Ruanda, 20 anos depois

Ruanda, 20 anos depois

As manchas sangrentas do genocídio ainda definem a imagem de Ruanda no pensamento de muitos, porém, a transformação pela qual o país passou é exemplar, e positivamente inspiradora

Por Vinicius Gomes e Ítalo Piva

Em seu livro “Sobrevivi para Contar”, Immaculée Ilibagiza conta como, 20 anos atrás, escapou de ser uma entre quase um milhão de pessoas mortas na Ruanda.

Ao passar três meses confinada em um banheiro minúsculo, junto de outras sete mulheres – sem alimentação ou condições mínimas de higiene –, elas tiveram que lutar contra o medo de serem descobertas e também contra o desespero de ouvir outras pessoas sendo mortas, sem nada que pudessem fazer. A vida dela e de milhares de outras pessoas mudou radicalmente.

Esse ano marca o 20º aniversário do genocídio em Ruanda. Em exatos 100 dias, de abril a julho de 1994, entre 800 mil e um milhão de ruandeses, predominantemente da etnia tutsi, foram massacrados quando um governo extremista liderado por outra etnia, a hutu, lançou um plano nacional para basicamente exterminar a minoria tutsi e qualquer outra que fizesse oposição à suas políticas, até mesmo hutus moderados. Foi um cenário infernal no qual assassinatos brutais – inclusive contra crianças e bebês – ocorriam por pessoas que até poucos dias antes eram vizinhos, colegas ou até mesmo amigos.

O genocídio só chegou ao final quando a Frente Patriótica de Ruanda (RPF, sigla em inglês), movimento tutsi liderado por Paul Kagame, saiu do país vizinho Uganda e derrubou o governo hutu. Kagame se tornou presidente em abril de 2000 e continua sendo até hoje.

As coisas mudaram muito em Ruanda desde então, e para o melhor. Foi a partir de 2006 que a evolução do país passou a mostrar dados impressionantes: mais de um milhão de ruandeses saíram da pobreza; o acesso à saúde e à educação está em expansão; um boom imobiliário transformou a capital Kigali, e pelo menos dois terços da população do país estão abaixo dos 25 anos, tornando o potencial para a força de trabalho de Ruanda extremamente promissor.

Apesar disso, o austero e exigente Kagame reconhece que o vírus do ódio, raiva e desejo de vingança não é fácil de se livrar: “A realidade é que essas coisas não desaparecem simplesmente”, ele diz. Outro alto oficial militar da RPF, Deo Nkusi, também explicou a dificuldade de se criar uma cultura de tolerância após décadas de disseminação disfarçada de ódio contra tutsis – que culminaram no genocídio. “Mudar as pessoas aqui é como dobrar o aço: as pessoas foram dobradas de uma maneira por 40 anos e agora elas têm que ser dobradas de outra. Se fizermos da maneira muito rápida, nós iremos apenas quebrá-las. Temos que exercer a pressão gradualmente.”

Histórico

Em 1994, a população de Ruanda era de sete milhões e dividida em três grupos étnicos: hutu (85%), tutsi (14%) e twa (1%) e a grande tensão existente era entre os dois primeiros.

Apesar de falarem o mesmo idioma, terem tradições similares e viverem basicamente lado a lado, hutus e tutsis foram se tornando “inimigos” durante o período colonial belga, que por décadas favoreceu os minoritários tutsis, dando a eles mais poderes do que para a grande maioria de hutus.

Entretanto, quando Ruanda conseguiu sua independência da Bélgica, em 1962, o país passou a ser governado por partidos políticos associados à maioria hutu, que pôs em prática, então, medidas para expurgar os tutsis de Ruanda, através de discriminação e violência. Em poucos anos, metade dos tutsis já vivia fora do país.

Mas mesmo assim, dentro de Ruanda, os extremistas da elite política hutu continuaram a fomentar o ódio contra a minoria tutsi – culpando-os por todos os problemas que Ruanda enfrentava, uma vez que eram politicamente independentes. A guerra civil explodiu de fato, em 1990, quando a RPF invadiu Ruanda pelo norte, fazendo com que os extremistas hutus passassem a acusar todo e qualquer tutsi ainda dentro de Ruanda de apoiar os rebeldes. Assim sendo, esses extremistas iniciaram uma compilação secreta de todos os tutsis e hutus moderados para serem assassinados, enquanto armava e treinava milícias de jovens, que foram usados para cometer massacres em pequena escala, sem ligar o governo com os assassinatos. A mais famosa dessas milícias foi a Interhamwe, que, em 1994, se tornaria a principal responsável pelo genocídio.

O genocídio

 “Fax do Genocídio”: General Roméo Dallarie informa a ONU sobre “ter tido contato com um informante através de um político muito, muito importante [...] oposicionistas eram para serem assassinados entrando ou saindo do parlamento”.


“Fax do Genocídio”: General Roméo Dallarie informa a ONU sobre “ter tido contato com um informante através de um político muito, muito importante […] oposicionistas eram para serem assassinados entrando ou saindo do parlamento” (foto: News of Rwanda)

Em 11 de janeiro de 1994, o general canadense Roméo Dallaire, comandante das forças de manutenção de paz da ONU em Ruanda, enviou um fax urgente para seus superiores na sede da organização, em Nova York, dizendo ter obtido de fontes internas do governo informações sobre um plano de extermínio dos tutsis, liderados pela Interhamwe. A mensagem ficou sendo conhecida como o “fax do genocídio” – e nenhuma providência foi tomada a respeito do alerta.

Três meses depois, na noite de 6 de abril de 1994, um míssil derrubou o avião que transportava o presidente ruandês, Juvenal Habyarimana, um hutu, que estava se aproximando da capital, Kigali. Até hoje não se sabe quem assassinou o presidente, mas essa foi a desculpa para que os extremistas hutus acionassem o plano que o general Dellaire havia descoberto em janeiro.

De maneira diabólica, os radicais assassinaram antes todos aqueles que pudessem se opor ao programa de extermínio, inclusive a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, uma hutu moderada.

Com o início das matanças sistemáticas da Interhamwe, muitos cidadãos hutus passaram também a tomar parte no massacre. Milhares e milhares de tutsis, ou pessoas suspeitas de serem dessa etnia, eram mortos em suas casas, nas ruas e principalmente nos bloqueios de estradas que foram montados para evitar que qualquer um fugisse. Da noite para o dia, famílias inteiras eram assassinadas por vizinhos, mulheres eram violentadas e qualquer hutu que fosse pego dando auxílio ou refúgio a tutsis era brutalmente morto.

Em pouco mais de três meses, acima de 80% da população tutsi de Ruanda foi dizimada, muitos com machados, facas ou pedaços de madeira, gerando as imagens mais horríveis que a humanidade viu desde o Holocausto.

Memorial do Genocídio na Escola Técnica de Murambi; palco de um dos piores massacres do genocídio, quando 40 mil pessoas foram mortas com facões entre 19 e 22 de abril de 1994

Memorial do Genocídio na Escola Técnica de Murambi; palco de um dos piores massacres do genocídio, quando 40 mil pessoas foram mortas com facões entre 19 e 22 de abril de 1994 (foto: Wikimedia Commons)

As manchas sangrentas do genocídio ainda definem a imagem de Ruanda no pensamento de muitos. Não há como negar que feridas ainda existem que talvez nunca sarem. Porém, a transformação pela qual Ruanda passou, especialmente na ultima década, é exemplar, e positivamente inspiradora. Programas bem-sucedidos de reconciliação étnica, saúde e economia, impulsionaram melhorias no país jamais vistas antes, não só na África, mas no mundo inteiro.

Os dados são impressionantes em várias frentes: o PIB triplicou nos últimos dez anos, enquanto a renda per capita subiu de 220 para 600 dólares no mesmo período; a economia vem crescendo em média 7% ao ano desde 2007; os níveis de pobreza caíram 11% desde 2006; e o IDH saltou de 0,314 em 2000 a 0,434 em 2012, com um aumento anual de em torno 3%.

O ministro de planejamento econômico, Claver Gatete, afirmou em entrevista ao “Sunday Times”: “Os níveis de pobreza caíram por causa dos grandes investimentos em vários setores de nossa economia. Analisando nosso progresso, em termos do crescimento anual de em média 2,73% (do IDH), estamos muito acima do patamar africano, que é em média 1,34% desde 2000”.  Fatores como esses têm atraído investidores estrangeiros em massa, e, de acordo com o mais recente relatório do Banco Mundial, Ruanda é o segundo país “mais fácil de se fazer negócios” na África inteira, e o país que mais avançou mundialmente desde 2005 nesse mesmo critério.

Os avanços na saúde também têm sido alvo de elogios pelo mundo todo. Políticas alternativas de gerenciamento – como um plano nacional de seguro médico que já cobre mais de 90% da população e requer um pagamento de apenas 10% dos custos totais – ou um programa que implementa por eleição e treinamento três fornecedores de tratamentos básicos em cada comunidade do país, vem reduzindo diversos índices a níveis inacreditáveis.

Desde 2002, Ruanda conseguiu abaixar o número de mortes por aids em 78%, graças a incentivos na educação, prevenção e distribuição de medicamentos antivirais, que são dados gratuitamente aos pacientes. A mortalidade infantil no mesmo período caiu 70%, levando o professor Paul Farmer, da Harvard University, a afirmar em um podcast do “The Guardian”: “Essas são as maiores quedas em mortalidade já testemunhadas, em qualquer momento ou país”. A ministra da Saúde, Agnes Binagwaho, descreve a filosofia que levou a tais quedas: “Nós entendemos que a saúde é um assunto social, que existem determinantes sociais que influenciam a saúde. Se nós focássemos somente no ministério da saúde, não sairíamos do lugar”.

O progresso ruandês não acaba em números e dados. A capital Kigali foi descrita pela presidente da DHL Express na África, Julie Mutoni, como “a cidade mais limpa e organizada da África”, e pelo banqueiro britânico Charles Robertson, da Renaissance Capital, como “a Cingapura da África”.  Todo último sábado do mês é um dia de limpeza nacional, quando nas cidades negócios não abrem e todos, de todas as etnias – inclusive o presidente Paul Kagame – participam dessa atividade em massa que visa não só manter as cidades limpas, mas promover a união nacional. “Esse dia de limpeza tem ajudado Ruanda a se recuperar do genocídio e da guerra civil em múltiplas maneiras, criando um senso de propósito e aproximação entre o povo”, afirma o presidente Paul Kagame.

A África, por conta de inúmeros motivos, é um dos continentes mais problemáticos quando se trata de desenvolvimento econômico e social. Ao observar a história recente de Ruanda, que há 20 anos passou por uma experiência incrivelmente traumática, é inegável concluir que é de fato uma história de sucesso, não só para o continente africano, mas para o planeta como um todo.

Problemas e obstáculos ainda existem e sempre existirão. O presidente Kagame ainda pode ser muito criticado por suas ações militares em outros países, notavelmente na região oriental da República Democrática do Congo, por exemplo. Mas o esforço para reerguer e unificar um país após o assassinato de centenas de milhares de pessoas, praticado por seus próprios cidadãos, é enorme. Considerando esse pequeno país africano, que mal se consegue localizar no mapa, Ruanda de fato é um exemplo.

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