Editorial – Segurança Pública para quem?

Editorial – Segurança Pública para quem?

Episódios dos últimos dias mostram o tom da política de segurança pública de São Paulo, calcanhar de Aquiles dos governos tucanos no Estado, que pode ser a pedra no sapato do projeto de permanência do partido

 

Os últimos dias foram simbólicos para demonstrar o tom da política de segurança pública no estado de São Paulo. Na segunda semana do mês, 12 pessoas foram executadas em poucas horas em Campinas, logo após um PM ser morto em uma tentativa de assalto. Relatos de testemunhas levaram à suspeita de que policiais militares teriam sido os autores da chacina. A Polícia Civil e a Corregedoria da PM investigam. Nessa semana, cinco soldados foram presos porque uma testemunha reconheceu um deles como autor dos tiros que mataram uma 13ª vítima de Campinas. A Polícia investiga se esses soldados estiveram envolvidos com as outras mortes.

Poucos dias mais tarde, a PM voltou a mostrar truculência ao reprimir os rolezinhos promovidos por jovens da periferia em shoppings; depois, ao invadir a região da Cracolândia supostamente atrás de traficantes sem avisar a prefeitura, que desde o dia 13 vem realizando lá o Programa Braços Abertos, oferecendo um atendimento humano aos dependentes químicos.

No dia do aniversário da cidade de São Paulo, o estoquista Fabrício Proteus Chaves, de 22 anos, foi baleado duas vezes, em circunstâncias ainda repletas de contradições. Os policiais disseram que agiram em legítima defesa porque o rapaz os ameaçara com um estilete que ele usa para rasgar a fita adesiva das caixas que abre na loja onde trabalha.

Esta edição da Fórum traz reportagens e entrevistas que, de uma maneira ou outra, procuram refletir a respeito dessa maneira de o Estado exercer seu poder de polícia, passando pelo viés do preconceito. O professor de Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser esclarece o que vem a ser terrorismo, pondo por terra argumentos de parcela da sociedade que defende a ação truculenta da polícia contra os movimentos sociais, num aceno de retrocesso em um ano que completa meia década a instalação da ditadura no Brasil.

Os rappers MV Bill e Dexter, em entrevista exclusiva à revista, abordam o preconceito e a perseguição que a população negra, pobre e da periferia sofre, inclusive na academia, onde os alvos para treino de tiro são bonecos pretos (“o pessoal leva isso a sério”, diz MV Bill). Em outra reportagem sobre preconceito, abordamos as dificuldades que travestis e transexuais têm em se inserir no mercado de trabalho e frequentar escolas, o que leva muitas delas à prostituição.

Outra reportagem sobre músicos fala da onda do funk ostentação, um fenômeno paulista, apelidado de “funk do bem”, marcando a diferença com o “proibidão” carioca, cujas letras abordam a criminalidade. O funk ostentação exalta o acesso aos bens de luxo, antes disponíveis apenas aos mais favorecidos, e vem se firmando nas redes sociais, com vídeos acessados milhares de vezes, e ocupando espaço em matérias da TV e capas de revistas tradicionais.

Falar em mídia tradicional, uma delas exibiu, em sua página na internet, imagens de presos decapitados no presídio de Pedrinhas, no Maranhão. As cenas chocaram, mas mostramos nesta edição que o caso de São Luís não é único e a situação que levou a esta reação lá, a da superlotação, é jogada para baixo do tapete, pois não rende votos.

Ainda a respeito de votos, outra matéria analisa as dificuldades que o PSDB deve ter para reeleger Geraldo Alckmin em São Paulo. Há fragilidades em sua administração e o reinado de 20 anos dos tucanos no Estado está ameaçado. O principal ponto fraco: a segurança pública…

Foto de capa: Mídia Ninja

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