O que eles têm, nóis têm em dobro

O que eles têm, nóis têm em dobro

Grifes famosas, marcas de luxo, automóveis e bebidas. A mudança de status social é o principal tema do funk ostentação, que vem conquistando cada vez mais fãs em São Paulo e no Brasil

Por Anna Beatriz Anjos

 

“Cheguei, saí fora
Voltei, e bem acompanhado
Eu sou Daleste
Com as top de Angra do lado
São Paulo é ostentação,
O dele é lata, o meu é ouro
O que eles têm, nóis têm em dobro”

(“São Paulo” – MC Daleste)

Daniel Pedreira Senna Pellegrine, o MC Daleste, autor da letra acima, não teve muito tempo para desfrutar da boa situação financeira que ostenta em sua música. No dia 6 de julho de 2013, ele se apresentava em Campinas, no interior de São Paulo. O show acontecia em uma quermesse, realizada dentro de um conjunto habitacional da cidade. Daniel conversava com o público entre uma música e outra quando foi baleado no abdômen. Minutos antes, outro disparo havia atingido “de raspão” seu braço direito. Mesmo assim, permaneceu no palco, cantando, sem imaginar o que aconteceria depois.

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Quando foi assassinado, em julho de 2013, MC Daleste já havia se consolidado como um dos grandes nomes do funk ostentação (Foto: Reprodução/Youtube)

Daleste tinha 20 anos quando morreu. Ainda assim, já fazia cerca de 40 apresentações por mês, o que lhe rendia um salário de aproximadamente 200 mil reais mensais. Morador da Penha, na zona leste de São Paulo, nasceu em família humilde, mas mudou de realidade ao se tornar MC (master of cerimony) de funk. Como disse em entrevista ao repórter Bruno Paes Manso em março do ano passado, poucos meses antes de ser assassinado, “a minha vida mudou da água para o champanhe”.

A transformação drástica de condição financeira é tema central de suas composições, cheias de referências a grifes famosas, marcas de automóveis e bebidas. Por isso, ele se consagrou como um dos principais cantores do funk ostentação, que vem conquistando cada vez mais fãs em São Paulo e no Brasil.

O ritmo surgiu na Baixada Santista e na região metropolitana de São Paulo entre os anos de 2008 e 2009. Aos poucos, foi ganhando a periferia da capital paulista, principalmente a zona leste, com destaque para Cidade Tiradentes. De lá vieram os MCs Bio G3 e Backdi, considerados precursores do estilo, que atingiram fama, em 2009, com a música “Bonde da Juju”. São Paulo, que vivia, até então, a era do “proibidão” (cuja principal temática é a criminalidade e o tráfico de drogas), assistiu a uma “virada” no mundo do funk: começaram a conquistar espaço as letras relacionadas ao consumo.

Nesse sentido, “Bonde da Juju” veio para marcar. Seus 2 minutos e 45 segundos de duração trazem praticamente um lista de marcas sofisticadas e caras. O próprio nome escancara uma delas: “Juju” é abreviação de “Juliet”, um modelo de óculos de sol da marca Oakley. Mas não para por aí. “Tá de Juliet, Romeo 2 e Double Shox /18K no pescoço, de Ecko e Nike Shox”, diz o refrão.

O sucesso estrondoso da vertente, no entanto, não se deve apenas às músicas. Quem as colocou em evidência foram os videoclipes. E não são videoclipes caseiros, que contam com poucos recursos técnicos: os de maior audiência na internet foram produzidos por profissionais especializados nesse mercado. O protagonista desse cenário é o santista Konrad Dantas, o KondZilla, dono de uma produtora que leva o mesmo nome. Seus mais de 90 clipes postados no Youtube ultrapassam os 250 milhões de exibições. Em seus trabalhos, ele abusa das figuras de carros e motocicletas importados, grossos cordões de ouro, mulheres bonitas e bebidas caras. Isso acabou se tornando uma estética característica do funk ostentação, reproduzida pela maioria de seus artistas. A inspiração vem do hip hop norte-americano, de rappers como 50 Cent e Lil Wayne, que também cantam versos sobre dinheiro e mulheres.

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Konrad Dantas, o KondZilla, tem mais de 90 clipes postados no Youtube. Além dos MCs de funk ostentação, ele já dirigiu clipes de bandas de rock, como Charlie Brown Jr  (Foto: Reprodução/Youtube)

Foi KondZilla quem dirigiu o primeiro clipe do estilo a alcançar número significativo de visualizações no Youtube. O vídeo da música “Megane”, lançado em abril de 2011 pelo MC Boy do Charmes, já havia sido visto quase 7 milhões de vezes até a publicação dessa matéria. De novo, o consumo é o tema central. “Mas os manos são do bom / Bota o Puma Disc que hoje tem baile / Tô com cordão de ouro e vai no pulso um Authblaint / Cheiroso pra caralho, tô de Armani ou de Ferrari” canta o MC.

Outro ator importante nos bastidores do funk ostentação é a FunkTV, que cria todo tipo de conteúdo relacionado ao funk em geral. Anderson Castilho da Silva, o Montanha, um de seus fundadores, relembra que, no começo, os equipamentos eram emprestados, mas que agora a situação é diferente. “Hoje, os nossos equipamentos são top de linha, e o melhor: são nossos”.

A equipe da FunkTV  produziu um dos vídeos de música mais acessados no Youtube em 2013, segundo ranqueamento realizado pelo próprio site. O clipe “O bonde passou”, do jovem MC Gui, fenômeno entre o público adolescente, ocupa o 4º lugar e tem mais de 30 milhões de visualizações. Dos 10 mais vistos, 5 são de funk, sendo 3 de funk ostentação. MC Guime, com “Na pista eu arraso”, figura na 3ª posição. Na 9ª está “Mais amor, menos recalque”, do MC Daleste.

Em 2012, a KondZilla, junto a outras produtoras, lançou o documentário “Funk Ostentação – o Filme”. Alternando trechos de videoclipes e entrevistas com personagens-chave, o média-metragem recupera a trajetória do “funk do bem”, como ficou conhecido pela grande mídia.  Alguns dos maiores expoentes do gênero atualmente, como os MCs Guime, Boy do Charmes, Bio G3, Dede e Menor do Chapa – o primeiro carioca a cantar o consumo – aparecem, entre uma batida e outra, contando a história que eles próprios ajudaram a escrever.

O MC Guime é um dos maiores sucessos do funk ostentação. O clipe de sua música "Na pita eu arraso" foi o terceiro mais visto no Youtube em 2013 (Foto: Reprodução/Youtube)

O MC Guime é um dos maiores sucessos do funk ostentação. O clipe de sua música “Na pista eu arraso” foi o terceiro mais visto no Youtube em 2013 no Brasil (Foto: Reprodução/Youtube)

 

Como é ser um MC

 

“Imagina nóis de Audi
Ou de Citröen
Indo aqui, indo ali
Só pam
De vai e vem”
(“Vida Loka Parte II” – Racionais MCs)

Foi ouvindo os versos dos Racionais MCs que Wellington de Aguiar França, o MC Boy do Charmes, criou “Megane”, seu hit de estreia. O refrão faz referência clara à letra dos rappers, lançada em 2002 no CD “Nada como um dia após o outro”. “Imagina eu de Megane ou de 1100 / Invadindo os bailes, não vai ter pra ninguém/ Nosso bonde assim que vai / É euro, dólar e nota de 100”.

À época com 19 anos, ele trabalhava como ajudante de pedreiro na Baixada Santista, mas já havia sido porteiro e faxineiro de prédio. Uma conta bancária recheada existia apenas na imaginação. “Eu fazia música pros amigos da comunidade que cantavam antes de mim, só que nenhum deles explorou. Nisso, a molecada me incentivou a cantar, e comecei a cantar nos bailes e nas rádios comunitárias. No início, cheguei a ganhar 50 reais por show”, lembra.

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No início da carreira, o MC Boy do Charmes (foto) contou com o apoio do Mr. Catra, ícone do funk carioca (Foto: Reprodução/Facebook)

Nascido em Santos e criado em São Vicente, na favela do Charmes – daí vem o nome de MC – Wellington, agora com 28 anos, viu o sonho virar realidade. Depois do sucesso do videoclipe de “Megane”, ele abandonou o emprego na construção civil e investiu todas as fichas no funk, que ainda nem havia recebido a alcunha “ostentação”. “Foi o KondZilla (diretor do clipe) que falou ‘o nome disso aqui vai ser funk ostentação, porque a gente tá colocando cordão de ouro, as motonas, as mulheres. Isso vai chamar atenção, vai  ser uma coisa diferente’. Foi quando a gente colocou funk ostentação”, conta.

A aposta deu certo. Considerado um dos primeiros MCs a cantar sobre o consumo, Wellington faz hoje uma média de 4 shows por noite, começando na quinta-feira e terminando no domingo. Ao todo, são cerca de 45 apresentações por mês. Ficar com a mulher e os filhos – Manuela, de 2 anos, e Victor, de 1 – só de segunda a quarta. “Procuro curtir o máximo. No final de semana, é só descanso, show, descanso e show. Não dá pra fazer mais nada”, explica.

Ao descrever essa dinâmica, o funkeiro não exagera. Quando tem apresentações marcadas em São Paulo, ele e sua equipe saem da Praia Grande, onde mora atualmente, por volta das 22h. “O primeiro show costuma começar na faixa da meia-noite, uma hora”. Depois disso, não para mais. “Volto pra casa lá pras 8 da manhã”, relata.

Sua música extrapolou os limites da Baixada Santista e também de São Paulo, a capital do funk ostentação. Boy já levou suas rimas ao Recife (PE), Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC), Porto Alegre (RS), entre outras cidades. Nem o Brasil foi suficiente para ele. “Já fui pro Paraguai. Pros Estados Unidos estava pra ir, mas não deu certo. Penso que vou chegar lá”, diz.

 

Por que falar de consumo?

A popularidade do funk ostentação é incontestável. Nas periferias, os shows são recorde de público. “Lembro, logo no começo, do Bonde da Juju chegando (em uma balada) na zona norte e sendo ovacionado. Parecia o Roberto Carlos. Quando os caras subiram no palco, o pessoal foi à loucura”, lembra Montanha. Muitos dos jovens que vivem nas comunidades se identificam com as letras. Um deles é a estudante Thalia Amanda Alves, de 16 anos, que mora em Cidade Tiradentes. Ela diz se inspirar na música “Brasileiro que nunca desiste”, do MC Lon. “Eu sou brasileira e, independente dos acontecimentos, não vou desistir ou parar sem antes tentar”, explica.

O sucesso aconteceu também entre os “playboys”, como dizem os funkeiros, referindo-se às classes mais altas da sociedade. Não é à toa que até mesmo as boates além das periferias têm contratado shows dos MCs do momento. No dia 10 de janeiro deste ano, por exemplo, o palco do Club A, na zona sul de São Paulo, foi ocupado pelo MC Guime.

Para o antropólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alexandre Barbosa Pereira, que estuda o funk ostentação desde 2012, a rápida disseminação do gênero tem a ver com a mudança de temática em relação às vertentes anteriores. “O funk ostentação é considerado o ‘funk do bem’ porque não fala mais de crime. Foi essa denominação que permitiu sua popularização”, analisa.

Mesmo assim, os MCs e suas letras enfrentam o preconceito de quem as considera fúteis por conta das frequentes alusões ao consumo. Mas, para Pereira, essa representa justamente uma forma de afirmação para a juventude da periferia, que, como o restante da sociedade, é bombardeada durante toda a vida pela ideia de que comprar é essencial, de que cidadania é sinônimo de consumo. A diferença é que, marginalizado, esse jovem muitas vezes se vê distante desse universo de promessas e maravilhas oferecido pelo capitalismo. “Trata-se, em grande medida, da busca de um empoderamento e de um espaço de expressão e representação pelo consumo. Afinal, que outro elemento é mais valorizado em nossa sociedade que não o consumo praticado intensamente para se ter a novidade, da novidade, da novidade?”.

Sob essa ótica, o funk ostentação pode ser encarado como um grito da população mais pobre no sentido de mostrar ao mundo que ela também pode participar da festa. É no que acredita Montanha. “É a primeira vez que a periferia tem status. De repente, surge um estilo musical que diz que eu posso me vestir ‘bonitão’, com algo de marca e me sentir bem com isso”, aponta. “Afinal, quem não quer se sentir bem?”.

O poeta Sérgio Vaz, criador do Sarau da Cooperifa e um dos maiores porta-vozes da cultura da periferia, falou sobre como o funk ostentação espelha a realidade dos meninos e meninas das quebradas. Para ele, o ritmo é reflexo das condições de vida que encaram diariamente.  “Se você quiser entender o jovem, é aquilo ali. A educação que está tendo é aquela ali, a cultura que está tendo é aquela ali, a saúde também. A escola pública dos anos 60 produzia músicas como a do Chico, do Caetano e tantas outras. Com a falência do ensino público, você não quer que o cara cante “Construção” (do Chico Buarque). É isso que a molecada está vivendo, sem instrução decente e com vontade de consumir. Isso é explosivo”, disse, em entrevista ao jornalista Luiz Carlos Azenha neste mês.

Em 2012, foi lançado o documentário , que conta a história do ritmo (Foto: Reprodução/Youtube)

Em 2012, foi lançado o documentário “Funk Ostentação – O filme”, que conta a história do ritmo (Foto: Reprodução/Youtube)

O funk ostentação vem também como uma nova referência aos adolescentes das beiras da cidade. É o caso da estudante Cléo Carvalho, de 15 anos. Ela conta que seus funkeiros preferidos são Guime e Pocahontas, mas que nunca foi a uma de suas apresentações. “Admiro muito eles, é meu sonho ver eles de perto, abraçá-los”, diz. Cléo não hesita para explicar a razão de todo esse amor. “Eu gosto porque eles conquistaram, porque foram atrás. No começo, eram pobres e queriam ostentar, e hoje realizaram seus sonhos. Todos nós temos que ter isso em mente”. No documentário “Funk Ostentação – O filme”, o MC Bio G3 expressa a mesma leitura. “A molecada tá se inspirando no funk muito por causa disso. Não tá só se espelhando no traficante, no ladrão. Tá querendo se vestir igual, estar igual e chegar aonde a gente chegou”, afirma. MC Boy do Charmes relembra episódios que ilustram bem isso. “Vejo muita gente que vai pro baile funk com um carrão, vai curtir meu show e me mostra a chave. ‘Consegui comprar, consegui através da sua música’. Eu sou um incentivo pra pessoa que está me ouvindo. Acho que o funk ostentação é forte por causa disso”.

No final das contas, o funk ostentação, mesmo não tendo a essência político-ideológica do hip hop – como indica Montanha, “vem por uma necessidade básica que é o lazer. As pessoas queriam curtir, extravasar -, acaba abrindo novas perspectivas, ainda que ligadas ao consumo, para os moradores das periferias”. É o que MC Menor do Chapa explica em outra das cenas de “Funk Ostentação – O filme”. “Pra mim, isso é o funk da autoestima. Porque na comunidade os caras também podem andar de carrão, sem ser bandido, sem ser ladrão. Podem fazer uma faculdade. Você falar que tá com dinheiro no bolso, indo pra balada curtir a sua vida, na felicidade, isso te faz bem.”

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