Sobre rolezinhos, funk ostentação e a conhecida criminalização da cultura negra

Sobre rolezinhos, funk ostentação e a conhecida criminalização da cultura negra

A juventude negra, tal como todo o povo negro, tem sofrido muitas ausências, e qualquer iniciativa que nos coloque como protagonistas de nossa própria história merece respeito e louvor. Sair do papel de sobrevivente e tornar-se ser atuante em busca de satisfação e felicidade é um ganho sem tamanho e sem precedentes

Especial Blogueiras Negras para a Fórum Digital| Por Zaira Pires

rolezinho

(Imagem Divulgação)

Com um misto de sentimentos, recebo a notícia da proposta de criação dos “rolezódromos”, que o presidente da  Alshop (Associação dos Lojistas de Shopping), Nabil Sahyon, fez ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Estes seriam espaços públicos, criados para que os jovens frequentadores de rolezinhos pudessem realizar seus encontros em outros lugares que não os shoppings, já que se convencionou dizer que os eventos acontecem nos centros de compras pela ausência de locais de lazer gratuitos voltados para a população da periferia das cidades.

Sinto ao mesmo tempo raiva, nojo, revolta, uma imensa tristeza e vontade de gritar. Quanto o racismo pode tomar proporções pavorosamente gigantescas e como jovens negros e pobres exercendo sua liberdade de ir e vir podem incomodar tanto àqueles que insistem em hierarquizar o valor das pessoas de acordo com sua cor de pele.

Sim, cor de pele, porque, ao contrário dos que pregam que o Brasil é um país miscigenado e por isso mesmo é impossível que haja racismo, os mecanismos de opressão e a sistemática que mantêm no lugar mais conveniente ao poder sempre as mesmas pessoas, sabem exatamente a aparência daqueles que não podem entrar no shopping. Apesar de dizerem que a raça ou a classe social não sejam os critérios usados para barrar ou liberar o acesso dos jovens aos shoppings nos dias dos eventos, na prática, o que acontece é o contrário. Pobreza no Brasil tem cor e motivação histórica, estamos cansados de saber.

Quanto os rolezinhos, diversas variáveis contribuíram para seu aparecimento. Eles vêm acompanhados principalmente, da cultura do Funk Ostentação, gênero musical surgido no estado de São Paulo como uma “adaptação” paulista ao Funk carioca, conhecido como “proibidão”. São Paulo, a metrópole do consumo, do progresso, do trabalho, da “meritocracia”, entre as principais capitais do mundo, sempre colocam sonhos de consumo e riqueza em seus moradores. Essa cidade, que nos promete tanta coisa, nos seduz de tantas formas. Qualquer paulistano, de nascimento ou de coração, tem centenas de vontades que são cotidianamente alimentadas pela dinâmica da cidade e da ideia de que “ter” é mais importante que “ser”. E não ouso dizer que isso é errado.

O funk ostentação surge como reação dessa juventude ao ostensivo incentivo ao consumo, à publicidade que cria sonhos e desejos. Das corporações que têm sido cada vez mais sofisticadas em ganhar as mentes, corações e bolsos dos seus consumidores, vendendo não um produto ou serviço, mas um estilo de vida certo em detrimento de outros errados.

Soma-se ao fenômeno da “Nova Classe C” e à possibilidade de mais pessoas terem acesso a mais serviços e bens de consumo que antes eram exclusividade dos mais ricos. Democratiza-se o acesso, dá-se maior poder de compra e afirma-se que ter o novo carro do ano é pré-requisito para ser feliz. Quer dizer, a juventude periférica das principais cidade do país quer acessar a tudo o que se promete todos os dias na TV, os carros, as roupas, as festas, as viagens.

Tudo isso com a facilidade e agilidade de articulação que a popularização da internet e o uso das redes sociais possibilitam, conectando virtualmente pessoas com interesses em comum, mas que de outra forma dificilmente se conheceriam. Está posto o contexto perfeito para o surgimento dos rolezinhos: jovens que veem e ouvem todos os dias que temos que comprar, temos que ter, temos que parecer, que agora temos mais dinheiro. Aqueles garotos e garotas se reúnem dentro dos espaços mais representativos dessa cultura do consumo e do bem estar individual, os shoppings.

Maravilhoso dizer aos nossos jovens que o que define o que podemos ou não é exclusivamente a nossa vontade. Todo esse fenômeno do funk, tanto o carioca quanto o paulista, tem tido efeitos positivos sobre a nossa juventude. Servem para elevar a autoestima, melhorar a sociabilidade, se reconhecer em uma letra de música. Com o funk, os jovens periféricos ouvem seu cotidiano cantado no rádio, nos programas de TV das maiores emissoras do país.

Nos clipes de funk, meninos iguais a eles, que têm a mesma origem, vem dos mesmos bairros, vilas e favelas que seus eles, têm carros de luxo, bebidas caras, mulheres bonitas, roupas de grife. O quão positivo é para a autoestima de um menino e de uma menina ver seus iguais na TV ocupando espaços não subalternos, sendo olhados com respeito e não com desprezo ou repulsa ou curiosidade.

MC Guime – Plaque de 100

Vale conferir o documentário Funk Ostentação (acima), sobre o surgimento do ritmo, sua origem, seus criadores, a estética e os valores desse fenômeno. O doc foi produzido por Kondzilla, a principal produtora de clipes de funk, responsável por vídeos com milhões de acessos no Youtube. Konrad Dantas, o idealizador da Kondzilla, tem apenas 24 anos. Ele foi um empreendedor lúcido que enxergou no funk uma oportunidade, enquanto as grandes produtoras torciam o nariz para o gênero marginal e não queriam fazer os clipes.

A juventude negra, tal como todo o povo negro, tem sofrido muitas ausências, e qualquer iniciativa que nos coloque como protagonistas de nossa própria história merece respeito e louvor. Sair do papel de sobrevivente e tornar-se ser atuante em busca de satisfação e felicidade é um ganho sem tamanho e sem precedentes. E não há nenhuma dúvida de que o funk, sua estética e seus valores são grandes agentes dessa transformação.

E é justamente daí que vem toda essa repressão simbólica e violenta ao funk e ao rolezinho. Quando se criminaliza o funk, se está afirmando que aquela música é perigosa porque empodera e liberta pessoas que deveriam ser mantidas na submissão. Quando se busca liminares na justiça para proibir o acesso dos jovens negros aos shopping e quando se criam rolezódromos para domesticar o exercício de uma liberdade constitucional, se está afirmando que essas pessoas não podem pensar, não podem se associar livremente, muito menos acessar os templos de consumo, os grandes símbolos capitalistas que separam quem pode estar ali de quem deve se manter à margem.

A classe C querer comprar fogão, geladeira, celular, tudo bem. Aliás, até bom, enche mais os bolsos dos donos dos grandes magazines vendedores de carnês à prazo. Agora, essa galera achar que pode querer entrar no Shopping JK Iguatemi e desejar ter roupas, calçados e produtos das grandes grifes mundiais, aí já é vandalismo.

Mas isso que observamos hoje não é nenhuma novidade. Os motivos pro funk ser tão perseguido são os mesmos pelos quais o samba foi criminalizado no seu início: música de preto, feita por e para a negritude, dando voz aos seus desejos. O mesmo aconteceu com a capoeira, por exemplo, bem retratado no filme Besouro, filme de João Gabriel Tikhomiroff, lançado em 2009.

Jovens são enquadrados por policiais por rolezinho no shopping (Foto: Reprodução/Youtube)

Jovens são enquadrados por policiais por rolezinho no shopping (Foto: Reprodução/Youtube)

Manter as pessoas na caverna é lucrativo, seguro, assegura a ordem social, o status quo. Imaginem o tamanho da ameaça que milhares de jovens livres e felizes representam – mas não perigo de tumulto, arrastão ou roubo. Imaginem essa galera toda exigindo ser feliz e ter acesso a todos os direitos que lhes são negados criminosamente todos os dias. Viver e ser feliz apesar da imensa investida opressora que fazem contra nós é extremamente revolucionário e perigoso.

A galera da parte de cima da pirâmide está com medo de ter que sair do ar condicionado e vivenciar o calor dos trópicos que existe fora das suas salas de estar, escritórios, SUVs e shoppings. Gente que sabe seu poder é perigosa, é ameaçadora. Gente que grita porque sabe que tem o direito de ser ouvida pode inverter toda a lógica. Em macroescala, todo um sistema pode entrar em colapso.

E é por isso que o funk, os rolezinhos, a estética da juventude negra estão na mira, aliás, como sempre estiveram. Apesar de terem todas as armas, a anuência do Estado, os serviços da Polícia Militar, o dinheiro, o poder, as grandes corporações, o monopólio comunicacional, nada segura uma juventude que não tem nada a perder e que quer ganhar o mundo, nem que seja cantando funk e paquerando em frente às vitrines das lojas de luxo usando uma réplica de um tênis da Nike comprada do camelô da 25 de março.

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