A revolução será musicada

A revolução será musicada

Inquietações com a realidade e inconformismo político fizeram do El Efecto a voz de uma revolta anunciada.

Por Ivan Longo

“Vamos todos celebrar! O progresso chegou / trazendo fome, miséria, desemprego e dor / Eu me sinto humilhado e guardo rancor / pois no trabalho eu fui trocado por um robô”. Essa situação soa comum a milhões de brasileiros, e a intenção da banda carioca El Efecto ao compor a música Tilt, cujo trecho citado faz parte, e todas as outras canções que compõem os três álbuns gravados pelo conjunto, é justamente a de evidenciar os agravos e revezes que a população em geral tem que se submeter por conta dos interesses de uma elite econômica e, acima de tudo, promover o debate público acerca desse tipo de condição.

Foto: Thiago Fusco

Foto: Thiago Fusco

Tendo em vista esse mote para a composição que guia a banda, somado às crescentes mobilizações populares que tiveram início em junho do ano passado, fica a impressão de que o El Efecto surgiu como uma voz no cenário musical que representaria o descontentamento em massa da população que saiu às ruas por todo o país. De fato, o conjunto carioca conseguiu agregar essas insatisfações e injustiças sociais em suas canções e fazer de suas construções um grito de protesto. Mas o grupo, na verdade, existe desde o ano de 2002, e suas músicas não são produto das últimas revoltas, mas sim um chamado e, mais do que isso, uma espécie de profecia em relação às grandes mobilizações que viriam a acontecer. Antes mesmo de se falar em Black Blocs, o El Efecto já entoava: “No meio do caminho uma pedra pareceu ser o caminho” e “Pedras e sonhos são nossas únicas armas”. Ou ainda “nunca é tarde para se libertar, despertar, não mais temer”.

Bruno Danton (voz, guitarra e trompete), Tomás Rosati (voz, percussão e clarinete), Pablo Barroso (voz e guitarra), Eduardo Baker (baixo) e Gustavo Loureiro (bateria) carregam como princípios básicos da banda não só a inquietação política e o debate da realidade social em que vivemos como também o inconformismo estético musical, o que os levaram a criar construções plurais que rompem com o paradigma da indústria cultural.

Utilizando a explosão revolucionária do rock como base, o El Efecto dialoga com ritmos regionais como o baião, o xaxado, o sertanejo e o funk carioca, além de contemplar em suas canções experiências do tango, da música erudita, da música experimental, do reggae, blues e soul. Essa mescla de ritmos também se justifica pelo próprio propósito militante que a banda classifica ter. A ideia é se aproximar de determinados elementos musicais que tragam consigo simbologias que compartilhem da luta social que defendem, o que fica muito claro na utilização de ritmos ligados à resistência da cultura popular.

Um último ponto em relação às melodias em si é o diálogo que existe entre as palavras e os sons. Para o El Efecto, muitas vezes a variação dos ritmos musicais é estimulada por uma característica do discurso e da ideia que querem passar. Esse coquetel Molotov musical, que explode em ritmos e ataca com ideais, não se limita ao entretenimento e reinventa mais uma arma muito utilizada pelo povo durante os Anos de Chumbo – a música – para ser agregada às lutas populares que se intensificarão neste ano de “Copa para todos”.

A ideia de criar uma banda com esse propósito surgiu no ano de 2002 como forma de agregar o gosto musical com o incômodo com o mundo tal como ele é por parte dos integrantes. O El Efecto foi a maneira encontrada para reunir esses dois sentimentos para, assim, produzir músicas estimulantes e capazes de gerar inquietação, tanto política, quanto estética. Entre as influências musicais dos cinco jovens cariocas estão nomes de peso da música de protesto e que retratam a realidade dos mais oprimidos: os paulistanos do rap Racionais e Facção Central, a também paulistana banda Karnak e os clássicos americanos de música rebelde Rage Against the Machin e System of a Down encabeçam a lista das inspirações.

Não há pauta que gire em torno da desigualdade, da opressão, da higienização social, dos interesses do agronegócio ou das grandes corporações que não faça parte das composições do El Efecto. Seja de maneira direta ou indireta, por meio de fábulas e da criação de personagens fictícios, ou ainda com referências históricas para falar de temas atuais. A música “Cabrais”, em clara referência ao governador do estado do Rio de Janeiro e ao primeiro colonizador do Brasil, é bom exemplo para ilustrar esse tipo de relação:

“Pra matar índio quem chegou de caravela?
Cabral! Cabral! Cabral!
Pra matar pobre que chegou lá na favela?
Cabral! Cabral! Cabral!”

Ao todo, o El Efecto tem três discos gravados: “Como Qualquer Outra Coisa”, lançado no ano de 2004; “Cidade das Almas Adormecidas”, em 2008, e o mais recente, “Pedras e Sonhos”, de 2012. Por ser uma banda independente e que tem por princípio estimular a inquietação e o inconformismo, sem se contradizer, todas as músicas estão disponíveis para download gratuito no site do conjunto.

Em 2014 a banda espera que suas músicas façam cada vez mais pessoas a sair da zona de conforto e deixar de enxergar apenas o que “o olho escolhe ver”, e que suas canções sirvam como um testemunho da necessidade de indignar-se seja para lutar por transformações sociais ou para rechaçar as tentativas de apropriação da luta pelas tendências conservadoras. Como propagadores de ideias libertárias e anticapitalistas, os jovens cariocas querem que um número maior de pessoas se aproxime das lutas contra as injustiças e esperam ainda que essa aproximação se dê de forma ainda mais densa que no ano passado.

Por estarem mais concentrados no Rio de Janeiro, já se deparam cotidianamente com esse legado da “Copa de todo mundo”: despejos, remoções, violação dos direitos dos pobres e repressão policial. Em contrapartida, o aumento das medidas opressoras, para a banda, só faz crescer ainda mais a articulação social e política e fomenta o surgimento de novos núcleos de resistência, como, no caso do Rio, a Ocupação Quilombo das Guerreiras, Providência e Porto Maravilha, Favela Metrô Mangueira e Aldeia Maracanã.

Além do apoio e presença garantida nas mobilizações do Rio de Janeiro, o El Efecto quer ampliar os seus horizontes e tem como desafio plantar as raízes da banda também no Centro-Oeste e no Nordeste, além de terem como objetivo um contato maior com a América Latina que, segundo eles, os inspira tanto na concepção estética quanto política.

Neste ano de Copa e eleições, de opressão na rua e entretenimento na TV, o El Efecto estará presente para mostrar, como diz a música “N’aghadê”, que “nossa tela, nossa cela, nossa solidão”. Continuará pregando que “A revolução não será televisionada. Que assim seja! Que assim se faça”. No que depender da banda incendiária do Rio de Janeiro, a revolução será musicada. Que assim seja! Que assim se faça!

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