10 de abril de 2018, 16h45

Desabafo de uma ex-lulista

Em novo texto, Andréa Caldas analisa o atual cenário nacional: “Bora lá, fazer o que podemos fazer na herança desta história política com seus acertos e erros”

Foto: Fotos Públicas

A primeira vez que vi Lula foi em um comício em Curitiba. De repente, alguém começou a passar mal em meio à multidão. Lula, do palco, comandou a vaga que se abriu para chamar um médico – o doutor Rosinha – que acorreu para prestar socorro. Ele conduzia a multidão. Eu fiquei tão impactada com aquele gesto que nunca mais consegui esquecê-lo. Era isto, ele movia multidões, ele podia tudo. E por tempos, acreditei nisto.

Mas, Lula conciliou, silenciou  quando da prisão de Genoíno e Zé Dirceu. Não, ele não podia fazer isto. Fui me decepcionado com o personagem, enquanto dentro de mim alimentava um sonho com o Lula que eu queria que fosse.

Ele fez coisas grandiosas e não fez outras, que eu achava que poderia fazer. Fiquei muito, muito brava. Bati os pés e queria que ele fosse o Lula que eu sonhara. Ele foi o Lula do seu tempo. De suas possibilidades, de sua história. Fez muito. Fez o que pode ou o que achava que deveria fazer. Eu queria mais.

E contraditoriamente, mesmo vindo a estudar a crítica ao culto de personalidade, mesmo pesquisando a resistência, no fundo, eu o queria como salvador. Vê-lo se entregar – para não permitir violências maiores – me quebrou.

Não queria ver o Lula rendido. Queria guardar sempre a imagem do Lula assertivo. Ele envelheceu e passou o bastão. Eu, infantilmente, bati o pé e disse que não era a hora.

Mesmo que fosse para criticá-lo, eu o queria altivo, eu o queria livre.

Mas, agora, é com a gente. É aquele momento da vida e da história em que a gente percebe que o pai não pode mais tudo, que a gente precisa ser adulto e crescer. Bora lá, fazer o que podemos fazer na herança desta história política com seus acertos e erros. Bora lá crescer….

É um novo tempo e a gente se assusta. Mas, precisamos respirar fundo e seguir. Você foi um baita cara!