Israel – sociedade militarizada, pistolas transparentes

Israel – sociedade militarizada, pistolas transparentes

“No sistema educacional israelense a palavra ‘palestinos’ não existe. São árabes, não palestinos.” Ativistas de Jerusalém descrevem a sociedade de Israel como “militarizada” e reconhecem certa insensibilidade em seus compatriotas

Sahar Vardi e Micha Kurz são ativistas israelenses que trabalham contra a ocupação dos territórios palestinos diante da militarização israelense

“Eu controlava toda uma população de civis. Tinha que decidir se as pessoas podiam ir ao trabalho, se podiam fazer compras, se as crianças iriam na escola naquele dia.”

“Israel é uma sociedade militarizada, as pistolas são transparentes para nós.”

Original em El Diario, tradução por Ítalo Piva

Sahar Vardi e Micha Kurz, ativistas de Jerusalém. / Miguel Ángel Moreno Ramos

Sahar Vardi e Micha Kurz, ativistas de Jerusalém (foto: Miguel Ángel Moreno Ramos)

Resistir contra a complacência em um país militarizado e insensibilizado com décadas de ocupação de um território que pertence a outro povo. Essa é a decisão, que por caminhos distintos, decidiram tomar os jovens israelenses Sahar Vardi e Micha Kurz, ativistas de Jerusalém, que descrevem a sociedade de Israel como ‘militarizada’, e reconhecem certa insensibilidade em seus compatriotas, que vivem “numa bolha” e veem o conflito entre Israel e Palestina mais em um aspecto teórico do que pessoal.

“A sociedade israelense não tem sido capaz de se despolitizar”, explica a ativista a respeito da ocupação dos territórios palestinos. As pessoas podem ou não estar de acordo, ser contra ou a favor, porém nunca é um grande problema, não existe muita transcendência. Não sentimos que o conflito é nosso, do lado de Israel”, diz Sahar Vardi, ativista de 24 anos que esteve presa durante três meses por ter se negado a fazer o serviço militar, obrigatório para  jovens que completam 18 anos no país hebraico.

Esta falta de preocupação pelo conflito em geral, e pelas lástimas da população palestina, que depende dos soldados israelenses que controlam os checkpoints (áreas de segurança entre as fronteiras) para ir ao colégio, ao trabalho e ao hospital, é uma percepção compartilhada pelo ex-soldado israelense Micha Kurz, agora ativista pro-palestino da organização Grassroots Al-Quds (baseada em Jerusalém, e que usa o nome árabe da cidade), um grupo que se dedica a fortalecer os laços entre os diferentes bairros palestinos da cidade.

“Quando terminei o serviço militar, creio que haviam duas coisas cruciais que eu queria que minha família entendesse. Tínhamos discussões políticas, conversávamos do que passava, mas o que era óbvio pra mim é que minha mãe não tinha o acesso para realmente saber o que estava acontecendo em Ramala, que está a 20 minutos de carro de onde eu cresci. Ou em Hebron, que é apenas uma hora dirigindo de Jerusalém”, explica Kurz, que também é cofundador da organização Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio), dedicada a divulgar relatos de soldados israelenses que serviram na Cisjordânia.

A vida a partir de um checkpoint

Micha Kurz entrou no Exército aos 18 anos, como parte do serviço militar  obrigatório e com um clara vocação castrense. “Cresci nos escoteiros, que em Israel não se trata muito de um treinamento de liderança, e sim uma preparação para o Exército […] Queria ser de um batalhão de elite, ser piloto ou soldado de combate”, relembra. Entrou em 1999, durante a segunda Intifada, e foi enviado a um checkpoint, onde, com apenas 19 anos, passou a controlar uma população de 900 palestinos que tinham que passar por seu posto de controle pra poderem ir ao trabalho ou à escola.

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“Eu controlava toda uma população de civis. Tinha que decidir se as pessoas podiam ir ao trabalho, se podiam fazer compras, se as crianças iriam na escola naquele dia”, afirma Kurz, que recorda como começou a se dar conta que a realidade do Exército não era como ele tinha imaginado.

“O treinamento está baseado em seguir ordens, e não questionar o que diz o sargento […] Durante meu serviço no Exército estive em Hebron, em Ramala, e precisei de muito tempo para entender a realidade. Me dei conta de que estávamos protegendo não só as fronteiras, mas também os assentamentos, e não só protegendo os colonos, mas também permitindo e apoiando sua expansão”, explica Kurz. O ex-soldado hoje trabalha de ativista com a população palestina de Jerusalém, a maior área urbana do povo palestino, partida no meio pelo muro de separação erguido por Israel em 2002, e “a futura capital da Palestina”, nas palavras do jovem israelense.

“Israel é uma sociedade militarizada, começando pelo serviço militar obrigatório, que é uma coisa básica aqui. Além disso, inclusive, tem a maneira como somos educados, tem a normalidade de ver pistolas em qualquer lugar nas ruas. Essas são coisas comuns para nós, nem percebemos, são transparentes. Se prestar atenção na publicidade, a melhor forma de vender algo é pôr um soldado no anúncio”, ilustra Vardi, que desde muito pequena teve uma visão do conflito completamente distinta da de Micha Kurz, por ter visitado desde os 13 anos os territórios ocupados e ter se relacionado com os palestinos.

“Descobri uma realidade muito diferente, uma na qual meus amigos eram ilegais em suas próprias casas.”

O caso de Vardi era único em seu contexto local de Jerusalém, não só por ter conhecido palestinos desde adolescente – “Falávamos sobre coisas normais, quanto odiávamos matemática, mas também descobri uma realidade muito diferente, uma na qual meus amigos eram ilegais em suas próprias casas. Nos chamavam para que fôssemos os tirar da comissária ou de um checkpoint”, relata -, também por pensar diferente em uma sociedade onde se educa até os mais jovens a dar apoio à ocupação de um território.

“No sistema educacional, a ocupação praticamente não existe. A palavra palestinos não existe. São árabes, não palestinos”, disse Sahar Vardi, que quando ia completar 18 anos, idade do serviço militar obrigatório em Israel, decidiu objetar publicamente com alguns companheiros, e chegou até a escrever uma carta ao primeiro-ministro da época, Ehud Olmert.

“É bem fácil escapar do Exército se você sabe como. O recurso de doença mental é a porta mais fácil para se livrar do serviço militar, 12% da população israelense faz isso cada ano”, indica a ativista, que teve que sofrer três meses de cadeia e dois de detenção por ter objetado publicamente.

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Tomar essa decisão trouxe consequências mais de exclusão social do que legais, mesmo que Vardi explique que, recentemente, foi aprovada uma lei que dá prioridade, na prestação de serviços sociais como saúde, empregos públicos ou moradia, àqueles que serviram no Exército, discriminando aqueles que não fizeram a conscrição militar.

“As repercussões políticas e sociais estão aumentando. Uma das leis que foi aprovada com esse propósito é a chamada ‘Lei das ONGs’, que pretende estabelecer mais impostos para as organizações não governamentais de tipo político. Entre elas, há um grupo de organizações que não vão poder ter nenhum tipo de financiamento estrangeiro, aquelas que apoiam a resistência armada contra Israel, as que apoiam o boicote de Israel, ou as que apoiam a objeção ao serviço militar”, especifica Sahar, que vê essa legislação como uma forma de amedrontar aqueles que não querem ir para o Exército.

“O pacto foi rompido”

Micha Kurz também expõe outra realidade – já demonstrada em 2011 com os movimentos de protesto que surgiram em várias cidades de Israel – que o pacto que vinculava israelenses a seu Exército em troca de benefícios está “rompido”. “O movimento sionista foi construído como um sonho socialista de nacionalidade judaica. Meus pais foram sionistas porque lhes fizeram uma promessa. Ofereceram serviços públicos, moradia pública, saúde, trabalho, pensões… A única coisa que tinham que fazer era servir no Exército e continuar como reservista até os 45 anos”, ele explica. Agora, com serviços sociais privatizados e sua prestação diminuída, a situação é outra.

“Nos checkpoints e nas fronteiras, não verás soldados de classe média, só das classes trabalhadoras”, aponta Vardi, que assegura que cada vez mais há jovens que deixam de fazer o serviço militar obrigatório por motivos econômicos, muitos deles utilizando a via de problemas mentais, mas outros se recusando de forma pública. “Agora mesmo tem dois objetores públicos na prisão e outro que vai se juntar a eles no mês que vem”, segundo Vardi, que trabalha apoiando os que recusam e denunciando a militarização de seu país.

Como ativistas, Micha Kurz e Sahar Vardi são críticos do processo de negociações atuais, que veem mais como uma “representação”, e não algo que terá algum resultado concreto. Porém, Vardi, sim, confia na importância do boicote comercial de Israel, que está crescendo, e em sua influência para uma futura solução do conflito. “Eu digo a John Kerry (secretário de Estado americano), se essas negociações falharem, o boicote de Israel vai se expandir”.

“Se as negociações não derem certo, o boicote seguirá crescendo, insiste a jovem ativista. A pessoas do mundo estão fartas de tudo isso, e cansadas de financiar algo a que são contra.”

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