Jean Wyllys: “Marco Feliciano não vai ficar impune”

Jean Wyllys: “Marco Feliciano não vai ficar impune”

Deputado do Psol fala sobre novas denúncias contra o pastor e deputado do PSC. Ex-assessor de Feliciano declarou que mentiu à PF, sob orientação do parlamentar, sobre vídeos difamatórios que atacavam defensores da causa LGBT

Por Marcelo Hailer

(Beto Oliveira / Agência Câmara)

O deputado Jean Wyllys foi uma das vítimas dos vídeos difamatórios (Beto Oliveira / Agência Câmara)

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ex-assessor do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), Wellington de Oliveira, declarou que mentiu à Polícia Federal sob orientação do parlamentar, no ano passado, a respeito da autoria do vídeo “Marco Feliciano Renuncia a CDHM”, onde os deputados Jean Wyllys (Psol-RJ), Erika Kokay (PT-DF), e as ativistas Tatiana Lionço, Cris Oliveira e Toni Reis são acusados de “incentivarem a pedofilia”. Oliveira declarou ser o autor do vídeo e que Feliciano teria tido acesso ao material antes de ir ao ar. Este caso já é investigado pela Polícia Federal (PF).

Procurado pela reportagem de Fórum, o deputado Jean Wyllys declarou que vai entrar com nova ação na Corregedoria e no Conselho de Ética da Câmara. “Nós vamos agir mais uma vez, diante desse fato novo, dessa denúncia que traz a prova da autoria de fato do deputado Marco Feliciano nesse jogo sujo e sórdido, não apenas para destruir a minha reputação, mas a da Erika [Kokay – PT-DF] e de ativistas de Direitos Humanos”. Wyllys também declarou que irá “fazer pressão na Polícia Federal” para que se conclua a investigação que já estava em andamento a respeito do vídeo.

“Na época (2013) o [Roberto] Gurgel era Procurador da Geral República e, por conta do foro privilegiado do Marco Feliciano, ele encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que poderia requerer investigação sobre o caso. O ministro Celso de Mello, que é o relator, acatou a denúncia e requereu a instauração de um inquérito junto à Polícia Federal. E a PF, no final do ano passado, pediu ao STF um novo prazo de 90 dias para concluir o inquérito. Isso foi em setembro do ano passado, ou seja, o prazo já expirou e agora aparece essa bomba”, relata.

Wyllys atenta para o fato de que, apesar de o Conselho de Ética e da Corregedoria terem de ser provocados para poder se pronunciar, seus integrantes poderiam emitir algum tipo de opinião sobre casos como esse. “Aqui nós temos dois órgãos que precisam ser provocados, a Corregedoria da Câmara e o Conselho de Ética. Tanto um quanto outro não se pronunciaram em nenhum momento e a notícia está aí espalhada e nem o corregedor, nem os conselheiros de ética se pronunciaram, é como se não existisse. Então, são dois órgãos corporativistas que não fazem nada e que não aplicam nenhum tipo de sanção”, critica o parlamentar.

O deputado ainda acredita haver crime de formação de quadrilha na elaboração dos vídeos utilizados para difamar a sua imagem e de outros. “Nós também o acusamos de formação de quadrilha pois estavam claramente associados o Marco Feliciano, o [Jair] Bolsonaro, o Silas Malafaia e o Olavo de Carvalho. Eles publicaram na mesma hora os mesmos vídeos difamatórios e fizeram como se tivesse sido por acaso. Elaboramos essa denúncia por formação de quadrilha, que já está correndo na Justiça comum”, revela Jean Wyllys.

As campanhas difamatórias

Em 2012, um vídeo, cujo título é “Deus Salve as Crianças”, e que conta com a apresentação do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), edita as falas de palestrantes que participaram de um seminário sobre a sexualidade na infância no Congresso Nacional. Entre os trechos editados, o que mais causou polêmica foi o da pesquisadora e professora Tatiana Lionço (UniCeub), que teve a sua apresentação cortada para que desse a entender que era favorável à pedofilia (leia entrevista aqui).

À Fórum, Lionço relatou que na sua vida profissional não teve problemas, mas que o vídeo teve ressonância negativa em sua vida pessoal. “Vivenciei muito preconceito. Escutei de muitas pessoas que o ativismo não valia a pena, que eu me expunha demais, que deveria tomar cuidado com a minha imagem. Recebia quase diariamente mensagens de pessoas que nem conheço me chamando de puta, vagabunda e depravada”, revela Tatiana.

Lionço conta que, por quase um ano, teve que isolar e rastrear o seu nome na internet. “Fiquei muito só por quase um ano, escrevendo e-mails, rastreando meu nome pelo Google, lendo absurdos a meu respeito. Pessoas chegaram a afirmar que eu consinto que um adolescente enfie o dedo na vagina de menina de 5 anos. Veja bem, na época que li isso minha filha estava com 5 anos. Foi algo muito violento, pessoalmente falando”, lembra Tatiana.

Quem também figurou em ambos os vídeos foi o ativista Toni Reis. “Quando alguém falar alguma coisa, esse é um problema desse alguém. Mas, essas acusações não me afetam em nada. Como religioso que sou, acho que essa posição não é nada cristã, não se pode levantar falso testemunho. E, como defensor do Estado Laico, não misturo a vida política com a religiosa”, disse Reis. De acordo com ele, mesmo com as ameaças o seu trabalho vai prosseguir. “Tenho 30 anos de militância e não vou parar. E, quando alguém faz acusações contra você, é por que está trabalhando, caso contrário, não falariam nada”, disse o ativista. Caso seja comprovado que o vídeo de fato é de autoria de Feliciano, Reis afirma que tomará medidas judiciais.

Falta de apoio

Jean Wyllys também relata que teve a sua vida particular violada por conta dos vídeos. “Ele [Feliciano] me causou um mal muito grande na minha vida e na de muita gente. Até hoje sofro insultos terríveis na internet por causa desse vídeo”, protesta o parlamentar, que se queixa a respeito deste fato não ter sido levado muito a sério. “Ninguém dá a devida importância e com isso eles [fundamentalistas] se sentem autorizados a continuarem a fazer isso. Há também claramente a homofobia institucional: quando o Garotinho (PR-RJ), no início do mandato aventou que estava sendo ameaçado, a Câmara colocou imediatamente seguranças legislativos. E as ameaças concretas de morte que eu sofri? A Câmara simplesmente não fez nada. É a homofobia institucional: é o deputado gay, não tem que fazer nada, é assim que a banda toca”, lamenta.

Tatiana Lionço também faz queixa semelhante. “A primeira resposta que tive foi uma nota de desagravo do Conselho Federal de Psicologia (CFP), lida em audiência no Senado sobre ética profissional e diversidade sexual, presidida pela então senadora Marta Suplicy. Depois tiveram mais cartas de apoio, da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH), de grupos de pesquisa, ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais)… Demorou horrores, tive que implorar; mas tudo alimenta a ira. Eles [fundamentalistas] atacaram o CFP, tem um cartaz difamatório me comparando com a psicóloga Marisa Lobo: eu sou a depravada, e ela, a santa”, diz Lionço. 

A pesquisadora ainda relata que todas as ações apresentadas contra Jair Bolsonaro não deram nada. Em sua avaliação, as campanhas difamatórias contra ela e outros ativistas foram “banalizadas”. “Sinto que banalizaram, no geral, como problema pessoal dos envolvidos, sinto que nunca tivemos resposta, todas as reações foram nossas, o poder público nunca fez nada, foi um abandono absoluto”, denuncia Lionço.

Com as novas denúncias, de acordo com Jean Wyllys, novas ações devem ser protocoladas, e algo finalmente pode ocorrer. “Mas, para isso acontecer, tem que ter também pressão externa: a imprensa tem que cobrar, a Polícia Federal tem que ser cobrada e os setores da esquerda tem que se organizar e fazer pressão”, finaliza.

Confira abaixo vídeo que teria sido produzido pelo assessor de Marco Feliciano:

Deus Salve as Crianças, com apresentação de Jair Bolsonaro:

Documentário “No Brasil de Tati e Cris – A luta pela liberdade”, produzido pela Companhia Revolucionária Triângulo Rosa em apoio a Tatiana Lionço e Cristiano Lucas, que foram difamados por Bolsonaro e Feliciano:

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