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19 de novembro de 2017, 18h04

Depressão por conta de disfunção erétil explica taxas mais altas de suicídio entre homens mais velhos

Terapeuta sexual, Edilson Ferreira da Silva Júnior afirma que para prevenir que a DE se torne algo mais grave, é necessário buscar a ajuda de um médico urologista e um psicólogo especialista em sexualidade humana.

Avaliação é do terapeuta sexual Enilson Ferreira da Silva Júnior, que dá a dica: para prevenir que a disfunção erétil se torne algo mais grave, é necessário buscar a ajuda de um médico urologista e um psicólogo especialista em sexualidade humana

Por Lucas Vasques

A polêmica envolvendo o ator pornô Alexandre Frota, que moveu processo contra o plano de saúde Bradesco, para ter direito ao implante de uma prótese peniana inflável serviu para despertar para a importância do tema. Milhares de homens sofrem de disfunção erétil e, por medo, vergonha, preconceito ou desconhecimento, acabam enfrentando esse drama sozinhos.

Há inúmeras faces do problema e uma delas, de suma importância, é a emocional. Por isso, a Fórum, dando prosseguimento a sua determinação de manter os debates no mais alto nível, entrevistou, com exclusividade, o psicólogo e terapeuta sexual Enilson Ferreira da Silva Júnior. Ele é graduado em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), pós-graduado em Terapia Cognitivo-Comportamental (Unichristus) e pós-graduado em Sexualidade Humana (Faveni). Atua como sexólogo em consultório particular. Ele explica causas, consequências e mais detalhes sobre a disfunção erétil, sob a ótica da Psicologia.

Fórum – Quais as principais causas psicológicas e orgânicas da disfunção erétil?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – A disfunção erétil (DE) é a incapacidade persistente ou recorrente em obter e/ou manter uma ereção suficiente para permitir a penetração do pênis na vagina ou no ânus. Para ser considerado um distúrbio, o problema precisa durar o tempo mínimo de seis meses e causar intenso sofrimento emocional ao homem. Suas causas variam entre orgânica, psicológica e mista, que é a presença dos dois fatores. A DE de etiologia orgânica pode estar associada à diabetes, cardiopatias, neuropatias, doenças urogenitais. Certas substâncias como a maconha, álcool, tabaco, antidepressivos ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina), antiandrogênios e alguns antipsicóticos podem resultar na perda da função sexual. Entre as variáveis psicológicas, destaco o abuso sexual na infância, estresse, problemas conjugais, baixa autoestima, tabus culturais, ansiedade e depressão. Na maioria das vezes, a DE psicogênica ocorre entre jovens, se dá em situações específicas e tem início abrupto.

Fórum – Em que medida a desinformação sobre sexualidade e o machismo colaboram para a incidência maior do problema?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – O Brasil é um país predominantemente machista e falocêntrico. O termo popular utilizado para disfunção erétil é “impotência sexual”, ou seja, para nossa cultura, o vigor e a masculinidade dependem de um bom funcionamento peniano. O sujeito sem “potência” vira alvo de chacota dos amigos e, muitas vezes, é rotulado de “frouxo” ou outros termos jocosos. A maioria dos homens, por inibição, acaba por não dividir o problema com ninguém, sofrendo sozinho. Já outros, por desconhecimento, optam por tratamentos de valor científico questionável.

Fórum – Em que momento a atividade sexual deixa de ser prazerosa e se torna uma patologia psicológica?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – Às vezes, um determinado homem pode apresentar problema erétil, porém, ele e a esposa, apesar da dificuldade, vivem funcionalmente a sexualidade. Esse homem é criativo na cama e consegue contornar a situação com boas preliminares e agradáveis carícias. A falha erétil não lhe traz sofrimento emocional. Quando isso acontece, dizemos que este homem não é portador de disfunção erétil, mas sofre de uma inadequação sexual. Para ser diagnosticado Transtorno Erétil, de acordo com o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais – 5ª edição), o problema precisa gerar grande prejuízo emocional.

Fórum – O medo do declínio sexual com a idade e a preocupação frequente de demonstrar virilidade provocam, muitas vezes, dificuldade de iniciar ou manter ereção. Como lidar com isso?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – Idade avançada nem sempre é sinônimo de DE. Homens apresentam o distúrbio na terceira idade, quando tem alguma doença cardiovascular, neurológica ou diabetes avançada. Se não há doenças que prejudiquem a ereção, a sexualidade será mantida, claro que não mais com o vigor de um jovem de 18 anos. Na terceira idade há uma queda na produção da testosterona, a produção de esperma diminui, o espaço de tempo refratário entre as relações sexuais torna-se mais demorado, o pênis perde rigidez na ereção. É um declínio natural da idade. Os homens precisam compreender que mais importante que a quantidade de sexo é sua qualidade. Um idoso pode ter um sexo de qualidade se forem respeitados seus limites físicos.

Fórum – Como lidar com o medo, a vergonha e o preconceito em relação ao problema? Há casos de depressão e homens que têm sua vida destruída e até se suicidam devido ao problema.

Enilson Ferreira da Silva Júnior – Alguns homens com DE correm o risco de sofrer ansiedade e depressão a longo prazo, se não conseguirem exercer satisfatoriamente a sua função sexual. Estudos sugerem que a depressão resultante da DE também podem contribuir para explicar taxas mais altas de suicídio entre homens mais velhos. Para prevenir que a DE se torne algo mais grave, é necessário buscar a ajuda de um médico urologista e um psicólogo especialista em sexualidade humana. O apoio e a compreensão da parceira fazem toda a diferença. Costumo dizer no meu consultório que o transtorno não é do homem e, sim, do casal, pois ambos devem zelar rela felicidade da relação.

Fórum – A questão da disfunção erétil talvez seja o maior tabu no universo masculino. Pesquisas apontam que o homem, em geral, tem mais medo de se tornar impotente do que da violência na sociedade. Esse pode ser um fator que faça o homem vítima de seu próprio machismo?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – Há um mito milenar por trás do falo. Em muitas culturas orientais, o pênis é exibido em monumentos, representando força, poder, domínio e espiritualidade. Aqui no Ocidente, não é muito diferente. Os pais ensinam aos meninos a não se constranger em tocar seus genitais publicamente, comportamento reprovado para meninas. Assim, desde a tenra infância, vamos incorporando o valor do pênis a nossa própria vida e sociedade. Os filmes pornográficos também reforçam o mito do pênis ao exibir órgãos exageradamente grandes e eretos. Para um homem, criado numa cultura que tanto estima o falocentrismo, perder a ereção significa perder sua condição masculina e imergir numa profunda crise identitária. Muitos chegam ao meu consultório se perguntando: “Se não tenho mais ereção, eu não sou mais homem. O que eu sou agora?”. Essa crise de identidade compromete sua vida social, pois este deixa de procurar novas parceiras ou ter contato íntimo com a esposa.

Fórum – Em alguns casos, o medo e o autopreconceito fazem com que o homem com disfunção erétil, até como tentativa de se preservar, assuma posturas sexistas e adote narrativas grosseiramente sexuais, tentando demonstrar que é “macho”, conforme observamos recentemente com Alexandre Frota, que sempre usa citações sexuais para ofender e, apesar disso, teve de se submeter a um procedimento para tratar disfunção erétil? Que mecanismos psicológicos são afetados nessas situações e como lidar com essa faceta do problema?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – Não conheço a história clínica do ator Alexandre Frota, portanto não irei comentar seu caso. Mas de uma forma muito genérica, os homens que chegam ao meu consultório apresentam mecanismos psicológicos de enfrentamento do problema, porém, são recursos disfuncionais. Alguns podem agir de forma a manter o transtorno, se expondo a situações sexuais com grandes chances de falhar, tendo relações com uma parceira menos atraente, ou numa situação de risco de flagra, por exemplo, algo que lhe precipitaria uma falha. Um segundo grupo de homens pode evitar ter consciência do distúrbio, negando a dimensão do problema. Esses homens optam por levar uma vida sem sexo, evitando contatos. Já um terceiro grupo de homens tende a compensar o transtorno. Eles vivem de forma a contrariar o problema. Geralmente, saem com várias mulheres, apresentam perfil galanteador e sustentam a imagem de “macho alfa”. São mecanismos compensatórios que, a princípio, protegem. Porém, podem perpetuar o problema, pois os impossibilitam de reconhecer suas limitações, entrar em contato com suas emoções negativas e buscar ajuda especializada.

Fórum – Em sua experiência, o que é mais difícil de tratar do ponto de vista psicológico, quando o problema é de origem emocional ou quando é orgânico, no caso, por exemplo, da necessidade da colocação de uma prótese? Esse procedimento invasivo deixa o homem mais fragilizado do ponto de vista emocional?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – A disfunção erétil orgânica é de ordem médica. Cabe ao urologista a terapêutica mais adequada. O tratamento de primeira linha é à base de drogas inibidoras da fosfodiesterase tipo 5, o de segunda linha é por meio de injeção intracavernosa. E o tratamento de terceira linha é realizado com prótese. Mesmo se o transtorno for orgânico, a atuação do psicólogo é importante, pois é comum o paciente que se submete a esse tipo de intervenção se sentir ansioso e com medo de novas recaídas. Já a DE de origem psicológica, em paciente jovem e de início precoce, apresenta prognóstico positivo. Geralmente, esse paciente sente uma melhora nas primeiras sessões de Terapia Sexual.

Fórum – Em linhas gerais, em que ideias se baseia a Terapia Sexual?

Enilson Ferreira da Silva Júnior – A Terapia Sexual surgiu nos anos sessenta, com o casal de pesquisadores William e Virginia Johnson. Posteriormente, foi aprimorada pela psiquiatra norte-americana Hellen Kaplan. A Terapia Sexual é o tratamento clínico por métodos psicológicos das disfunções sexuais. É uma intervenção focal, breve e estruturada. Apresenta um número limitado de sessões, o que facilita a participação conjunta do casal. O terapeuta prescreve exercícios de reabilitação sexual para que os parceiros realizem em sua intimidade, com o objetivo de resgatar, desenvolver ou manter a função sexual. Na terapia para disfunção erétil é abordada a ansiedade de desempenho do homem. Muitos, após uma falha, desenvolvem medo de perder a ereção e passam checar a intensidade da ereção durante o sexo, ocasionando uma nova falha. Isso se torna um círculo de autossabotagem. Nosso objetivo é romper esses bloqueios e garantir um retorno à eroticidade. Muitas pessoas no mundo todo se beneficiaram da Terapia Sexual. É uma conduta terapeuticamente eficaz, de valor científico, apresenta bons resultados e sem nenhum efeito colateral para o paciente.

Foto: Arquivo pessoal