Cristovam Buarque: colocar 10% do PIB em Educação hoje é jogar dinheiro fora

Cristovam Buarque: colocar 10% do PIB em Educação hoje é jogar dinheiro fora

Em entrevista, senador defende modelo de ensino básico federalizado com uma nova carreira do magistério, na qual professores ganhariam R$ 9,5 mil. O pedetista demonstra insatisfação por ter conversado com Dilma apenas uma vez e sinaliza apoio a Eduardo Campos em 2014

Por Renato Rovai. Foto de capa Geraldo Magela/Agência Senado

Em 2006, o senador do PDT e ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque passou a ser conhecido nacionalmente com sua candidatura à Presidência da República. Nos debates e em aparições públicas, entre os outros temas comuns levantados em uma disputa como esta, sempre fez questão de falar da educação, seu assunto prioritário. Não era à toa.

Ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-ministro da área entre 2003 e parte de 2004, no primeiro governo Lula, Buarque foi autor de iniciativas pioneiras, como o Bolsa Escola, por exemplo, em sua gestão à frente do governo do DF, entre 1995 e 1999. Hoje, é um defensor da federalização da educação pública para o nível básico, acreditando, assim, levar a todas as unidades de ensino o mesmo nível de qualidade das escolas federais. Para tanto, ele defende que o professor ganhe R$ 9,5 mil, passando a fazer parte de uma nova carreira.

Na entrevista a seguir, Buarque fala a respeito de uma de suas nova funções no Senado, a de relator de um projeto de lei de iniciativa popular que trata da legalização da maconha no Brasil, e também discute as próximas eleições presidenciais, acenando um eventual apoio ao pré-candidato do PSB, Eduardo Campos, mesmo contra a provável orientação do seu partido. “Tendo a apoiar o Eduardo Campos, acho que ele representa uma novidade. O modelo se esgotou. O Aécio é parte desse modelo, é a concepção que veio do Itamar, Fernando Henrique, Lula… A Dilma é esse modelo para o Brasil. Acho que o Eduardo pode trazer uma novidade. Se eu fosse um candidato, e disse a ele, não ficaria pensando só o dia a dia, é preciso pensar a longo prazo. O Brasil virou um Partido da Próxima Semana, tudo é feito pra você ‘acochambrar’.”

Fórum – Começando pelo seu papel de relator de um projeto de lei de iniciativa popular sobre a legalização da maconha. O senhor disse que está estudando o assunto, o que pensa a respeito da proposta?

Cristovam Buarque – Estou impressionado como tenho que tirar tempo de outras coisas para discutir isso com jornalistas, ler materiais. O que estou pensando? Estou pensando em trabalhar para tentar responder às seguintes perguntas: primeiro, se um processo como esse de regulamentação aumenta o consumo ou não da maconha. Segundo, se viraria uma porta de entrada para outras drogas. Terceiro, qual a relação disso com a violência, se diminui ou não. Quarto, os aspectos medicinais que alguns defendem e que é um dos aspectos mais contraditórios entre os que dizem que é positivo, os que dizem que não é positivo, e os que dizem que é positivo, mas não necessário porque já existem outros medicamentos que preenchem esse espaço.

E, quinto, acho importante debater para ouvir qual a reação da moral brasileira em relação a isso. Porque uma medida, ainda que correta, que choque demais a opinião, a moral coletiva do Brasil, tem que se pensar duas vezes em fazer. Vemos como se adiou tantas vezes a lei do divórcio. O divórcio parecia que era o fim do mundo, as pessoas de hoje jamais imaginam como foi a resistência a ele. E isso fez adiar, adiar, até o dia em que o país mostrou que tinha uma maturidade – não unanimidade, unanimidade não teve, até hoje não tem, ainda tem grupos que são contra o divórcio.

Vou responder a essas perguntas aqui. Como? Fazendo audiências. Convidando pessoas para virem falar, de um lado e do outro. Estudando. Vou ter que dar minha opinião também, em algum momento, e não apenas fazer relatório, resumo. Vou ter que dizer “sim, vamos fazer um projeto” ounão, não vale a pena o projeto”. Poderia, mas acho que não vou ter tempo, eu próprio elaborar o projeto. Não tem um prazo marcado, mas estou me colocando esse semestre, pelo menos, para ter um relatório, não adiar muito porque o outro semestre não existe.

Fórum – Esse debate tem sido feito em outros países com menos, digamos, preconceito. O Uruguai acabou de aprovar uma legislação avançada.

Buarque – Mas houve muita resistência. Muita gente contrária.

Fórum – Mas vários países debatendo.

Buarque – Não, o debate tem que ser feito. Este é um tema muito relevante.

Fórum – E como o senhor não tem uma posição fechada, talvez ser o porta-voz desse debate seja algo interessante.

Buarque – É uma coisa relevante. Por exemplo, voltando à educação. Hoje, um dos maiores problemas da educação brasileira é a droga. A droga entre os jovens, e a violência contra os jovens fora da escola.

Fórum – Muito em função do poder do tráfico.

Buarque – Então, não há como hoje falar em educação sem querer enfrentar o assunto da droga. Se não enfrentarmos rapidamente, vai acontecer como já ouvi de um senador mexicano, que me disse: “nós perdemos a guerra contra as drogas”. Temos que descobrir como convivemos, não mais como enfrentamos. É muito grave chegar nesse ponto: a droga veio pra ficar, como alguns remédios antidepressivos. A economia que se criou em volta dela é porque é proibida, senão não teria esse problema todo. Em compensação, e se aumentar o consumo interno? O México, por exemplo, é mais exportador que consumidor. E se ao legalizar, em vez de exportar, ele passar a consumir internamente? Isso que tem que perguntar. Lamento que esse trabalho tenha caído para mim, porque está me desviando muito tempo de outras atividades que quero fazer. Sou relator aqui de muitas comissões, subpresidente de muitas subcomissões. Estou defendendo o plebiscito pela federalização da educação, coordeno uma frente parlamentar a respeito.

Fórum – Mas não é uma oportunidade de, a partir desse debate, pontuar outros?

Buarque – É, acho que tem esse lado também. Estou aqui com você, dizendo que estou dividindo tempo, mas outros jornalistas nem me procurariam não fosse pelo assunto da maconha. De repente temos custos, porque não me dedico 100% do tempo a esse assunto, mas por outro lado também ganho, porque o tema provoca a reflexão sobre a degradação da educação.

Fórum – O senhor tem defendido a federalização da educação, um assunto muito polêmico. As escolas federais, por exemplo, são as melhores notas do Ideb. Mas são escolas elitistas. Em muitas, senão em todas, se faz vestibular, então você já tem os melhores alunos mesmo que sejam das escolas públicas. Não é um argumento falacioso? O senhor acha possível dar a mesma qualidade a todas as escolas?

Buarque – Por que não dar? Se forem todas, só não dará certo se achar que tem criança que nasce com cérebro melhor que outras. Se todas as escolas forem boas, todas as crianças vão ter uma chance. Estas que hoje são selecionadas, e que realmente passam numa prova, já viveram um processo educacional em casa. Se a gente coloca todas nesse mesmo trabalho, todas chegarão iguais. Mas como fazer funcionar isso?

A federalização consiste primeiramente em constituir uma carreira nacional do magistério que pague muito bem, e minha proposta é R$ 9,5 mil por mês. Um salto fenomenal. Mas que se faça uma avaliação muito cuidadosa e rigorosa. Rigorosa no sentido de escolher os melhores; cuidadosa, incluindo entre o que é melhor a prática da pessoa de dar aula. Se a gente paga R$ 9,5 mil e escolher só com concurso, vai ter muita gente que vai passar no concurso odiando criança. Isso é um problema sério quando se paga bem. A Polícia Federal está cheia de gente que odeia o trabalho. Cientistas da UnB que foram para lá para ganhar mais estão completamente deslocados, procurando outro emprego. Tem que ter a seleção, e uma avaliação permanente. Isso pode ser o ponto mais difícil. Tem que se quebrar a estabilidade plena.

Fórum – Por que o senhor não apresenta um projeto de quebra de estabilidade plena com esse tipo de avaliação?

Buarque – Em geral, porque já tenho brigas demais. Além disso, nem tudo exige esse tipo de avaliação anual, o professor é quem tem que fazer a avaliação. Chamo isso de estabilidade responsável. Estabilidade porque presidente, governador, prefeito não podem demitir, dar a prerrogativa ao governador de demitir qualquer funcionário, sou contra. Mas, em uma avaliação, pode demitir.

Fórum – Poderia ser um pacote de avaliação que conte com a participação dos alunos da comunidade. O senhor tem um projeto para isso?

Buarque – Não, ainda é cedo pra isso. É uma briga, talvez a mais difícil, por isso lamento que Lula não tenha querido fazer isso. Lula era o cara para coordenar esse trabalho.

Colabore com o que o cabe no seu bolso e tenha acesso liberado ao conteúdo da Fórum Semanal, que vai ao ar toda sexta-feira. Assine aqui

Fórum – O senhor quando saiu do Ministério da Educação tinha essa relação com a questão da federalização?

Buarque – Tinha. Começamos em 29 cidades um programa chamado Escola Ideal. Só que a gente assumiu no primeiro ano, então o orçamento não comportava. Consegui dinheiro para isso, e muito pouco, realocando de outras áreas do MEC, porque o governo federal nunca deu qualquer dinheiro a mais pra educação no primeiro ano da gestão porque foi o ano do aperto. Mesmo assim comecei em 29 cidades, tudo com 10 mil habitantes, bem pequenininhas. Saí e pararam isso. Só consegui passar o dinheiro para eles em dezembro, porque era uma quase federalização, que passava os recursos para os prefeitos, não assumia as escolas.

(Flickr/Governo de Minas Gerais)

‘O professor que só dá aula em quadro negro não consegue atrair a atenção de uma criança que cresceu vendo televisão, brincando com computador’ (Flickr/Governo de Minas Gerais)

Mas voltando. Esse professor, essa nova carreira, tem também a infraestrutura: tem que ter prédio bonito, ar condicionado nas escolas… Não tem sentido morrer de frio aqui onde você está, e eu e uma criança termos aulas a 40 graus, às vezes com teto de zinco. É preciso pensar mais os equipamentos…

Fórum – São quantas mil escolas no Brasil?

Buarque – São duzentas mil escolas.

Fórum – Quantos professores?

Buarque – São dois milhões.

Fórum – R$ 9,5 mil cada um?

Buarque – Hoje vai custar 450 bilhões. Mas já se gasta 300, é uma diferença de 150. E só vai se chegar a isso daqui a 20 anos. Não existe federalização de repente, não. Federalização é aos poucos. E a grande sacada do programa é que você faz aos poucos no Brasil, mas faz de imediato na cidade, adotando todas as escolas.

Fórum – São convênios?

Buarque – Não, assume mesmo. Passam a ser federais, como as escolas técnicas.

Fórum – O processo de municipalização, se não me engano, foi realizado assim, não é? Foram sendo feitos acordos estado a estado com os municípios.

Buarque – É, foi transferindo. Agora, a gente está propondo fazer novas escolas, pois as que estão aí, raras são as que servem como escolas. Raros os prédios escolares que merecem esse nome. Tem que construir novas, acabar com o quadro negro, que hoje é como andar de carruagem. O professor que só dá aula em quadro negro não consegue atrair a atenção de uma criança que cresceu vendo televisão, brincando com computador. E isso tudo em horário integral. Vai custar R$ 450 bilhões por ano.

Fórum – O senhor conseguiu apresentar essas formulações para a presidenta Dilma?

Buarque – Não, entreguei à Gleisi [Hofman] e depois ao Gilberto Carvalho. E agora, veja bem, você vai fazendo por cidade, e tem mais: defendo que se faça nas cidades que quiserem. Voluntariamente. Se não quiser ser federalizada, não tem problema. Só que quando começar, ninguém para. O problema vai ser o contrário: definir critérios para não pegar todas, pois não se tem fôlego. O problema não é dinheiro, o Brasil tem mais de R$ 4 trilhões. Mesmo que fosse hoje, R$ 450 bilhõesé um montante que está dentro dos 10% do PIB. Apesar de ainda precisar incluir nesse total os gastos com universidades, a minha proposta é fazer isso em 20 anos. Vai sendo criado o novo sistema e desmontando o sistema tradicional.

Se houver um crescimento médio do PIB de 2% ao ano, o que não é muito para a história do Brasil, esses R$ 450 bilhões vão corresponder a 6,4% do PIB. Por isso que não entrei na briga de 10% do PIB no Plano Nacional de Educação. Achei que esta era uma luta irrelevante. Até porque se você usar 10% do PIB no sistema de hoje, está jogando dinheiro fora. E, se jogar dinheiro fora hoje, não vai conseguir fazer isso nunca mais. Por exemplo, esse salário de R$ 9,5 mil é para um professor de uma nova carreira. Se a gente der 10% do PIB hoje, é capaz de aumentar esse valor para os professores de agora, e aí o impacto vai ser muito pequeno na qualidade da educação.

Fórum – O senhor acha que alguém ganhando mais acaba criando um nível de comprometimento um pouco maior

Buarque – Não, não. Ganhando mais, não. Mas triplicando, sim. Tem que aumentar o salário, é ridículo o salário dos professores atuais. Mas pagar R$ 9,5 mil aos atuais não dará o impacto que se espera.

Fórum – Quando o senhor foi candidato a presidente da República, sua bandeirfoi o debate da educação. O senhor esperava um retorno mais qualificado dos seus eleitores desse debate?

Buarque – Não, porque eu era um político desconhecido. Sou do menor colégio eleitoral do país. Quem me conhecia era o pessoal de Brasília. Se eu saísse já como político em São Paulo, me sairia bem. Enfrentei Lula, um mito. Do outro lado, o ex-governador de São Paulo, estado que tem 28 milhões de eleitores, aqui [Distrito Federal] tem 1. E ainda peguei uma candidata com o charme que tinha Heloisa Helena naquele momento, além de um partido pequeno como o meu.

Aliás, um partido pequeno e que não me apoiou. O governador do Maranhão àquela época, Jackson Lago, proibiu que eu fosse ao Maranhão. Recebi um convite dos estudantes e ele não deixou. Cheguei em cidades que ninguém ia me buscar nem no aeroporto, nem do partido. No meu estado, Pernambuco, um personagem importante ficou doente quando cheguei lá. Não vou dizer quem é porque é até meu amigo. Mas por que ficou doente? Porque apoiava Lula. E depois, quanta gente chegava pra mim e dizia: “Rapaz, eu queria votar em você, mas se votar em você o Lula vai ter que ir pro segundo turno”. Ou então dizia que se votasse em mim o Alckmin não iria para o segundo turno.

Lembro que as pesquisas me deram 1% do começo ao fim. Na véspera da eleição deu 1%. No fim cheguei a 2,5%, acho que foi bom. Foi tão bom que não quero mais ser candidato, porque se for candidato agora vou chegar a 5, 6. Mas quebro minha mística de ser um combatente da educação – vou ficar como mais um perseguidor da Presidência. Comuniquei ao PDT que não seria candidato mesmo que o partido quisesse. E acho que o partido não quereria também porque, depois que entrou no ministério, morreu a chance de ter candidato a presidente. O PDT tem candidato a ministro, não a presidente. Presidente é o que o PT indicar, seja quem for. Sei disso, mas de repente aconteceu, seis meses atrás, uma campanha nas bases do PDT pra eu ser candidato. Nos congressos eu era aplaudido, “Cristóvão Presidente”. Mas disse: “Não serei”. Se tivesse sido em 2010, com a lembrança de 2006, teria chegado a um patamar que justificaria ser candidato agora, até com chance que não tem o Lula. Se é que não tem, né?

Se esgotou o modelo, que vem de Fernando Henrique, passa por Lula e Dilma… O modelo da estabilidade do Plano Real, do Bolsa Família, esse esgotou. Porque a democracia, se ela não mudar, não é mais respeitada. A corrupção poluiu. As negociatas poluíram. A promiscuidade dos partidos, sua desmoralização, essa democracia aí se esgotou. O Plano Real está quase se esgotando, pela liberalidade e excesso de gastos, falta de poupança. E o Bolsa Família está se esgotando porque não se está criando alternativas a ela. Não pode ser um programa para sempre, tem que durar uma geração. Mas já estamos na segunda geração de Bolsa Família.

Fórum – Mas muita gente já declinou do Bolsa Família

Buarque – Muita gente o quê, um milhão?

Fórum – Quase 1,7 milhão de famílias.

Buarque – Não, não… Um milhão e pouco. E você não fala quantos entraram novos. Não houve diminuição no número de 12 milhões.

Fórum – O Bolsa Família também é significante pra quem recebe.

Buarque – Lógico, comecei isso e me recordo que na campanha pra governador levava uma pizza e dizia: olha o quanto vou tirar pra esse programa: era 0,5%, se não me engano. E as pessoas achavam que era demagogia. É pouco. O problema do Bolsa Família não é financeiro, é o esgotamento de um modelo que não dá o resultado que se espera. É um programa que, em vez de emancipar, está assistindo – felizmente. Costumo dizer que se não tivéssemos o Bolsa Família, hoje, seria uma tragédia tremenda. Mas, se daqui a 20 anos ainda tivermos, também é uma tragédia. Já é a terceira geração, o neto. Já tem muitos filhos que tiveram o Bolsa Família, no tempo do Fernando Henrique ainda, o Bolsa Escola, que foi 2001… Quem tinha 10 anos naquela época está com 20 anos.

Fórum – Mas, senador, o senhor é um social-democrata, não? A social democracia sempre teve programas de renda complementar.

Buarque – Sou favorável, quem disse que sou contra? Mas tem a escola. A Suécia é o exemplo da social democracia. A escola do mais rico é igual à escola do mais pobre. Pra onde vem a assistência social? Pro desempregado, pro alcoólatra, que não deu certo na vida. E que não é transmitido de família, do pai pra filho. O filho de classe média e alta cai no seguro-desemprego na Suécia, e o filho do pobre sobe para gerente da firma. Aqui não. Aqui o filho do Bolsa Família continua pai e avô do Bolsa Família se não der educação. Mas volto a dizer que felizmente tem o Bolsa Família. Sou nordestino, lembro do tempo em que dava seca, e via em Recife os retirantes… Essa seca não teve retirante porque chegava o dinheirinho ali.

Fórum – Conheci cidades no interior do Nordeste que fortificaram completamente sua economia local.

Buarque – Mas, se amanhã tiver um doido nesse país que pare o Bolsa Família, essa cidade acaba. Acredite nisso.

Fórum – Não é cedo para fazer uma avaliação dessas? Dez anos de programa, o senhor não acha muito pouco?

Buarque – Não, gente. Já é a segunda geração. Se a gente tivesse colocado os meninos de 5 anos em uma boa escola, hoje eles estariam com 20. Eram outros. Não colocou e foi um erro mudar o nome de Bolsa Escola para Bolsa Família. A mãe que recebia esse dinheiro pensa, recebo esse dinheiro para que meu filho vá pra escola. A mãe que recebe o Bolsa Família, pensa, recebo esse dinheiro porque minha família é pobre. Foi um erro grave do Lula ter tirado a palavra escola. Se ele não queria o nome do Fernando Henrique, que colocasse “Renda Escola”, mas não “Bolsa Família”. Essas famílias pobres nem sabiam que havia escolas, passavam a ganhar para estudar, isso dava dignidade, isso dava compromisso. Perdemos.

Lula e Critovam Buarque

Lula e o então ministro Cristovam, no primeiro mandato do presidente (Marcello Casal Jr./ABr)

Buarque – Não tenho raiva, porque na minha sala tenho uma foto de mim ao telefone sendo demitido (risos). É verdade, eu tenho foto com os meus três líderes: [Miguel] Arraes, [Leonel] Brizola e Lula. Aí você pergunta, cadê o Lula? O Lula está no telefone (risos). É verdade, porque sabia que seria naquela hora pelo telefone, aí quando ligou disse pro cara: “bate uma foto”.

Senti uma frustração em certo nível porque, de fato, o governo Lula não iria dar, como não deu, a importância à educação de base. O Lula fez uma opção e, quando me demitiu, disse, de certa maneira, indiretamente, que fazia uma opção pelo ensino superior. O Lula foi um bom presidente para o setor do ensino superior, fez dez universidades estatais, criou o ProUni. Do mesmo jeito que o Bolsa Família é um filho meio que desgarrado do Bolsa Escola, que eu criei, o ProUni é filho de um programa que deixei lá que se chama PAE [Programa de Apoio ao Estudante], com uma diferença: todo bolsista tinha que ser alfabetizador de adultos, durante seis horas por semana, durante um semestre, porque assim não atrapalhava o curso de ninguém e erradicava o analfabetismo no Brasil.

Colabore com o que o cabe no seu bolso e tenha acesso liberado ao conteúdo da Fórum Semanal, que vai ao ar toda sexta-feira. Assine aqui

Fórum – Que é um problema que permanece…

Buarque – Essa questão aumentou ano passado. Agora, veja bem, por que o Lula optou pelo ensino superior? É porque dá mais retorno político. Foi a sagacidade política dele que viu isso. Ninguém comemora uma escola a mais na cidade, todo mundo comemora uma universidade. Você vê que essa prioridade à educação superior é tão grande que o Enem se transformou num medidor da educação de base para vestibular. E todo mundo no Brasil passou a dar importância a ele, antes ninguém ligava. O Enem dizia: “as escolas estão ruins”, agora ele diz: “você entra numa universidade”, todo mundo liga.

E aí é o imaginário brasileiro com o qual o Lula se sintoniza muito bem. Ele percebeu, e confesso que não fui um ministro para o ensino superior, partiu de outra gestão. E fiz uma proposta de refundação, que a universidade não quer nem falar. Falei em refundação, e a gente tem o Reuni, que só fez mandar dinheiro para a universidade, não fez uma reforma. E a nossa universidade está absolutamente superada. Não é porque falta dinheiro, é porque a concepção dela é velha.

Ao fim, senti um “frustoalívio”, porque tenho uma dívida com o Lula, que me ajudou a ser governador, sem o apoio dele eu não seria; e me fez ministro, que era o que eu mais desejava.

Fórum – E como seria sua relação agora com o governo Dilma?

Buarque – Nunca falei com a presidenta Dilma, a não ser em um almoço, quando convidou os senadores. Nunca estive só com a Dilma. Já a cumprimentei em alguns lugares e teve esse almoço pro PCdoB, PDT e PSB. Antes de acontecer o almoço, ela ficou conversando com a gente e começou a elogiar o colégio militar, que ela tinha visto numa Olimpíada. O colégio militar federal é tão bom que não entra mais nas Olimpíadas, não aceitam mais, ficam de fora. E aí me passou pela cabeça: “Presidenta, por que a senhora não faz todas as escolas do Brasil iguais a essa? Não dá tempo no seu governo, mas a senhora poderia fazer numas quinhentas cidades, tudo federal”. Aí saí de lá e fiz essa carta que separei aqui, já tinha um livro sobre isso… Foi fácil fazer uma análise a respeito, quanto custa… E até chamei de “Ciep da Dilma”, porque ela é brizolista, como eu. É o Ciep por cidade. Ao invés de fazer uma escola Ciep, você faz uma cidade Ciep. Entendeu? Mas nunca tive resposta, foi em julho de 2011. Vai fazer três anos.

Fórum – O senhor vai apoiar a Dilma com o seu partido?

Buarque – Tendo a apoiar o Eduardo Campos, acho que ele representa uma novidade. O modelo se esgotou. O Aécio é parte desse modelo, é a concepção que veio do Itamar, Fernando Henrique, Lula… A Dilma é esse modelo para o Brasil. Acho que o Eduardo pode trazer uma novidade. Se eu fosse candidato, e disse a ele, não ficaria pensando só o dia a dia, é preciso pensar a longo prazo. O Brasil virou um Partido da Próxima Semana, tudo é feito pra você “acochambrar”. Tem que pensar em cinquenta anos, e aí vejo duas pernas: conhecimento e sustentabilidade da natureza. É aqui que a gente vai ver o futuro.Tem uma economia do conhecimento, baseada nas ciências das novas tecnologias, o Brasil inventou essas coisas e é um país que só monta e fabrica, não cria.

A gente não vai acabar com a violência se não mudar a cabeça dos brasileiros. A violência não se muda só com a polícia, se muda com a cabeça do homem. E ao mesmo tempo tem a questão da sustentabilidade. Ele tem todas as condições de trazer esse discurso até porque foi ministro da Ciência e Tecnologia e a vice foi ministra do Meio Ambiente. Claro que ao lado disso tem que ter duas coisas: mudar o cotidiano das pessoas, de imediato, e fazer uma reforma política. Não vejo Aécio ou Dilma com condições de trazer isso aqui, esses pilares de um novo projeto. Os pilares que a gente tem do modelo dos últimos anos são os mesmos: é o Plano Real, estabilidade monetária, transferência de renda, é a democracia. Isso está se esgotando.

Fórum – Quando o senhor fala em “o mesmo modelo”, penso que o Eduardo Campos é filho desse modelo e sempre governou por essa lógica. Ele não é uma pessoa que tem uma prática política de, por exemplo, governar com a democracia direta, de entender os movimentos numa dinâmica, diria, mais horizontal. Essas coisas podem até ser vistas na Marina, já no Eduardo… Até me surpreendo com o senhor dizer que ele é um novo…

Buarque – Não disse isso, disse que tendo a apoiá-lo. Até aqui ele não fez esse discurso…

Fórum – Sim, mas que ele traz essa representação dessa nova política…

Buarque – Mas dos que tão aí, ele é o que tem mais chance de fazer isso. A Marina? A Marina, sim! O Eduardo, tenho esperança que ele possa ser isso; ela, tenho certeza.

Fórum – Olhando para Pernambuco, o senhor acha que ele exerceu esse tipo de manobra política lá?

Buarque – Não tanto, nesse lado político, não.

Fórum – Na relação com a natureza? Na relação com a educação? Com o conhecimento…

Buarque – Não foi, a educação pensei pela federalização, nenhum governador tem…

Fórum – De qualquer forma, pegando as notas do Ideb e comparando o desempenho das escolas entre estados, há saltos qualitativos, maiores que o de Pernambuco.

Buarque – Mas, veja bem, acho que ele pode vir a ser, os outros acredito que já não têm a chance de ser.

Fórum – A reforma política não é muito mais importante que qualquer eleição hoje?

Buarque – Coloquei aqui a reforma política como um dos pilares…

Fórum – Por meio de uma Constituinte exclusiva?

Buarque – O que tenho defendido é que a gente tenha uma Constituinte exclusiva com um número reduzido de pessoas e que depois não possam concorrer a qualquer outro cargo.

Fórum – Pelo menos por um período?

Buarque – Por mim, botava definitivamente, sabia? Por um período longo, que definitivo não existe. Não tem cadeia perpétua, então não pode ter uma quarentena perpétua. Colocar um período longo, como a maior parte do contingente são pessoas de idade, poucos vão ser “jovenzinhos”, então já excluiria quase todos. Mas duvido que isso seja feito.

Fórum – A quarentena?

Buarque – Não, digo, acho difícil que seja feita a exclusiva. Muitos políticos não vão querer ser constituintes. Agora, como acho que isso vai ser muito difícil, a solução seria pelo Congresso, com o plebiscito depois.

Fórum – E o senhor acha que vai haver condições políticas de apresentar algum projeto como esse em 2015?

Buarque – Tem que ser 2015, não pode demorar. Então, imagino que ele [Eduardo Campos] ainda possa ser isso, mas não vi o discurso com clareza dele.

Fórum – Isso não cria um problema interno? Sendo do PDT, apoiando outro candidato…

Buarque – É um partido que não tem problema interno.

Fórum – O senhor está indo pra Rede depois dessa eleição?

Buarque – Não… Não saio do PDT.

Fórum – Não?

Buarque – Já saí uma vez de um partido e foi muito traumático. Não tenho experiência com mais de um casamento, mas sair de um partido, pra mim, deve ter sido parecido com um divórcio. Se eu realmente cansar do PDT, saio da política. Da política, digo, eleitoral. 

Fórum – O senhor não iria pra Rede?

Buarque – Sinceramente, não vejo muita diferença nem mesmo na Rede. PSolNão vejo tanta diferença. Todos viraram grupos eleitorais. Uma coisa que apoio, a aliança da Marina com o Eduardo, é um abandono de muitas das coisas da Rede, e mesmo assim apoio. Foi um belo gesto. Mas foi um desvio. Conversei com a Marina uma vez e disse que ela não devia criar partido, achava que deveria preencher uma lacuna que o Brasil tem hoje. O Brasil não tem um líder moral. Nós já tivemos Raimundo Faoro, já tivemos muitos líderes. Hoje a gente não tem, porque viramos todos partidários. Não temos um poeta nacional, já tivemos também, Drummond e outros, né…

Fórum – Temos o Chico Buarque.

Buarque – É, o Chico, mas não é a mesma coisa. E é partidário. Então, está faltando um líder moral no século XXI, foi o que disse a ela. Acho até que foi em função disso que ela não disse que não queria ser a Madre Tereza de Calcutá, foi um pouco em resposta a minha sugestão.

Compartilhe

Deixe uma resposta