Boston tea party

Boston tea party

Como um encontro casual revela um pouco da alma conservadora de parte dos norte-americanos

Por Nuno Manna

Desde que comecei a planejar minha temporada de pesquisa em Nova York, tinha em mente uma viagem a Boston. A proximidade entre as cidades e o contato com uma amiga da família que se ofereceu para me hospedar – e o famoso charme da Nova Inglaterra durante o outono – me mobilizaram ainda mais. Seria uma ótima oportunidade para me aproximar um pouco mais do universo que me convocou aos EUA, encarnado na mitologia intelectual, política e artística bostoniana.

Em poucos dias, já me familiarizava com as instituições da cidade e seus arredores, em seus inúmeros monumentos. O Mayflower, o Boston Tea Party, Paul Revere, a Revolução Americana, a USS Constitution, John Copley, Harvard, os Kennedy, e mesmo Edgar Allan Poe, que definitivamente não morria de amores pela cidade onde nasceu… Mas nenhum mausoléu, nenhuma aula de guia turístico, nenhum chaveiro com uma réplica reduzida da primeira pedra onde os puritanos pisaram no Novo Mundo em 1620 seria tão instrutiva quanto uma conversa inusitada de corredor que não duraria mais de três minutos.

Eram vésperas de Halloween. Berenice, que me hospedava, me levara para passar o domingo percorrendo a costa de Cape Cod. Ao final do dia, antes de voltar para casa, passamos para buscar seus filhos, que ficaram na casa de uns amigos. Estes eram filhos de Faith, uma antiga conhecida de Berenice. Ela me contou que Faith era uma advogada de muito prestígio em Massachusetts. Formada em Harvard, Faith trabalhava para a IRS (agência do departamento do tesouro do governo federal dos EUA), tinha dois escritórios de advocacia e mais de 40 advogados sob sua batuta.

Entramos ligeiramente na casa de Faith. Berenice me conduziu cômodos adentro, até chegar na entrada de uma sala de estar. Era uma belíssima e grande sala, finamente decorada. O fogo da lareira ao canto tornava o ambiente convidativo, confortando quem chegava do frio e do vento lá de fora. Sentada elegantemente num sofá, vestida com um roupão de seda e segurando um copo com alguma bebida, estava Faith. Ali mesmo no corredor, de longe, Berenice me apresentou:

− Faith, esse é o Nuno. Também é lá da minha cidade no Brasil. Ele faz doutorado, veio passar um tempo estudando em Nova York, e está nos visitando.

Imediatamente, Berenice partiu escada acima em busca dos filhos. Fiquei ali aos olhos de Faith, que me receberam educadamente. Sem se alterar, ela me perguntou:

− Em que universidade você está estudando aqui?

− Na Columbia.

− Mmm… E em qual área é seu doutorado?

− Comunicação Social.

− Ah, tipo Twitter, Facebook… essas coisas?

A princípio a pergunta só me pareceu uma visão reduzida de um leigo qualquer. Só em retrospecto eu entenderia que se tratava, sobretudo, de uma primeira tentativa de me ridicularizar.

− Bom, meu doutorado é voltado em geral para a área de jornalismo.

− Ah é? E sobre o que é a sua tese?

Responder resumidamente tal questão é sempre um desafio, e a resposta costuma variar em relação ao freguês e à situação. Ali, de pé (eu, pelo menos), em um diálogo que começara a alguns segundos e que possivelmente demoraria mais alguns poucos, mirei em alguém que parecia demonstrar interesse genuíno e que demandaria uma resposta com mais do que quatro palavras. Em pouco tempo descobriria que a questão era um teste, mais do que qualquer outra coisa.

− Bem, em linhas gerais, é um estudo crítico dos fundamentos da racionalidade jornalística, e os processos de modernização do jornalismo brasileiro.

Mas a curiosidade de Faith se fixou em uma das minhas premissas.

− Existe jornalismo no Brasil?

A pergunta era absurda demais pra ser verdade. Respondi no impulso, sem refletir exatamente sobre de onde ela saía.

− Sim, claro.

− E o jornalismo no Brasil é de esquerda, como o jornalismo dos EUA?

Durante um segundo, me veio tudo o que eu já tinha aprendido sobre a imprensa estadunidense, e todas as notícias que li, ouvi e assisti intensamente desde que cheguei em Nova York. Achei que não valia a pena entrar nos méritos da segunda parte da pergunta, e me ative à primeira.

− Sempre houve publicações de esquerda no país, mas a grande imprensa, a imprensa tradicional do Brasil, é majoritariamente conservadora.

− É mesmo? E o que a imprensa brasileira e o povo acham da sua presidente comunista?

A pergunta poderia ser só mais uma como a do guia turístico no centro de Boston, que me perguntou se era verdade que, no Brasil, a selva vai invadindo os prédios, exigindo reparos constantes. Certamente não era algo que esperava de alguém com o calibre de Faith. Mas seu estranho interesse pelas posições políticas no Brasil começava a evidenciar que seu calibre sabia muito bem a que se prestava.

− Não sei bem o que te responder, não temos uma presidente comunista. Ela vem de um partido que tem origens nos sindicatos de trabalhadores, mas que é hoje de centro-esquerda e está longe de ter uma atuação de inclinação comunista.

Ela pareceu momentaneamente satisfeita com a resposta. Variou, então, de alvo:

− E o que vocês acham do nosso presidente de esquerda?

Antes mesmo que eu pudesse digerir o disparate da pergunta, Faith emendou:

Visão do Tea Party sobre Obama

Visão de alguns conservadores sobre o presidente dos EUA

− Sabe, eu fui colega de faculdade da esposa do presidente. E eu posso te garantir que não existe gente mais estúpida, suja e sem dignidade que aqueles dois. Barack Obama está destruindo nosso país.

Me diverti por um momento com o desabafo moderadamente performado.

− É mesmo?

Ela confirmou com a cabeça, e logo atirou novamente:

− A maioria dos professores da Columbia são de esquerda, não é? Não.

− Talvez…

− E essa é a sua posição política?

Pronto. Como experiente advogada, ela trilhou lentamente os rastros suspeitos do réu até chegar efetivamente ao crime.

− Sim.

A resposta bateu junto com a estranha consciência de sua demanda, ali ainda posicionado na porta como quem acabara de chegar e já estava prestes a sair. Normalmente, a essa altura numa conversa com algum outro estadunidense desconhecido, o posicionamento mais forte que eu tivera que oferecer teria sido sobre se eu estava gostando dos EUA, ou se eu sentia saudade da comida brasileira. Pelo menos ali um breve “Sim” era menos protocolar. Esticada no sofá, movimentando lentamente as pedras de gelo no copo, Faith apertou os olhos e continuou sem pausa, esboçando um sorriso:

− Então você acredita em distribuição da riqueza entre a população… Esse tipo de coisa?

Coincidentemente eu havia visitado Salém no dia anterior, cidade que Nathaniel Hawthorne abandonara para se desidentificar dos ancestrais cuja caça às bruxas atravessava gerações. Resolvi respirar fundo e arriscar uma formulação que não me sufocasse naquele lugar cínico e redutor no qual era me colocara. E talvez um posicionamento um pouco mais claro pudesse ser suficiente pra encerrar o interrogatório.

− Eu acredito que é preciso pensar em novas formas de práticas democráticas, muito diferentes daquelas que comandam as sociedades capitalistas. Acho que a teoria socialista tem muito a oferecer pro mundo ainda. Não aquela praticada pelo socialismo soviético ou algo semelhante…

Antes que eu continuasse, ela aproveitou o gancho e me interrompeu com mais uma tentativa de me colocar contra o muro.

− E qual país socialista seria um bom exemplo pra você, então?

O sorriso de Faith se desenhou por completo. Não nos olhos.

− Olha, honestamente acho que as maiores contribuições do marxismo não estão representadas em qualquer tipo de burocracia.

O cenário no qual me vi tendo que desfiar tais comentários em tão pouco tempo passou de estranho para surreal. Se minha resposta me oferecia rotas de fuga, Faith preferiu agarrar justamente a porção que a ajudaria a fazer seu ponto:

− E você não acha isso quer dizer que o homem é de natureza corrupta, fazendo do socialismo um projeto inevitavelmente fracassado? Você não acha que… – Enquanto falava, Faith foi colocando lentamente o copo sobre a mesinha ao lado do sofá, sem me tirar de sua mira. O longo discurso que se seguiu, sobre política, a natureza humana e a história foi tropeçando pela minha capacidade de inteligibilidade de um inglês construído em uma retórica tão sofisticada, metralhada com vocábulos pomposos e por uma condução lógica complexamente arquitetada. O nervosismo com o constrangimento da inquisição inesperada, naquela posição frágil e hierárquica desde o início, se misturou com a distração por risadas de crianças e latidos de cachorro que passaram logo atrás de mim. O calor da lareira parecia já insuportável para quem sequer tinha tirado o casado de frio. Ela então concluiu – …Você não acha?

Tentei por um segundo catar algumas migalhas de tudo o que ela havia dito e tentar formular alguma coisa digna. Mas desisti, e soltei logo a resposta mais genérica e cara de pau que me veio.

− Pois é… Complicado.

Faith não se satisfez com meu desvio, e me chamou na chincha.

− Não, sério. Quero muito saber o que você acha. Fico realmente preocupada com essas questões. E a maneira como o mundo será conduzido no futuro está nas mãos da sua geração.

Por um milagre do Halloween, a conversa foi interrompida por uma das babás, que precisava consultar a patroa por alguma questão de ordem. Era uma das sete babás que se revezam na casa ao longo da semana. Há pelo menos duas sempre por perto, vinte e quatro horas por dia, para acompanhar qualquer passo das quatro crianças e resolver todas as outras demandas da manutenção da casa. Berenice ocupara tal posição no passado, por quatro anos, e deixou o emprego quando viu seu salário original de 18 dólares/hora decrescer para 14. Carteira assinada e benefícios empregatícios nunca foi uma opção na casa. Como acompanhou o crescimento das crianças e seus próprios filhos se aproximaram delas, ela acaba voltando para visitá-las eventualmente. Quando cuidava delas, chegou a ensinar português para os mais velhos. O agradecimento de Faith veio seguido de um “Pena que não foi francês”.
Antes mesmo que Faith notasse, aproveitei a interrupção para escorregar para junto das crianças que brincavam corredor adentro. Berenice chegou em seguida com os filhos e, antes de ir embora, passou pela sala para se despedir de Faith. Minutos depois, quando entramos no carro, Berenice me encarou curiosa:

− O que foi que Faith falou com você?

− Por que você pergunta?

− Quando eu estava saindo, ela veio me dizer: “Cuidado com esse menino. Ele é perigoso.”

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Nuno Manna é jornalista e professor mineiro, doutorando em comunicação pela UFMG. Atualmente é pesquisador visitante na Columbia University, nos EUA. É autor do livro “A tessitura do fantástico”, que será lançado em março. 

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