Crescer ou decrescer? Esta é a questão

Crescer ou decrescer? Esta é a questão

A se manter o crescimento mundial numa média, por exemplo, de 3% anualmente, em 23 anos duplicaríamos o consumo atual de recursos, que já equivale a um planeta e meio. Onde encontraríamos três planetas?

Original em Rebelión, tradução por Ítalo Piva

“Todos os habitantes da Terra caberiam no Estado do Texas.” Com este argumento, setores da Igreja Católica enfrentaram a imensa maioria de participantes da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994, defensora do planejamento familiar e do controle da natalidade. Naquele momento, esta posição foi, com razão, muito criticada, especialmente pelos setores da esquerda. Aparentemente, a Igreja não apenas acredita que as almas vão para o céu mas também que, aqui na Terra, enquanto dentro do corpo, continuam como seres celestiais que não necessitam de nenhum espaço vital.

Surpreendentemente, grande parte da esquerda mantém uma crença semelhante no que diz respeito ao crescimento econômico continuo, como se nosso mundo fosse quase imaterial, desligado das leis físicas e biológicas que o governam e limitam o crescimento econômico, populacional ou de recursos disponíveis.

No seu artigo “Os erros da tese de crescimento” (1), o professor Navarro critica o ecologismo partidário do decrescimento, por Marcellesi (2), identificando-o como conservador, alguém que faz o jogo para a direita e desconhece as posições do ecologismo da esquerda, encarnadas em Barry Commoner.

Para Navarro, o problema não é escolher entre crescer e decrescer mas, sim, que tipo de crescimento queremos. Ele nota que a modificação do sistema produtivo e incrementos no setor de serviços possibilitam a existência de um crescimento econômico compatível com os ecossistemas. Se bem entendemos, com este tipo de economia se poderia manter um crescimento econômico ilimitado; suponhamos que do PIB, com uma queda na produção e consumo dos bens mais intensivos, na demanda de energia e outros recursos naturais utilizados. Em outras palavras, se trataria de desmaterializar a economia e desvincular o crescimento econômico da sua base física.

Mesmo que algumas nações como a Alemanha tenham conseguido certos resultados e manter o crescimento econômico ao mesmo tempo em que diminuía a energia utilizada através do aumento da eficiência energética e da redução nas atividades mais supérfluas, a grande maioria dos países não conseguiu fazer o mesmo. E se tivessem conseguido, somente ganhariam algum tempo extra, evitando a definitiva colisão das nossas economias com os limites do planeta. É que todo tipo de atividade, humana ou não, requer energia.

Na nossa opinião, existem três aspectos que devemos considerar – com quais talvez o próprio Commoner concordaria; conhecedor que era do segundo princípio da termodinâmica e das suas implicações para a economia – é preciso compreender o significado do crescimento ilimitado e descartá-lo por causa das suas consequências indesejáveis: nos limites naturais, no crescimento do tipo exponencial e na história das sociedades que fracassaram por causa dos problemas ambientais.

Alguns comentários ao professor Navarro, fundamentados no limite ao crescimento, podem ser encontrados no blog de Antonio Turiel (3) e no de Pedro Prieto (4). Concretamente, o pico do petróleo, em algum momento entre os anos de 2005 e 2006, tornou um fato inquestionável que, por falta de um substituto ao petróleo cru, acabará o crescimento econômico. Aparentemente, não existe um substituto com abundância, versatilidade e densidade energética comparáveis às do petróleo; com um problema adicionado que, ainda que se encontre, não haveria tempo suficiente para realizar tal substituição e evitar os problemas econômicos e sociais de uma crise energética e econômica como essa.

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Quanto a outros recursos não renováveis, tanto energéticos como minerais, tampouco os temos de sobra e eles também têm tempo limitado. No caso dos recursos renováveis, o panorama não é nada positivo; ao contrário, é mais preocupante. Para sintetizar, desde os anos 70 do século passado temos vivido um déficit ecológico. Desde então, os recursos renováveis que a terra produz anualmente não são suficientes e começamos a “devorar” o capital natural acumulado durante décadas e séculos. Como advertiu Mediavilla (5), queiramos ou não, o decrescimento físico já começou.

Einstein disse que um dos problemas da humanidade consiste em não compreender a função exponencial. No nosso caso, tanto o crescimento econômico como o demográfico se aproximaram, desde a Revolução Industrial até hoje, com um crescimento deste tipo. A solução não se encontra em manter o crescimento porque, ainda que encontrássemos uma fonte de energia tão ponderosa e abundante como o petróleo e continuar o crescimento mundial numa média, por exemplo, de 3% anualmente (a faixa média das últimas três décadas), em 23 anos duplicaríamos o consumo atual de recursos que já equivale a um planeta e meio. Onde encontraríamos três planetas?

Num sistema limitado, como a Terra, o crescimento exponencial do consumo de recursos também supõe uma redução exponencial dos mesmos recursos. Isto implica que se pode chegar a um ponto perigoso além de nossa capacidade de “frear” a tempo. Diante dessa possibilidade, se contentar com um copo meio cheio pode supor um risco fatal, porque indica que estamos nos aproximando do ponto culminante rapidamente.

Aconteceram situações semelhantes a nossa, numa escala local ou regional, em várias ocasiões ao longo da história. A investigação histórica apontou que o colapso de algumas sociedades aconteceu por causa da exploração dos recursos naturais. O crescimento demográfico e certas práticas nocivas acabaram com a base florestal e edafológica que sustentava essas sociedades.

Se tivéssemos prestado atenção aos avisos do Clube de Roma e de Einstein, assim como às lições da história, agora não teríamos que enfrentar essa situação de emergência.

Dizem que a verdade é revolucionária. Se não nos apressarmos para mudar o modelo econômico, a humanidade está destinada a sofrer um colapso. Assim sendo, mesmo que pareça inconcebível, o poder financeiro e político que domina o mundo elegeu sua opção: desenvolver a máquina do crescimento até que arrebente. Seguramente, acreditam que assim vão obter mais benefícios, não decidem diminuir a velocidade da economia e entrar numa etapa de decrescimento voluntário, porque isto significaria o fim do capitalismo e de seu status dentro desta sociedade capitalista.

 

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No entanto, mais difícil de compreender é a situação em que vive a esquerda. A cidadania, abatida por muitos problemas cotidianos, está alheia à crise energética que já enfrentamos e ainda acredita num futuro inexistente, que lhe proporcionara a recuperação da fonte de crescimento. A visão de paradigmas contrários, crescimento versus decrescimento, impede dimensionar a urgência da situação e sua difusão, mantendo a esquerda dividida e a sociedade no limbo da desinformação.

Seria razoável, apesar das diferenças existentes no que se diz respeito à valorização da situação ecológica – ainda que os fatos e a lógica deixem pouca margem de dúvida – que a esquerda concordasse em aplicar um princípio de precaução, no momento de definir uma política comum para minimizar os riscos, no caso de uma explosão na crise energética e intensificação das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, existe uma ideia central que pode servir de guia para se chegar a acordos de planejamento importantes: a ideia da resistência.

Se a economia aumenta ou diminui – nós acreditamos que, com altos e baixos, a tendência ao decrescimento é inevitável –, o importante é que se prepare o país para ser o mais resistente possível a novas crises econômicas, políticas, sociais ou ambientais, diante das perturbações ou contingências futuras, como a escassez e encarecimento da energia, mudanças no clima, novos distúrbios financeiro, casos graves de corrupção etc.

Ainda que não possamos dar um fim ao debate entre crescimento e decrescimento, ele não deveria ser, sob esta perspectiva, um obstáculo para se chegar a acordos com o objetivo de modificar o sistema produtivo, e o tornar menos dependente do petróleo, mais diversificado e local, com sistemas de reciclagem mais eficazes, que ao mesmo tempo usufruem e conservam os recursos de nossos países; especialmente as energias renováveis, os bosques, a diversidade biológica, cultural e paisagística, a terra fértil e a água.

A investigação científica, a inovação tecnológica e uma capacidade de financiamento próprio seriam necessários para melhorar a produção e evitar que o sistema se torne dependente do exterior ou dos bancos privados.

Com certeza, acordos são mais fáceis de conseguir nos campos sociais e políticos que fortalecem a solidariedade no nosso país, como combater o desemprego ao criar mais trabalhos ecológicos e a divisão do trabalho, manter e melhorar os serviços públicos essenciais, proteger os setores mais deficientes, vulneráveis e dependentes. A difusão e o debate, numa democracia participativa, em diferentes escalas, e a separação dos três poderes permitiriam fortalecer a discussão política e social.

Apesar das importantes discrepâncias que permanecem na esquerda, acreditamos que estes dois critérios, o da precaução e o da resistência, somado a outros menos importantes, permitirão alcançar um programa comum que nos tire da lama, evite sofrimento e prepare o futuro diante de desafios tão importantes como o das paralisações, da pobreza, a mudança climática e a crise energética. Aparentemente, este é o entendimento dos partidos e ativistas que iniciaram contatos para conseguir acordos substanciais, que devem ir além das eleições europeias, e tentar alertar os setores mais conscientes da democracia social sobre a situação de emergência em que nos encontramos.

Referências:

(1) Navarro, V (2014). Los errores de la tesis del decrecimiento. Público 6/2/2014

http://blogs.publico.es/dominiopublico/9039/los-errores-de-las-tesis-del-decrecimiento-economico/

(2) Marcellesi, F (2013). La crisis económica es también una crisis ecológica. Público 9/10/2013

http://blogs.publico.es/dominiopublico/7822/la-crisis-economica-es-tambien-una-crisis-ecologica/

(3) Turiel, A (2014). Revista de prensa. Vicenç Navarro en Dominio público. Blog The Oil Crash, 7/2/2014

http://crashoil.blogspot.com.es/

(4) Prieto, A (2014). De progresistas y biofísica económica. 8/2/2014

http://lacrisisenergetica.wordpress.com/

(5) Mediavilla, M. (2011). Decrecer bien o decrecer mal. Rebelión, 16/11/2011 http://www.rebelion.org/noticia.php?id=139397

 

(Crédito da foto da capa: http://www.google.com/culturalinstitute/asset-viewer/pgFVPI1J1YGXZA)

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