marcado por preconceitos raciais, de classe, de gênero, LGBTfobia, entre outros. Embora a expressão do antipetismo tenha essas características, ele se torna uma força política considerável com o reposicionamento da burguesia brasileira diante da crise econômica mundial, que aposta em saídas políticas conservadoras para manter os seus privilégios e jogar a conta nas costas da classe proletária.

Fórum – Por que o antipetismo tem aumentado gradativamente, desde que a ex-presidenta Dilma Rousseff ganhou seu segundo mandato?

Dennis de Oliveira – Principalmente porque a aliança policlassista que dava sustentação aos governos do PT se rompeu, com o reposicionamento da burguesia brasileira. O projeto político da presidenta Dilma Rousseff privilegiava a burguesia interna, aquela cujos negócios dependem do Estado (como as empreiteiras, as fornecedoras de insumos para estatais etc). Com a crise mundial, a burguesia transnacional passa a conspirar mais fortemente contra este projeto, atuando no sentido de destruí-lo. Este foi o principal objetivo da Operação Lava Jato: não só destruir as lideranças do PT, mas as empresas que eram beneficiadas com esse projeto, como as empreiteiras e a própria Petrobras. Com isso, buscou-se realinhar a economia nacional aos interesses do capital transnacional, em especial o rentista. Infelizmente, esse movimento não foi percebido corretamente pelas forças que davam sustentação ao governo Dilma Rousseff, que considerou que um recuo político em direção ao capital rentista poderia conter esse avanço. Mas o objetivo era realmente destruir o projeto petista e retomar o caminho neoliberal.

Fórum – Você colocaria o velho problema da luta de classes como uma das causas, ou seja, a elite não suporta ver o pobre, o nordestino, o negro tendo acesso a bens de consumo, até então disponíveis apenas a ela? Lembrando que esses segmentos sociais são à base da atuação política do PT.

Dennis de Oliveira – Sem dúvida, apesar de que se nós observarmos os indicadores veremos que a ascensão social desses segmentos foi pequena e a concentração de renda no Brasil, embora tenha reduzido, continuou alta. Assim, setores da classe média expressaram publicamente o ódio e a intolerância e serviram como retaguarda, inocente e ingênua, desse projeto da burguesia transnacional de recolonizar o país.

Fórum – Mesmo com a popularidade do ex-presidente Lula, esse problema parece cada vez mais agudo. Por quê?

Dennis de Oliveira – Há uma série de fatores. As novas configurações do capitalismo mundial criam tipos de sociabilidade que dificultam o olhar coletivo. Por exemplo, nos anos 1970 e 1980, como um jovem da periferia iniciava sua vida laboral? Entrando em um curso técnico do Senai ou ingressando em uma fábrica, ou arrumando emprego em uma empresa de serviços. Aí, ele fazia amigos, sentia-se pertencente a uma categoria, a uma classe social, compartilhava situações. Nesse ambiente, é mais fácil perceber-se como membro de uma classe social. Hoje, não. Como os jovens trabalham? Em bicos temporários, como vendedores ambulantes, como motoboys – trabalham sozinhos, de forma precária e cujos ganhos dependem da sua produção. Por isso, entram em uma sociabilidade da competição, da disputa. Não se vê como participante de uma classe, de uma categoria profissional, mas como participante de um jogo, de uma disputa acirrada em que há muitos adversários. O governo Lula melhorou a condição social dos mais pobres. Entretanto, não foi possível criar situações de enfrentamento dessa situação. Muitos dos que hoje abraçam o discurso reacionário foram beneficiados pelas políticas de Lula, mas creditam a sua ascensão social ao seu “esforço pessoal”.  Faltou a continuidade disso, criar ações no sentido de agregar essas pessoas a um projeto político de transformação – eu penso que isso seria tarefa dos movimentos sociais, mas também houve equívocos desses movimentos, ao pensar quase que exclusivamente na ocupação dos espaços institucionais para, a partir daí, implantar seus projetos. Há exceções, como as políticas de cultura popular – destaco aqui o Cultura Viva e os projetos do município de São Paulo como o Vai e a Lei de Fomento às Periferias, que fortaleceu os coletivos de cultura na periferia, possibilitou maior visibilidade de uma nova geração de lideranças negras nas periferias. Entretanto, as estruturas institucionais dos movimentos sociais clássicos e mesmo dos partidos de esquerda não incorporaram esses sujeitos nos seus projetos. Assim, a pessoa do Lula é, realmente, popular, ficou uma marca, mas a popularidade não se transformou em uma sustentação de um projeto político progressista.

Fórum – A atuação do Judiciário brasileiro tem colaborado, ou pelo menos reafirmado, esse sentimento de antipetismo?

Dennis de Oliveira – Claro, o Judiciário é, dos três poderes da República, o mais conservador, elitista e autocrático. O ingresso no Judiciário é por meio de processos seletivos que reforçam o caráter classista, sexista e racista da sociedade brasileira. E esse poder se legitima pela ideologia da meritocracia, que é justamente aquela mesma usada contra ações afirmativas, contra políticas sociais de transferência de renda, contra a ascensão social dos mais pobres etc, na perspectiva de que as diferenças sociais se explicam pelo mérito. O Judiciário não tem controle social nenhum e se autorregula. Portanto, é o poder mais antidemocrático de todos. Por isso, esse retrocesso político tem no Judiciário a sua principal base de sustentação institucional.

Fórum – Recentemente, o mestre de capoeira Moa do Katendê foi assassinado com 12 facadas. A motivação foi o fato de ele ter declarado que votou no PT no primeiro turno das eleições presidenciais. Diariamente observamos ocorrências de ataques não só nas redes sociais, mas físicos, a pessoas que demonstram apoio ao PT. Isso pode ter consequências ainda mais trágicas no futuro?

Dennis de Oliveira – Infelizmente pode, porque o assassinato do Mestre Moa decorre da inconformidade dos segmentos reacionários  com a autonomia de opinião de uma pessoa negra que, no seu imaginário escravocrata, deve-lhe obediência. Teve uma capa da revista Veja, acho que na eleição de 2010, que estampava a cara de uma mulher negra vestida como empregada doméstica. A chamada era: “Ela pode decidir esta eleição”, quase que como um aviso ou uma declaração de inconformidade. Depois dos resultados do primeiro turno em que ficou nítido que as candidaturas progressistas foram muito bem no Nordeste e o campo conservador no Sul/Sudeste, vários reacionários espalharam nas redes sociais memes ofendendo os nordestinos, chamando-os de burros, de não saberem votar etc. Acho engraçadíssimo isso quando vejo que entre os deputados federais mais votados em São Paulo estão um palhaço e um ex-ator de filmes pornôs.

Fórum – Como é possível reverter esse quadro, uma vez que a candidatura de Jair Bolsonaro só reforça esse sentimento antipetista?

Dennis de Oliveira – Mostrando à população os reais objetivos dessa candidatura. A pauta moral que o Bolsonaro procura enfatizar é uma forma de esconder a real intenção da candidatura, que é aprofundar o desmonte das políticas sociais e da economia brasileira. O guru econômico do Bolsonaro já disse que vai privatizar tudo e que pretende acabar com qualquer progressividade no Imposto de Renda, prejudicando os mais pobres. O seu candidato a vice já disse que quer acabar com o 13° salário e o adicional de férias. Bolsonaro defende que a trabalhadora ganhe menos. Imagine só com a privatização total da Petrobras, teríamos o preço do botijão de gás definido pelas transnacionais. Assim como o preço dos combustíveis que impactam nos demais preços, dos alimentos e outros produtos, em função dos custos do transporte. E ainda retirando direitos, o que significa piorar ainda mais a situação da classe trabalhadora.  Como essas propostas são impopulares (o governo Temer que implantou apenas parte delas está com a popularidade lá embaixo), o que o Bolsonaro faz é esconder essa agenda e colocar a pauta das moralidades em evidência, transformando o que é uma luta de classes em uma batalha moral. Por isso, considero um grave equívoco político e intelectual o fato de um professor da USP e colunista da Folha de S.Paulo ter considerado Bolsonaro como um soldado na guerra cultural. Não se trata de guerra cultural e, sim, luta de classes, mesmo que o projeto da frente liderada pelo PT não tenha nenhuma radicalidade e apenas propõe a defesa da economia nacional e os direitos sociais para todos.

Fórum – Acredita que a democracia está sob risco diante do atual cenário?

Dennis de Oliveira – Eu acho que chegamos em uma situação em que o projeto neoliberal só consegue se implantar via ações antidemocráticas. Foi assim com o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma e é assim com a proposta antidemocrática de Bolsonaro. Por isso, é o momento da defesa da democracia. Os direitos sociais, a cidadania plena para todos, a luta contra todas as formas de discriminação, contra o racismo e o machismo só serão possíveis em uma sociedade democrática. Em um regime autoritário, os primeiros a sofrerem as consequências serão justamente os segmentos sociais historicamente colocados na base da pirâmide social.