01 de fevereiro de 2018, 15h42

Desemprego: Rede Globo comemora o menos ruim do pior

A emissora tem feito matérias seguidas comemorando a retomada do nível de empregos para os mesmos do início de 2017, que já era a pior marca da nossa história

A emissora tem feito matérias seguidas comemorando a retomada do nível de empregos para o mesmo patamar do início de 2017, que já era a pior marca da nossa história Por Julinho Bittencourt A Rede Globo assumiu o discurso oficial. A quem acompanha atentamente o noticiário, isso não é grande novidade. Há um detalhe, no entanto, que beira o constrangedor, no que tange ao desemprego. A emissora tem reproduzido diariamente os contorcionismos dos assessores do Palácio do Planalto, ministério do Trabalho e Fazenda e, em muitos dos casos, se esmerado até mais do que os próprios profissionais pagos para isto. A...

A emissora tem feito matérias seguidas comemorando a retomada do nível de empregos para o mesmo patamar do início de 2017, que já era a pior marca da nossa história

Por Julinho Bittencourt

A Rede Globo assumiu o discurso oficial. A quem acompanha atentamente o noticiário, isso não é grande novidade. Há um detalhe, no entanto, que beira o constrangedor, no que tange ao desemprego. A emissora tem reproduzido diariamente os contorcionismos dos assessores do Palácio do Planalto, ministério do Trabalho e Fazenda e, em muitos dos casos, se esmerado até mais do que os próprios profissionais pagos para isto.

A Globo tem feito seguidas matérias com os cálculos trimestrais e uma propalada redução do desemprego, sempre acompanhadas, invariavelmente, por entrevistas de trabalhadores recolocados.

Vamos aos números. Há, de fato, uma recuperação nos dados de emprego do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e divulgada mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Vejamos matéria do Nexo de 3 de janeiro de 2018:

Desde que atingiu o pico, no trimestre entre janeiro e março de 2017, o desemprego já acumula oito quedas consecutivas. Foi de 13,7% para 12%. Em média, o país tinha, ao fim do primeiro trimestre, 14,2 milhões de pessoas que procuravam e não encontravam emprego. Depois de sucessivos recuos, o número de desempregados chegou a 12,6 milhões.

Mas, olhando os últimos doze trimestres móveis (o ciclo completo de um ano), o máximo que o mercado brasileiro conseguiu foi voltar ao mesmo ponto de cerca de um ano atrás: 12% de desempregados.

Ou seja, saímos do muito ruim para o um pouquinho menos ruim nestes últimos 12 meses. Mas estávamos bem melhor antes, e é preciso olhar mais além para enxergar o todo.

Em um artigo de 13 de maio de 2016, exatamente um dia depois do afastamento da presidente Dilma Roussef, Alexandre Cabral publicou artigo no Estadão intitulado: “Dados econômicos da era Dilma: de chorar!”, onde alardeava: Já adianto que os números são bem ruins. Um resumo rápido: o desemprego subiu de 5,30% para 8,20%. Daí em diante, o próprio jornalista apresenta uma série histórica mais extensa:

Pesquisa Mensal de Emprego – Fonte: IBGE

  1. Final do segundo governo Fernando Henrique (2002): 10,50%.
  2. Final do primeiro governo do Lula (2006): 8,40%.
  3. Final do segundo governo do Lula (2010): 5,30%.
  4. Final do primeiro governo Dilma (2014): 4,30%.
  5. Final do segundo governo Dilma (12 de maio de 2016): 8,20% (fevereiro).

Não é possível comparar os períodos com os dados do PNAD, já que ele começou a sua série histórica em 2012. Mas, em números absolutos, tivemos no país, em 2017, um total de 13,4 milhões de desempregados. No final do último governo Dilma, tínhamos 11.089.000 de desempregados. Apesar de ruim, um número ainda muito abaixo do expressivo recorde de Temer.

Como se pode observar, o que a Globo e congêneres comemoram parece mais com um lento espreguiçar de um rinoceronte dentro do atoleiro do que, de fato, a sua ida em definitivo para águas menos turvas.

Um atoleiro que, diga-se de passagem, nos atirou Fernando Henrique Cardoso, submergimos em uma breve pausa de 13 anos para, agora, ao que tudo indica, Michel Temer nos atirar em outro, muito mais espesso e enlameado.

Foto: Wikipedia