A perifa vai ao paraíso

A perifa vai ao paraíso

Estamos diante de uma parcela da juventude que enxerga no espaço semipúblico do shopping center o meio para se fazer presente, escapar da invisibilidade e obter reconhecimento social

Por Wagner Iglecias

Sejamos francos: essa enorme polêmica gerada pelos rolezinhos de jovens e adolescentes de periferia começou, pra valer, no último sábado (11), depois que um shopping center de alto luxo entrou na agenda desses encontros. Antes, quando estavam ocorrendo em shoppings populares da periferia de São Paulo, não eram tratados como assunto muito relevante. Mas do último final de semana para cá o tema tem despertado paixões e reações raivosas. Um batalhão de cientistas sociais, juristas, jornalistas e milhares de outras pessoas têm se debruçado para analisar o fato ou cerrar fileiras a favor ou contra o fenômeno.

Independente de tudo o que já se falou sobre o caráter político ou não dos rolês, fato é que estamos diante de uma parcela da juventude que enxerga no espaço semipúblico do shopping center o meio para se fazer presente, escapar da invisibilidade e obter reconhecimento social. São meninas e meninos que nasceram dos anos 1990 em diante, quando o paradigma neoliberal já estava plenamente implantado neste país.

Se por acaso aqui este ou aquele governo é ou foi mais intervencionista em termos econômicos, se por ventura lá fora o ferramental neoliberal acabou levando à crise do subprime em 2008 e até o momento não conseguiu superá-la, fato é que o neoliberalismo venceu, e continua pautando fortemente a nossa sociabilidade. Consumo, sucesso e individualismo são hoje valores largamente hegemônicos na sociedade brasileira. Some-se a isso que essa molecada cresceu não apenas sendo bombardeada pela publicidade e pelos estímulos ao consumo como por um certo tipo de abordagem midiática que quase todo o tempo criminaliza a política. O que, por extensão, deslegitima a esfera pública e retroalimenta a valorização de saídas individuais para os problemas, fechando todo o ciclo.

Não à toa o funk ostentação repete todos estes valores. Letras e vídeos que invariavelmente remetem a carrões, roupas de luxo, bebidas, marcas de grife e baladas, configurando uma ética hedonista, individualista e imediatista na qual o que importa é curtir. Some-se a isso nesta narrativa a presença extremamente passiva da mulher, coisificada, pela enésima vez na música brasileira, como objeto sexual. Nada muito diferente do que se via na figura da mulata no samba dos anos 1970 ou o que se vê no sertanejo universitário contemporâneo.

Em algum dos “n” artigos produzidos nos últimos dias sobre os rolezinhos, algum analista disse que a ostentação serviria para “limpar”, diante das demais classes sociais, o estigma de pobreza dessa garotada, por meio do uso de roupas de grife. Se for isso mesmo, há que se informar que isso desgraçadamente não irá acontecer. Pelo simples fato de que o uso desta ou daquela roupa não tem o poder de transformar signos de reconhecimento mútuo muito mais complexos. Como o sotaque, o jeito de andar, a maneira de comer e outros sinais que todos, até as crianças, sabem ler e catalogar em caixinhas como classe social, escolaridade, região de origem etc. Mais que isso, roupa de grife alguma irá mudar a cor de pele de ninguém, muito menos numa sociedade profundamente racista como a nossa.

Essa garotada do funk ostentação estará miseravelmente equivocada se imaginar que poderá reacomodar o lugar dos afrodescendentes e dos pobres na estrutura social brasileira por meio destes símbolos. Por enquanto, o que essa juventude tem feito é repetir as sucessivas ondas de legitimação perante os estratos superiores da sociedade tal como outros grupos já fizeram antes. Quem nunca viu aquele cidadão de classe média que a duras penas consegue financiar uma viagem a Miami, de onde volta carregado de roupas e bugigangas tecnológicas que possam diferenciá-lo em relação aos seus pares? Vou além. Esse mimetismo é típico inclusive de nossas elites, secularmente preocupadas em reproduzir aqui os padrões de consumo de luxo de suas congêneres primeiro-mundistas. Os teóricos da nossa dependência e do nosso subdesenvolvimento já demonstravam isso há décadas, inclusive chamando atenção para o fato de como a manutenção de um padrão de vida nababesco por parte de uma ínfima minoria nos trópicos acarretava em profundos desequilíbrios em nossas economias coloniais. Como diria Cazuza, sobre nossas elites, “são caboclos querendo ser ingleses”. Ou, hoje, pensando nos rolezinhos, seriam manos querendo ser playbas?

Não deixa de ser interessante que o funk já não cante mais, como cantava na década de 1990, que o que a molecada da periferia queria era ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasceu, e poder ser orgulhar de ter a consciência de que o pobre tem o seu lugar. Esse lugar, a quebrada, a perifa, o gueto, essa molecada não quer mais. A grana, ainda que curta, e as redes sociais, lhes dão uma mobilidade e um poder de comunicação que seus pais, na década de 1980, jamais tiveram. Mas o shopping e a ostentação não farão do jovem pobre muito mais do que isso que hoje ele já alcançou, ou seja, o status de consumidor de baixa renda re-estigmatizado. Muito melhor e efetivamente transformador seria se essa garotada tivesse acesso a teatros, cinemas, bibliotecas, áreas verdes, centros esportivos e de lazer, tão ou mais inacessíveis a eles quanto estes ocos templos de consumo. Mas infelizmente não parece ser o caso.

Numa entrevista nos anos 1990 Lula disse que o brasileiro não queria a revolução, mas sim ter uma vida digna e poder fazer um churrasquinho com os amigos no final de semana. Exímio leitor da alma brasileira que foi (ainda seria?), Lula em seu governo não politizou ninguém, mas tirou 30 milhões de pessoas da miséria e de fato levou os pobres ao shopping center. Não foi pouca coisa. No entanto, não basta.

wagner-igleciasWagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.

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