A nova mídia contra o Estado – entrevista com Jeremy Scahill

A nova mídia contra o Estado – entrevista com Jeremy Scahill

O ativista e jornalista norte-americano Jeremy Scahill fala com Andrew Dolan sobre drones, o império dos EUA e as perspectivas para uma mídia crítica na era digital

Original em RedPepper / Tradução por Ítalo Piva

Jeremy Scahill em Gardez, Afeganistão. (Foto: por Richard Rowley)

Jeremy Scahill em Gardez, Afeganistão. (Foto: por Richard Rowley)

Ouvimos muitas vezes falar da “batalha pelas mentes e corações” em relação às guerras no Afeganistão e Iraque, porém, as revelações de Dirty Wars, particularmente dos assassinatos clandestinos de civis, sugerem exatamente o oposto. Isso será uma questão de incompetência monumental ou de interesses divergentes?

Líderes políticos queriam acreditar que o que faziam era conquistar corações e mentes. Eles pegaram algo tão velho quanto poeira em termos de estratégia militar e re-rotularam como uma grandiosa nova ideia, que eles iriam convencer o povo afegão sobre o bem maior da invasão americana de seu país. O mesmo foi verdade com o Iraque e, se você assistir os pronunciamentos de oficiais da era Bush, todos pensaram que iriam ser recebidos como libertadores, mas estavam totalmente errados.

Líderes políticos sempre querem achar que estão fazendo a coisa certa, mas estão envolvidos em antiterrorismo, e a missão anti-terrorista é completamente contrária à missão anti-insurgência. A missão antiterrorista era infinitamente mais importante e bem menos agradável de se discutir em público.

Por um lado, acho que eles realmente acreditam em sua própria baboseira e generais militares conseguem convencer aqueles no governo que estas são boas ideias. Se você analisar a história, se olhar para Argélia ou Vietnã, existe essa crença que “nós conseguiremos, senhor”. Por outro lado, líderes políticos querem derrubar essas redes (terroristas), então estão fazendo missões noturnas secretas, ataques de drones e ataques de mísseis e, no processo, enfraquecendo integramente o propósito declarado da missão, que é estabilizar um país e “conquistar corações e mentes”.

E os soldados no teatro de guerra?

Penso que o soldado mediano que acaba sendo mandado para o Afeganistão, seja ele de Londres ou do Alabama, tem que se convencer de que está fazendo algo bom. Ouço isso dos rapazes militares o tempo inteiro: “Estávamos num vilarejo e estávamos progredindo, aí aconteceu uma dessas incursões noturnas e fodeu completamente com nossa possibilidade de conversar com essas pessoas, e aí começamos a ser atacados numa área onde nunca antes tínhamos sido”.

Forças armadas não são instituições monolíticas, elas são compostas majoritariamente por jovens e creio que muitos jovens que são enviados a estes lugares se apegam às pessoas ao seu redor, e tentam fazer o melhor de uma situação horrível. Isso é desbancado por inteiro pelas campanhas de assassinatos, ou pelo fato e3 que a coisa inteira é baseada em uma mentira: que você vai de fato conseguir converter pessoas mundo afora da sua forma de vida, com uma arma. A história demonstra que isso nunca funciona. Porém, há uma sinceridade palpável por parte de muitos jovens soldados que vão pra lá.

Você escreve em seu livro sobre O Projeto para um novo Século Americano (PNAC). Mesmo que a organização tenha se desintegrado oficialmente em 2006, seu ex-chefe executivo Gary Schmitt afirma que ela foi bem sucedida na disseminação de suas ideias além de uma base neoconservadora. O quanto você acha que essa influência é latente na administração Obama?

O PNAC era essencialmente uma visão dos Estados Unidos como um poder imperial; era uma forma raivosa de ultranacionalismo. Se você ler o manifesto, havia uma meta específica de assegurar que os EUA seriam a única superpotência no mundo, e que basearia seus conflitos militares não só na busca de recursos naturais, mas, também, numa busca de prevenir qualquer outro país, como a Rússia ou a China, de se impor como um rival. Parte de como isto se manifestou nos Estados Unidos foi na visão de Dick Chenney e Donald Rumsfeld, que o poder executivo do governo norte-americano, o presidente e sua equipe, iriam efetivamente operar uma ditadura, depois de ganharem uma eleição democrática, quando se tratava de assuntos de segurança nacional ou internacional.

O presidente Obama, durante sua primeira campanha, fazia uma forte crítica dessa mentalidade e se comprometeu a frear esse impulso para o que efetivamente era uma ditadura por um dos três poderes do governo americano. Ele fez exatamente o oposto. Obama tem sido um presidente imperialista. Tem possibilitado a continuidade das ideias centrais dos neocons e deu um selo de legitimidade para políticas sem fundamento, pelas quais progressistas e pessoas de esquerda pediriam o impeachment de um presidente republicano. Por isso que você o vê recebendo elogios constantes de neoconservadores famosos; eles sabem que ele limpou o programa para que possa continuar.

Recentemente entrevistamos Medea Benjamin e ela disse que’o movimento anti-guerra perdeu sua voz quando Obama virou presidente’. Você concordaria com isso?

O que eu diria é que a máquina política de Obama, em 2008, conseguiu cooptar o movimento anti-guerra e essencialmente convencer as pessoas de que talvez ele não fosse perfeito, mas era a melhor opção que iam ter. Quando Obama estava na campanha presidencial, já estava claro pra mim que iria ser um presidente democrata muito bélico, porque o que é mais importante na política americana não é ficar escutando discursos de campanha, é investigar de onde o dinheiro está vindo, com quem o candidato se cerca como conselheiros e potenciais membros do gabinete, e quais de fato são suas posições políticas. Ele se rodeou do que eu gosto de chamar de “progressistas dos mísseis teleguiados”. Eles querem esconder suas operações sob um manto de legitimidade humanitária mas, no fim do dia, é a mesma velha escola política do império americano.

O que foi revelado em Dirty Wars e no seu livro Blackwater, e a maioria das revelações de Snowden, tudo parecem se encaixar no quebra cabeça de um déficit democrático. Porque você acha que isso está ocorrendo?

O presidente da época pós-Segunda Guerra Mundial, Dwight Eisenhower, fez um discurso famoso no final de seu governo no qual avisava dos perigos do crescimento do complexo industrial-militar. O que ele disse nesse discurso – muito referido mas que poucas pessoas leram inteiro – foi que, após a Segunda Guerra, os Estados Unidos criaram uma indústria de guerra, e ela deu o incentivo para figuras políticas, e para sua própria máquina, de continuamente procurar novas  guerras.

Permitindo que enormes corporações contribuíssem financeiramente pras campanhas de políticos, asseguraria que a guerra fosse um instituição que sempre teria apoiadores no governo. Eisenhower estava correto, e o que aconteceu desde então foi uma ascensão de um monstro que vem na forma do Estado de segurança nacional, e este monstro desafia o sistema político. Se você tem um presidente que quer domesticar esse monstro, o monstro pode esperar o presidente sair, sabendo que tem que fazer isto por no máximo oito anos antes de poder ser solto de novo. No caso de pessoas como Bush e Chenney, eles estavam alimentando o monstro.

Obama está querendo nos dizer que o ‘monstro é nosso amigo’, mas ele é uma estrutura permanente onde não há limite de termos, eles não precisam se preocupar em fazer campanhas, e seus interesses estão solidificados por causa da corrupção institucionalizada que é o sistema eleitoral americano, onde corporações podem literalmente comprar membros do Congresso… O que seria chamado em outras sociedades de propina.

Com as revelações de Snowden e do Wikileaks, o que estou discutindo em Dirty Wars é o fato de o monstro ser a maior instituição nos Estados Unidos, e ela não tem nenhuma vistoria por parte das pessoas designadas a monitorar suas atividades, porque fazer isso seria o fim de suas carreiras políticas.

Estou presumindo que uma das motivações por trás de seu envolvimento com Glenn Greenwald, em um novo projeto de mídia é a crença de que encarar o déficit de informação é o primeiro passo para mudanças reais?

Nossa intenção com esta organização é criar um portal de mídia que estabeleça o contraditório, o contraditório em sua relação com o Estado. Não é apenas que queremos nos defender contra as violações da liberdade de imprensa e da privacidade de cidadãos comuns, nos EUA e no mundo todo, mas queremos entrar em confronto com o Estado sobre essas questões. Nos Estados Unidos, temos leis muito mais fortes de proteção a jornalistas do que no Reino Unido, mas existem em grande parte só no papel e, na realidade, há uma guerra contra o jornalismo.

Logo, parte do que queremos fazer é reafirmar a função da livre imprensa em uma sociedade democrática, e exigir que o governo possa ser responsabilizado por suas ações. O jornalismo não é isso nos Estados Unidos nem no Reino Unido. Estaremo envolvidos com jornalismo investigativo a longo prazo, estamos criando tecnologias pra encorajar whistleblowers (denunciantes de atividades abusivas) a nos providenciarem documentos e informação, e iremos continuar cobrindo as histórias da NSA. Temos algumas pautas enormes que já estão sendo trabalhadas. Não sei quando vão sair, mas será no começo de 2014.

A morte do jornalismo combativo tem suas raízes no controle corporativo da mídia. O que você diria àqueles que questionam a participação do fundador do eBay e bilionário Pierre Omidyar no seu  novo projeto de mídia?

Eu nunca, num milhão de anos, pensei que estaria envolvido em nenhum projeto com alguém que fundou o eBay e tem bilhões de dólares. Se alguém tivesse ligado para o Glenn ou pra mim, e nos oferecido X quantia de dinheiro para ir trabalhar em qualquer meio de mídia corporativo, nenhum de nós teria aceitado. Na verdade, ficamos muito surpresos com a possibilidade de sua participação, mas quando falamos com o Pierre, ele fala como um jornalista, e deixou bem claro desde o começo que não vai interferir com o processo jornalístico, e acho que está sendo completamente sincero neste sentido.

Além do mais, este não é o próximo grande produto com o qual ele quer lucrar. Se a ideia fosse ganhar dinheiro como num projeto de negócios, seria uma coisa muito diferente do que estamos falando aqui, trata-se de um cara que pegou recursos que poderia ter usado pra viver o resto de sua vida em puro luxo, mas disse: Eu quero usar boa parte do meu dinheiro em projetos para o bem social, e um deles é construir uma organização de mídia independente. Creio que qualquer um que conheça a mim, Glenn ou Laura Poitras, sabe que não estamos no bolso de ninguém. Se há histórias que temos que cobrir, que são autocríticas, nenhum de nós tem medo, e ninguém nunca falou que não podíamos fazer esse tipo de coisa. Um dos novos editores que contratamos, Eric Bates, era um editor-chefe da revista Rolling Stone; e é uma pessoa fervorosamente independente. Não conheço ninguém que contratamos que se ajoelharia por um cheque – simplesmente não vai acontecer.

De que maneira você relaciona esse novo projeto de mídia combativa com outros como o Democracy Now?

O Democracy Now foi onde aprendi sobre jornalismo, e é uma organização jornalística que preza o contraditório, então acho que neste sentido é boa. Mas oDemocracy now é um programa de rádio e televisão, que tem suas limitações. Nós vamos construir um site com um espectro completo de notícias que vai ter uma divisão robusta de vídeo-jornalismo, tanto como jornalismo escrito impresso e jornalismo de rápida reação. Por isso, acho quem para a maneira como estamos estruturados, não existe nenhuma organização que sirva como modelo.

Estamos tentando construir algo novo do zero e trabalhando com pessoas extremamente brilhantes do mundo da tecnologia, tentando construir um site que é único. Olho exemplos como o Propublica nos EUA, que é uma página de jornalismo investigativo fantástica, ai você observa o trabalho de jornalistas da nova mídia, e acho que existem oportunidades para uma fusão dos métodos comprovados da velha escola, como denúncias e jornalismo investigativo, com uma excitante forma mais jovem de engajamento com a mídia social. Alcançar o equilíbrio entre os dois é o desafio de construir uma nova organização de mídia, e é isso que estamos tentando fazer.

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