Alemanha e Suíça exportam idosos ao Sudeste Asiático

Alemanha e Suíça exportam idosos ao Sudeste Asiático

Milhares de aposentados de países europeus estão abandonando seus lugares de origem porque não podem pagar seus tratamentos; região na Ásia tem se posicionado como uma referência mundial do turismo de saúde

Original em LaMarea, tradução por Ítalo Piva

O Suíço Otto Fries (esq), trocou seu país pela Tailândia onde seu tratamento custa a metade. BIEL CALDERÓN

O suíço Otto Fries (esq.) trocou seu país pela Tailândia, onde seu tratamento custa a metade (foto: Biel Calderón)

Phuket (Tailândia) – Faa Baan Tschuai Duu Laa parece muito com o lugar onde o octogenário Otto Fries sempre sonhou em passar sua aposentadoria, e muito pouco com um asilo para idosos convencional. Com suas enormes vilas de paredes brancas, suas habitações amplas e piscinas privadas, a clínica parece mais um resort de luxo, em que a única diferença é que os empregados não se dedicam a dar conselhos turísticos ou fazer coquetéis, mais sim administrar remédios e cuidar de doentes. Existe só um inconveniente: é localizado em Phuket, Tailândia, a uns 9.000 quilômetros de sua Suíça natal. Fries assegura estar satisfeito com seu lugar de retiro, mesmo que tenha tido poucas opções. Com os princípios de mal de Parkinson e uma demência na fase 1, os cuidados necessários são caros demais em seu país de origem. Nem sequer seu cargo de diretor de banco na próspera Suíça lhe garantiu uma aposentadoria tranquila perto de sua família.

O de Fries não é um caso isolado. Milhares de aposentados de países europeus, principalmente da Alemanha e Suíça, estão abandonando seus lugares de origem porque não podem pagar seus tratamentos. Os meios de comunicação alemães batizaram isso de “colonialismo geriátrico”, e várias organizações denunciaram um “deslocamento” dos cuidados para idosos a países mais baratos, do leste Europeu e da Ásia. Na Alemanha, segundo estatísticas federais, mais de 400 mil idosos não conseguem pagar por um asilo em seu próprio país, e a cifra aumenta uns 5% cada ano.

Na Suíça não existem dados concretos, porém, apesar de ter sido considerado o melhor país do mundo para obter cuidados geriátricos pela HelpAge International, uma ONG especializada na terceira idade, idosos deste país europeu são uns dos principais clientes de residências como essa.

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“O dinheiro sem dúvida é uma razão importante para buscar assistência aqui”, assegura Anita Somaini, uma enfermeira Suíça que em 2011 abriu a Baan Tschuai Duu Laa (casa de ajuda e cuidado) na Tailândia, um país que está se convertendo em um destino preferencial de ajuda para pessoas com doenças graves, como Alzheimer e Parkinson. A possibilidade de ter cuidados mais personalizados, graças aos salários mais baixos, e, mais importante, pela cultura de respeito aos idosos, joga a favor da Tailândia. Na Baan Tschuai Duu Laa, três enfermeiros vigiam cada paciente 24 horas por dia e, inclusive, dormem ao seu lado para evitar qualquer problema noturno. “Aqui todo mundo me trata bem e sinto como se estivesse com família”, afirma Fries, que aponta, porém, o fator econômico como o mais importante para sua decisão. “Eu era um banqueiro, por isso busco diminuir o meu custo de vida. Na Suíça também há bons asilos, mas custam no mínimo o dobro.”

Sistemas sociais em colapso na Europa

A crise econômica tem feito horrores com os sistemas sociais europeus, que fazem cortes de verba contínuos nas pensões ao mesmo tempo que a população envelhece. Porém, a redução de benefícios para pessoas dependentes não afeta apenas os aposentados. Georg acabou na Tailândia por culpa de uma escada e um tropeço. Mesmo com apenas 50 anos, tropeçou e rodou vários degraus abaixo. A má sorte foi cair de cabeça, que se abriu como uma noz. Depois de um ano de médicos e seis operações na Alemanha, seu país natal, a seguradora se negou a continuar pagando por seu tratamento e as extensas faturas de enfermeiras e pessoas qualificadas que constantemente cuidavam dele. Sua situação não permitia desembolsar os mais de 5 mil euros mensais que cobraria uma residência na Alemanha, e viu o Sudeste Asiático como uma oportunidade de receber os mesmos cuidados por, aproximadamente, metade do preço: uns 3 mil euros por mês. Agora fala gaguejando, esquece coisas com facilidade e se desorienta toda hora, porém tem uma coisa clara: “Eu estou aqui pelo dinheiro”.

Ao mesmo tempo que os sistemas estão em colapso na Europa, o Sudeste Asiático se posiciona como uma referência mundial do turismo de saúde. Primeiro foi a Malásia que enxergou a possibilidade de negócios. A Tailândia entrou no jogo pouco depois, e a existente facilidade de obter vistos de repouso para aposentados foi incrementada por uma campanha para promover seus hospitais e clínicas. “Queremos atrair as pessoas mais velhas para ficarem por longos períodos”, diz Prapa Wongphaet, presidente da Associação de Turismo Médico da Tailândia. Mesmo assim, Prapa afirma que o governo tem focado em idosos “saudáveis” que não requerem atenção contínua. “As pessoas mais dependentes são um grupo pequeno, que tem aumentado nos últimos anos”, explica.

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Para o suíço Lorenz Weiss, de 68 anos, nem a piscina ou as massagens diárias o convenceram por completo. “Eu vim aqui porque pensei que era a única solução para que ninguém tenha que cuidar de mim”, assegura, sentado na cadeira de rodas que usa cada vez com mais frequência, devido ao mal de Parkinson. Seus problemas em casa, onde se sentia como um peso por causa de sua crescente dependência, o levaram a buscar uma solução que era compatível com seu bolso, mas que também o levou pra longe de seus compatriotas, por quem, segundo ele, “tenho todo carinho e amor”. Para Lorenz, a sua foi uma decisão voluntária, porém imposta pela falta de uma estrutura familiar que o apoiasse.

Separações familiares

Georg vê as coisas de outra maneira: “Estou melhor aqui do que no meu país, mas faço menos pela minha filha”, diz o alemão, que prefere não revelar seu sobrenome, já que vem de “um povoado pequeno”. A distância é sem dúvida o ponto mais polêmico da separação de famílias e um choque cultural pode existir com os países acolhedores. “Os residentes raramente voltam aos seus países de origem, mesmo que muitos familiares venham de férias os visitar”, aponta Carlo Somaini, gerente da residência de Phuket e marido de Anita, fundadora do centro.

A controvérsia está servida, e enquanto uns falam de retiros paradisíacos, outros acusam os governos de obrigarem seus idosos a emigrar para obter tratamentos. Um dos mais contundentes tem sido Ulrike Mascher, presidente da Sozialverband Deutschland (VdK), um grupo de direitos alemão que qualificou isso como uma tendência de “deportação” em declarações ao jornal Britânico The Guardian. Porém, para Carlo Somaini, é uma solução perfeita para os países ocidentais: “Os governos deviam pagar para que viessem a países como esse, porque podem ter uma melhor qualidade de vida, e custaria menos ao Estado”, declara o gerente.

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