Bons contos sobre uma péssima ditadura

Bons contos sobre uma péssima ditadura

Você vai voltar pra mim, de Bernardo Kucinski, é um livro de lamentos, tem dor, sim, porque a ditadura provocou muitas dores, mas seus contos trazem sempre que possível uma ironia competente e denunciadora

Por Mouzar Benedito

Bernardo Kucinski é um jornalista e intelectual respeitado, autor de vários livros.

Há uns dois anos, ele me disse que estava começando a escrever ficção, deixando de lado os textos acadêmicos.

Concluiu que escrevendo ficção, quer dizer, coisas que não têm que ter provas, citação de fontes, essas formalidades, dava para falar mais claramente sobre certas coisas.

É verdade. E o resultado do que ele vem fazendo apareceu primeiro no romance K., baseado na história real do desaparecimento de sua irmã, Ana Rosa Kucinski, e seu cunhado, Wilson Silva, vítimas da ditadura. Um livro importante.

Agora, pelo que fiquei sabendo, inspirado por depoimentos que ouviu assistindo às comissões da verdade, ele lançou pela Cosacnaif um livro de contos, chamado Você vai voltar pra mim, que é o nome de um dos 28 contos do volume.

VOCE_VAI_VOLTAR_PRA_MIM_E_OUTROS_CONTOS_1392904768PSão contos curtos, que se referem a acontecimentos e personagens da ditadura iniciada em 1964, e da resistência a ela.

Não é um livro de lamentos, tem dor, sim, porque a ditadura provocou muitas dores, mas seus contos trazem sempre que possível uma ironia competente e denunciadora. E são puras verdades. O lado ficção, no caso, é o não compromisso de citar nomes e provas, é usar nomes fictícios para falar de personagens reais e histórias reais, ainda que possam ter sido um pouco modificadas pelo autor.

Maria Rita Kehl diz no prefácio, e isso fica claro durante a leitura, que o livro narra sem piedade o emburrecimento do país amedrontado pela ditadura, a proliferação de baixas autoridades e sua estupidez burocrática, e também a militância de esquerda na época.

Este ano, em 31 de março segundo alguns; em 1o de abril segundo outros, serão “comemorados” os 50 anos do golpe que, apoiado pelos Estados Unidos, por uma ala da igreja, pela grande imprensa e pelo grande capital, além da classe média conservadora, os militares foram colocados no poder e nele se mantiveram até 1985.

Colabore com o que o cabe no seu bolso e tenha acesso liberado ao conteúdo da Fórum Semanal, que vai ao ar toda sexta-feira. Assine aqui

Neste período em que se fala das mazelas do Brasil como se elas não existissem durante a ditadura, vale a pena aos que não têm memória e aos que nasceram depois, ler sobre o assunto. Está aí um bom livro para começar.

Seria bom que surgissem também mais livros contando não só da ausência de liberdade, da repressão, da violência do regime, mas também da corrupção que grassava solta, mas a imprensa não denunciava, era calada.

Numa conversa em Santos, me perguntaram como eu achava que seria se a Copa do Mundo fosse realizada aqui no tempo da ditadura. Eu disse que certamente não haveria denúncia de superfaturamento e qualquer outro tipo de corrupção.

Não que não houvesse corrupção, havia até mais do que hoje, as obras rodoviárias, por exemplo, chegavam a custar dez vezes o valor real. Mas a imprensa era calada e a Justiça, que hoje é ruim, era pior, se a gente denunciasse a ditadura, a resposta era contra nós. A Justiça se fazia de cega nessas horas.

E a incompetência? E os abusos de poder? Gente, com certeza era muito pior.

Pegando carona

Já que estamos falando de livros sobre a ditadura, aproveito para, de forma descarada mesmo, indicar dois livros de minha autoria publicados pela própria Publisher Brasil, editora da revista Fórum. São eles:

images (13)Pobres, porém perversos – romance. Nele, tento mostrar a vida de jovens migrantes vivendo em São Paulo na década de 1960 e início da seguinte, entrando na faculdade, morando em pensões, repúblicas e no Crusp, começando a ter consciência política e tomando contato com organizações de esquerda, vivendo a revolução sexual de 1968 etc.

– 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura – crônicas e causos. A ditadura sacaneou bastante a gente, mas muitos de nós também procuramos sacanear a ditadura como podíamos. E conseguíamos viver até com certa alegria, em meio a acontecimentos ruins. São pequenos relatos com uma visão muito pessoal minha, sobre a vida naquele período.

Compartilhe

Deixe uma resposta