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12 de junho de 2019, 10h26

Depois que encontrou Jesus, Bolsonaro e Olavo de Carvalho, diretor teatral viu carreira desabar

O diretor Roberto Alvim era de esquerda, amigo de Chico Buarque, entre outros e, depois que resolveu apoiar Bolsonaro, conta que a classe teatral lhe deu as costas

"Foto: Edson Kumasaka/ Divulgação"
“O diretor de teatro Roberto Alvim declarou, em entrevista ao repórter Tiago Cordeiro, do jornal Gazeta do Povo, concedida na última sexta-feira (7) e publicada nesta terça-feira, que a sua carreira praticamente acabou “por conta do meu apoio ao presidente Jair Bolsonaro e por conta da minha admiração declarada ao professor Olavo de Carvalho”. Inscreva-se no nosso Canal do YouTube, ative o sininho e passe a assistir ao nosso conteúdo exclusivo A entrevista foi concedida por telefone, de dentro de seu teatro, a Companhia Club Noir, que ele e a esposa, a atriz Juliana Galdino, mantêm há 12 anos na...

“O diretor de teatro Roberto Alvim declarou, em entrevista ao repórter Tiago Cordeiro, do jornal Gazeta do Povo, concedida na última sexta-feira (7) e publicada nesta terça-feira, que a sua carreira praticamente acabou “por conta do meu apoio ao presidente Jair Bolsonaro e por conta da minha admiração declarada ao professor Olavo de Carvalho”.

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A entrevista foi concedida por telefone, de dentro de seu teatro, a Companhia Club Noir, que ele e a esposa, a atriz Juliana Galdino, mantêm há 12 anos na rua Augusta, em São Paulo. Logo no início da conversa, informou: “Estou aqui no meio dos escombros do teatro, porque a gente está fazendo a mudança, tirando equipamentos de luz, som, cadeiras, tudo. Estou fechando meu teatro no dia 25”.

Alvim conta que descobriu um tumor no intestino. “Até fazer a biópsia, eu me considerava condenado à morte. Esse tumor na verdade era benigno, mas estava causando uma série de problemas, e eu estava muito mal. Tenho 1,90 m de altura e estava pesando 75 quilos. Tinha febre permanentemente. Até que um dia, chegando em casa depois de uma noite no hospital, a babá do meu filho, que era evangélica, pediu para fazer uma oração. Falei para ela sair do meu quarto. Como todo intelectual, eu era ateu convicto. Mas a minha mulher falou, ‘deixa ela fazer a oração, mal não fará’. E ela colocou a mão na minha cabeça e começou a orar. E eu senti uma energia, uma luz. Eu levantei da cama, no dia seguinte fui para o hospital, o tumor tinha praticamente desaparecido. Foi um milagre”, conta.

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Epifanias e iluminações

A partir de então, começou a frequentar a igreja católica diariamente, indo a duas missas por dia. “Tive uma série de epifanias, de iluminações. Me tornei cristão convicto, na minha vida hoje há a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, diretamente. Comecei a fazer cursos de teologia com o padre Paulo Ricardo. E mergulhei de cabeça nos escritos do professor Olavo de Carvalho”.

O momento da virada definitiva do diretor foi quando aconteceu a facada no então candidato Jair Bolsonaro: “eu fiquei tão chocado que me pronunciei publicamente em redes sociais. Foi na véspera da estreia do Drácula, uma peça com Cacá Carvalho, no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em São Paulo. E a peça estreou no dia seguinte sem o Cacá Carvalho falar comigo. Era um monólogo, e meu ator não falava mais comigo. O pessoal da classe teatral, meus amigos de décadas, deram as costas para mim no foyer do teatro. Eu estendi a mão para uma pessoa célebre aqui em São Paulo e ela virou a cara diante da minha mão estendida. Eu passava e as pessoas falavam: ‘fascista!’”, lamenta.

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Amigo do Chico Buarque

O diretor diz ainda que, antes de ficar doente, dois dos seus melhores amigos eram o Chico Buarque e o Vladimir Safatle, segundo ele, “um dos maiores filósofos da esquerda radical aqui em São Paulo”. Um dos espetáculos que montou era baseado em um livro do Chico. “Hoje não tenho mais os direitos da minha adaptação do texto Leite Derramado”, conta.

“Uma série de atores de São Paulo escreveu que se envergonhava de ter trabalhado comigo. Pessoas que iriam trabalhar em espetáculos comigo desistiram”, relata. Além disso, o Sesc cancelou, segundo ele “por e-mail, de forma sumária, um espetáculo que estava sendo negociado desde o ano passado. Faltava uma semana para os ensaios começarem. E agora ninguém atende mais meus telefonemas no Sesc”.

“Caetano é um canalha abissal”

O diretor aproveitou a entrevista para desancar alguns colegas, entre eles o diretor José Celso Martinez Corrêa: “é um cara que hoje, para mim, é uma espécie de câncer, uma síntese do pior do que acontece no teatro nacional”.

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Outro atacado por Roberto Alvim foi o cantor e compositor Caetano Veloso, segundo ele “uma pessoa por quem eu tinha uma admiração profunda, e hoje em dia me parece um canalha abissal, um imbecil completo, um idiota absoluto, alguém que está fazendo um mal muito grande para a cultura brasileira já há algum tempo”, encerra.

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