Editorial: Sobre terror, liberdades e populismo

Editorial: Sobre terror, liberdades e populismo

A morte do cinegrafista Santiago Andrade remete a um trecho de uma entrevista publicada na edição 122 de Fórum. Ali, o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira falava a respeito do comportamento midiático em relação a episódios que deveriam ser abordados de forma mais cuidadosa. “Temos um discurso, que se transformou em uma cultura social, voltado para a repressão, e não para a prevenção. A mídia tem muita culpa nisso, pois não encara o crime como uma tragédia, e sim como um espetáculo”, disse.

No caso em questão que mobilizou a imprensa e parte da classe política, seria precipitado até falar em crime, já que as circunstâncias não foram completamente explicadas até o momento. Entretanto, não só a mídia, mas o poder político já se levantou e, como sempre, de forma reativa, busca uma saída populista para satisfazer a opinião publicada. É nesse cenário que entra a votação da lei antiterrorismo, uma dessas aberrações jurídicas encomendadas pela Fifa e que, agora, serve também como provável resposta ao lamentável episódio envolvendo Andrade.

Toda morte ocorrida em um contexto assim é uma tragédia. Mas, espetacularizada, perde seu sentido original e passa a servir a interesses nada republicanos como o aumento da repressão a protestos e manifestações. Respostas a estes e tantos outros episódios violentos já estão inscritas no Código Penal, mas legisladores sempre acham por bem reagir reforçando a cultura punitiva, ignorando aspectos como a baixa eficiência da polícia em termos de investigação ou a seletividade do Judiciário.

Foi assim, pro exemplo, que surgiu a Lei de Crimes Hediondos, em 1990. Sua ineficácia pode ser comprovada pelo aumento dos índices de violência em todo o país, só tendo como resultado palpável o aumento da superlotação carcerária. Ter mais gente nas cadeias não propiciou mais segurança. Mas ainda assim, a maioria finge que não vê esse dado.

Respostas legislativas que sequer foram debatidas não podem ser efetivadas ao sabor de clamores midiáticos, sob o risco de se produzir ainda mais supressão de direitos e mesmo danos àqueles a quem deveria, supostamente, proteger. A sociedade precisa reagir a tempo e o Congresso não pode se deixar encastelar dialogando apenas com a mídia, precisando interagir, também, com os diversos segmentos sociais que sofrem com a omissão do poder público.

Compartilhe

Deixe uma resposta