Venezuela e Ucrânia. E o que os EUA têm a ver com isso?

Venezuela e Ucrânia. E o que os EUA têm a ver com isso?

Países considerados estratégicos para os interesses econômicos estadunidenses vivem clima de turbulência. E o Tio Sam não assiste a tudo de braços cruzados…

Por Vinicius Gomes

Ucrânia e Venezuela estão distantes um do outro por milhares de quilômetros; possuem realidades políticas, sociais, econômicas e culturais distintas e histórias de formação bem diferentes. No entanto, nas últimas semanas algo parece tê-los trazido tão próximos como se fossem países compartilhando fronteiras: uma espécie de retorno à Guerra Fria com envolvimento financeiro e político do governo dos Estados Unidos na atuação os manifestantes contra os governos tanto da antiga república soviética, quanto do país de Hugo Chávez.

A ideia não é nova e muito menos original, o autor britânico, Joseph Conrad foi um dos primeiros a escrever sobre a utilização de agentes provocadores para forçar uma situação de caos, em O Agente Secreto, de 1907. Na realidade, os EUA são notoriamente os mais qualificados nesse tipo de ação, tendo atuado na mudança de regimes de pelo menos 40 países ao redor do planeta no último século.

Como o jornalista investigativo Wayne Madsen bem descreveu em um artigo publicado nessa quarta-feira (19), o traço que une as campanhas de desestabilização organizadas e promovidas pelos EUA (através da CIA) em ambos os países é a arregimentação de fascistas locais para as forças antigovernamentais. “Na Venezuela, apoiadores reacionários de antigos regimes oligárquicos fascistas são aliados naturais dos EUA; e, na Ucrânia, os fascistas estão reunidos em torno de [Oleh] Tyahnybok”, diz Madsen.

Radicalização e ameaças a Maduro

Após o fracasso do golpe contra Hugo Chávez em 2002, a embaixada estadunidense em Caracas resolveu tomar para si a tarefa de reorganizar a oposição venezuelana. Em agosto de 2004 – mesmo mês do referendo revocatório promovido pela oposição com amplo apoio da missão americana – William Brownfield chegou a Caracas, nomeado por George W. Bush, para assumir o posto de embaixador no país. No entanto, Brownfield  é mais conhecido por elaborar um plano de 5 pontos para atacar o chavismo:

1) Fortalecer instituições democráticas,

2) Infiltrar-se na base política de Chávez,

3) Dividir o chavismo,

4) Proteger negócios vitais para os EUA,

5) Isolar Chávez internacionalmente.

A Usaid (Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA) foi a escolhida para realizar diversas ações, seguindo a estratégia de Brownfield. A organização, por meio do seu Escritório de Iniciativas de Transição (OTI, sigla em inglês) – criado dois meses depois do fracassado golpe – distribuindo, entre 2002 e 2009, 95,7 milhões de dólares a organizações de oposição venezuelana. Um de seus principais objetivos era, também, levar casos de violações para a Corte Interamericana de Direitos Humanos com o objetivo de obter condenações e minar a credibilidade internacional do governo venezuelano. Já a empresa DAI (Development Alternatives Inc) foi entre 2004 a 2009, a principal gerente da verba da Usaid no país, sendo a principal responsável pela distribuição de pequenos financiamentos a diversas organizações da sociedade civil.

A Venezuela hoje enfrenta uma inflação superior a 50% ao ano, com produção estagnada, e encerrou 2013 com uma taxa de 24.763 mortes violentas (79 mortos para cada 100 mil habitantes). Além disso, ainda no final do ano passado, teve de enfrentar uma crise de abastecimento de produtos, promovida pela direita, feito este que está sendo combatido por Maduro, que já anunciou uma série de medidas de proteção à economia, incluindo controle de preços e de lucros das empresas e comerciantes, assim como maior vigilância sobre o câmbio.

Uma realidade inegável do país, no entanto, é que a Venezuela é, de fato, um país dividido. Em abril passado, poucas semanas após a morte de Chávez, o atual presidente chegou ao governo com magros 235 mil votos (1,59%) de vantagem sobre seu opositor da Mesa de Unidade Democrática (MUD), Henrique Capriles.

Chegando dezembro, com as eleições municipais, Maduro conseguiu ganhar mais força, ao ver o seu Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) conquistar 49,24% dos votos contra 42,72% da oposição. Isso fez com que a administração de Maduro pensasse erroneamente que a oposição já não preocupava mais. O que muitos – principalmente no governo – não contavam, é que a própria desunião dentro da oposição venezuelana iria potencializar seu poder de fogo contra o presidente.

Como explica o sociólogo venezuelano, Elio Hernandez, é muito importante levar em consideração a disputa interna pela liderança dentro da oposição. “Em geral, as forças dominantes dentro do bloco oposicionista são as mais conservadoras. A socialdemocracia liberal está bastante abandonada”, diz ele. “Mas, ainda assim, dentro da própria direita conservadora há diferenças também: uma parte liderada por Caprilles não enxerga perspectivas pela via insurrecional – principalmente depois das derrotas municipais em dezembro. A outra facção minoritária, mas com grande influência sobre o núcleo duro da oposição (classe média urbana), tem um discurso mais ideológico, extremista – muito parecido com o dos exilados cubanos – é partidária de uma saída através de força”, completa. Essa facção conseguiu novamente cativar a imaginação das classes médias opositoras, assim como em 2002, e, enquanto uma parte da oposição se manteve à distância, a perspectiva das eleições muito distantes (2019) fez o discurso mais radical se impor.

Leopoldo López, após se entregar à justiça venezuelana, pode ser alçado à condição de principal nome da oposição à Maduro Foto: WikiCommons

Leopoldo López, após se entregar à justiça venezuelana, pode ser alçado à condição de principal nome da oposição à Maduro
Foto: WikiCommons

O mais notório desses líderes radicais é Leopoldo López. Ex-prefeito do município de Chacao (2000-2008), López vem de uma das famílias da elite venezuelana ligada ao setor industrial e petroleiro. Formado em Harvard, sua carreira política começou no partido Primeira Justiça, o mesmo de Capriles. Um racha interno o levou a abandonar o grupo, e então se filiou ao partido conservador Um Novo Tempo, onde permaneceu até fundar seu atual partido Vontade Popular.

Há três dias, o governo venezuelano identificou três funcionários – Breann Marie McCusker, Jeffrey Gordon Elsen e Kristopher Lee Clark – da embaixada dos EUA em Caracas, que estavam em contato com manifestantes da oposição e ajudavam a planejar tumultos antigoverno por todo o país. Os três foram expulsos pelo governo da Venezuela. “Por outro lado”, diz Hernandez, “o governo norte-americano chegou a fazer um telefonema ao embaixador venezuelano na OEA (Organização dos Estados Americanos), no qual, pela primeira vez, foi feita uma ameaça direta ao governo de Nicolás Maduro, para soltar os presos pelos protestos e suspender a ordem de captura de Leopoldo López, o principal instigador da violência nas ruas e cujo discurso é abertamente insurrecional”.

Antecipando-se a isso, López se entregou às autoridades venezuelanas, no que foi considerado por analistas em uma estratégia política para finalmente se consolidar como a maior figura oposicionista aos chavistas e a nova pedra no sapato de Maduro. “A audiência terminou. Foi ratificada a medida privativa de liberdade. A mudança está em cada um de nós. Não se rendam. Eu não o farei”. Esta foi a mensagem apareceu no Twitter de López após um tribunal decidir pela sua prisão preventiva. Ele continuará nesse centro de reclusão pelo menos durante 45 dias

Ucrânia: interesses dos EUA nos dois lados

A escalada da violência nos protestos da Ucrânia aumentaram após a aprovação das leis antiprotesto Foto: WikiCommons

A escalada da violência nos protestos da Ucrânia aumentaram após a aprovação das leis antiprotesto
Foto: WikiCommons

Quando em fins do ano passado o presidente Viktor Yanukovych anunciou que não iria mais assinar o Acordo de Associação com a União Europeia (UE), a Ucrânia se viu em meio a um fogo cruzado entre a União Europeia e a Rússia. O bloco de Bruxelas, com seu plano de “Parceria Oriental”, bateu de frente com as ambições de Moscou em criar uma zona alternativa à UE, chamada de União Eurasiática.

Três meses depois de intensos protestos, quase que diários, a Ucrânia ainda se vê entre dois grandes predadores: o capital ocidental e o capital russo, e nesta quinta-feira (20), dois dias após aquele que foi considerado o mais violento desde que começaram os protestos – com 25 mortes em menos de 24 horas – a escalada de violência evoluiu de maneira assustadora, com a polícia de Kiev sendo autorizada a atirar nos manifestantes. A agência de notícias France-Press estimou que pelo menos 60 pessoas foram mortas. “Todas elas tinham ferimentos a bala”, disse uma coordenadora centro médico oposicionista na EuroMaidan. O cenário de guerra na capital ucraniana coincide com a chegada dos ministros das Relações Exteriores da Alemanha, França e Polônia, enviados para mediação do conflito.

O momento mais dramático desta quinta é o que provavelmente será o símbolo de todos esses meses de protestos e manifestações: uma jovem de 21 anos, Olesya Zhukovskaya, teria sido baleada no pescoço pelas forças de segurança do governo e chegou a enviar por meio do Twitter a mensagem: “Estou morrendo”. Oleysa era uma manifestante da oposição e atuava como médica para os feridos nos confrontos com as autoridades ucranianas.

Mas se na linha de frente é possível enxergar os atores envolvidos – de um lado, grupos paramilitares da extrema-direita e os três partidos da oposição que enxergam a Ucrânia como “etnicamente europeia”, e, de outro, o aparato de segurança governamental e os fiéis ao presidente Yanukovich nas cidades do sul e do centro-sul, “etnicamente eslavas” – a participação daquele que atuam nos bastidores começa a ser revelada apenas agora.

Com o vazamento da conversa telefônica entre Victoria Nuland, secretária-assistente do Departamento de Estado dos EUA, com o embaixador norte-americano em Kiev, ficou evidente o que norteia a política do país em relação à Ucrânia. Ao falar sobre como um novo governo ucraniano deveria ser constituído e quais membros da oposição e dos manifestantes deveriam ser incluídos nesse novo governo apoiado pelos EUA, Nuland não deixou margem de dúvidas de que seu país age sim como um agente provocador quando seus interesses econômicos estratégicos estão em jogo.

Para isso, os dois lados rivais na política ucraniana, o presidente Viktor Yanukovich e a ex-primeira-ministra – hoje presa – Yulia Tymoshenko, contam com a assistência de uma das maiores forças político-econômicas na capital norte-americana. Duas das maiores consultorias lobistas dos EUA estão ajudando a representar o presidente Viktor Yanukovych e seu partido. Há cerca de dois anos, uma organização chamada Centro Europeu para uma Ucrânia Moderna (ECFMU, sigla em inglês), foi fundada em Bruxelas e seus criadores são o atual ministro das Relações Exteriores, Leonid Kozhara; o chefe do Comitê de Orçamentos para o Parlamento, Ievgenii Hiellier, e o chefe do comitê para relações exteriores do Verkhovna Rada – o parlamento ucraniano – Vitaliy Kahlyushnyy.

A escolha do lugar foi estratégica porque Bruxelas, além de ser a capital da Bélgica é também a sede da UE. Seu principal objetivo seria promover a Ucrânia às instituições europeias, no entanto, tal organização não passava de uma máquina utilizada pelo partido governante na Ucrânia, o Partido das Regiões. De acordo com as investigações do jornalista ucraniano, Sergiy Leschenko, desde 2012 a ECFMU pagou à Mercury/Clark % Weinstock e ao Podesta Group, 560 e 900 mil dólares, respectivamente, para, desta maneira, “facilitar” a promoção de seus interesses junto ao Congresso dos EUA.

Anthony Podesta (à dir.) é o fundador da consultoria de lobby, que além das ligações com o governo ucraniano, também faz lobby para o Egito junto ao Congresso norte-americano.

Anthony Podesta (à esq.) é o fundador da consultoria de lobby, que além das ligações com o governo ucraniano, também faz lobby para o Egito junto ao Congresso norte-americano.
Foto: WikiCommons

O Podesta Group foi fundado por Anthony Podesta e seu irmão John, que se juntou à administração Obama em dezembro de 2013 como conselheiro. Apesar disso, Anthony disse nunca ter discutido os eventos na Ucrânia com seu irmão. Já a Mercury, Clark & Weinstock lista como um de seus sócios o ex-congressista republicano John Vincent “Vin” Weber, que atuou como conselheiro na campanha presidencial de Mitt Romney. A consultoria informou que se recusava a comentar publicamente suas ligações com governo ucraniano.

No entanto, essas consultorias não estão sozinhas no lobby em Washington: o bilionário Rinat Akhmetov, proeminente aliado do presidente ucraniano, controla indiretamente cerca de 50 parlamentares na Ucrânia – o chamado Grupo Akhmetov, já descrito em um estudo intitulado “A Democracia Oligárquica: a influência de grupos empresariais nas políticas ucranianas” -, e seus políticos-fantoches apoiaram de forma unânime as leis antiprotestos de 16 de janeiro.

Do lado da Tymoshenko, a representação fica com o democrata Jim Slattery, sócio do escritório de advocacia Wiley Rein LLP. A quantia dos serviços prestados está calculada em 810 mil dólares, pagos por Oleksandr Tymoshenko, empresário ucraniano marido da Yulia.

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