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08 de Maio de 2012, 05h34

(Des)organizando minha biblioteca

Depois de reunificar minha biblioteca, ando reorganizando-a. Os princípios de classificação sempre foram um drama para minha coleção de livros, porque na medida em que ela ia crescendo, eles se tornavam cada vez menos úteis. Os livros são, para nós, com frequência, algo distinto do que diz sua ficha catalográfica. Assim, Sade, Fourier, Loyola, de […]

Depois de reunificar minha biblioteca, ando reorganizando-a. Os princípios de classificação sempre foram um drama para minha coleção de livros, porque na medida em que ela ia crescendo, eles se tornavam cada vez menos úteis. Os livros são, para nós, com frequência, algo distinto do que diz sua ficha catalográfica. Assim, Sade, Fourier, Loyola, de Roland Barthes, é para mim um livro sobre o amor, jamais catalogável na seção de biografias. Sempre li em Finnegans Wake, de James Joyce – não se trata, evidentemente, de um livro que se leia, mas de um livro no qual se lê –, um tratado de teoria literária, que não cabe na mesma prateleira dos romances de língua inglesa. A Carta de Jamaica, de Simón Bolívar, não é para mim um ensaio ou um texto historiográfico, mas uma utopia, a ser catalogada junto com a de Thomas Morus ou com a República de Platão. O sistema catalográfico da Biblioteca do Congresso, o mais usado por aqui, passava a me servir cada vez menos quanto mais a biblioteca crescia.

Durante um bom tempo, resolvi a coisa de forma relativamente simples, dividindo meus livros em duas grandes categorias: literatura (poesia, ficção, teatro) e não-literatura, esta última incluindo tudo, desde filosofia até livros sobre futebol. Dentro dessas duas grandes categorias, os livros vinham listados por ordem alfabética por autor. Assim eles foram relativamente felizes durante certo tempo, com uma sequência de estantes que ia de Theodor Adorno a Slavoj Žižek e outra que ia de Caio Fernando Abreu a Émile Zola. Fácil e rápido, com tudo por ordem alfabética – que tem a vantagem de ser uma ordem sem ser uma hierarquia.

 

Alguns de meus livros sobre/de Walter Benjamin

 

A coisa começou a se complicar no momento em que passei a pesquisar, publicar e juntar livros sobre música. Acumulavam-se volumes que eu havia lido e sobre os quais eu sabia tudo, menos o nome do autor. Até hoje, refiro-me àquele ótimo livro sobre Jackson do Pandeiro da Editora 34, do qual posso citar episódios inteiros (a descrição que há ali da estréia de Jackson na televisão é inesquecível), mas não o nome de quem o escreveu. Em meio a milhares de livros de não-ficção, passou a ser impossível encontrar meus livros sobre música, a não ser que eles tivessem sido escritos por Mário de Andrade, Christopher Dunn, Ana María Ochoa, Hermano Vianna, Santuza Cambraia Naves ou qualquer outra figura que fosse, para mim, por qualquer razão, autoralmente marcante. Passou a ser impossível encontrar aquele bom livro sobre o Brock dos anos 80 ou aquela ótima biografia de Luiz Gonzaga.

A divisão ficção / não-ficção, com as duas categorias organizadas em ordem alfabética por autor, ruiu de vez quando passei a acumular livros sobre aquele esporte que praticávamos, chamado futebol. Também nessa seara os volumes são muito mais marcantes, para mim, por tema, imagens ou editora que por autor – de novo, a não ser que eles tenham sido escritos por Tostão, José Miguel Wisnik ou outra figura tão autoralmente marcante como estas –, e o resultado foi que passei a separar os livros sobre música e sobre futebol para fora das prateleiras de não-ficção.

Isso bagunçou completamente o princípio da classificação, pois temas sobre os quais eu também acumulo muitos livros – a Palestina, por exemplo – passaram a merecer, a meus olhos, a nobreza da prateleira separada. Assim, os livros de Ilan Pappé, Noam Chomsky, Norman Finkelstein, Saree Makdisi, Edward Said, Benny Morris e outros foram arrancados dos seus lugares na sequência das prateleiras por ordem alfabética e formaram uma categoria separada, o que confundiu a própria divisão entre ficção e não-ficção, já que há vários romances – por exemplo, Mornings in Jenin, de Susan Abulhawa, traduzido no Brasil como A cicatriz de David – que leio muito mais como documentos sobre a Palestina que propriamente como obras literárias.

Daí em diante, foi morro abaixo. A sequência de livros de ficção, antes tão impecavelmente organizada por ordem alfabética, foi inicialmente separada por coleções. Três delas, fundamentais na minha formação — a “Imortais da Literatura Universal”, publicada em fascículos pela Abril durante a ditadura, a Biblioteca Ayacucho, de clássicos latino-americanos, e a Colección Archivos, de romances, poemários e ensaios latino-americanos modernos – passaram a ser agrupadas juntas. Os meus poetas de leitura mais constante – Oswald, Baudelaire, Rilke, Celan, Ana Cristina César, Byron, Mallarmé, Drummond, Blake, Pessoa, Cabral, Pizarnik, Sylvia Plath – ganharam uma estante só para eles, atrás de minha mesa, ao alcance da mão, gerando, claro, a perene dúvida sobre quais são os poetas merecedores da honraria. A coleção de literatura argentina, meu instrumento mais frequente de trabalho, ganhou um espaço próprio, produzindo outra infinidade de dúvidas, como por exemplo se Horacio Quiroga deve ser catalogado como escritor argentino ou uruguaio, se Gombrowicz é um escritor polonês ou argentino, e se a tradução borgeana das Palmeiras Selvagens, de Faulkner, não é, afinal de contas, uma obra da literatura argentina.

Com a chegada de uma infinidade de caixas de livros vindas de Belo Horizonte, a falta de lugares nas estantes e a coexistência de vários princípios de classificação que se sobrepõem uns aos outros, estou de volta onde estava há alguns anos: sem qualquer certeza de onde está cada livro.