O horror na República Centro-Africana

O horror na República Centro-Africana

Encravada no meio do continente mais problemático do planeta, a República Centro-Africana sofre há mais de um ano uma das mais brutais tragédias desse século com a violência chegando a extremos com crianças sendo mutiladas e atos públicos de canibalismo

Por Ítalo Piva e Vinicius Gomes

Em setembro de 2013, uma matéria a respeito de um pequeno país africano levava como título Porque a República Centro-Africana é a pior crise que você nunca ouviu falar. Seis meses depois, o mesmo título ainda seria válido.

A República Centro-Africana (RCA) tem vivido dias de conflitos brutais e sangrentos – demarcados principalmente por linhas religiosas. O pequeno país que a Organização das Nações Unidas (ONU) estimou ter 4,6 milhões de habitantes e cuja posição geográfica justifica o nome, se encontra numa parte do continente onde o genocídio e a barbárie são uma triste rotina. Sem fronteiras marítimas, a nação africana é rodeada por países onde as lentes dos meios internacionais estão focadas há anos, cobrindo guerra após guerra. Ao norte se encontram o Chade e o Sudão; ao sul, a República Democrática do Congo, e ao leste, o Sudão do Sul, vizinhos que exemplificam a natureza instável da região.

Crianças soldados integram as autodefesas anti-balaka na República Centro-Africana (Reprodução/Twitter)

Crianças soldados integram as autodefesas anti-balaka na República Centro-Africana (Reprodução/Twitter)

A ONU calcula que já tenha havido milhares de mortos nos conflitos e metade da população precisa de ajuda humanitária, sendo que, desde dezembro, quase um milhão de pessoas deixaram as suas casas. A população islâmica no país – minoria em meio a uma população de 50% de cristãos, com os seguidores de religiões indígenas rondando os 35% – tem sofrido uma perseguição selvagem das milícias cristãs conhecidas como anti-balaka (no idioma Sango significa “machete”). Muito do caos atual se deve ao que ocorreu em março do ano passado, quando a Seleka, a coalizão rebelde de maioria muçulmana que, após anos de insurgência contra o governo e ganhos territoriais, finalmente conseguiu tomar a capital Bangui, forçou o exílio do chefe de Estado, general Bozizé.

Desde que a Seleka assumiu o poder, o país foi engolfado em uma onda de violência, direcionada principalmente contra a comunidade cristã da RCA. Antes de deixar o poder em janeiro, os muçulmanos da Seleka mataram milhares de cristãos – principalmente com o uso das “balakas” –, pilharam e queimaram suas casas fazendo com que o país virasse uma terra sem lei com uma divisão sectária baseada em violência, ódio e promessas de vingança.

“Estas milícias não são algo de estruturado, são grupos de bandidos que atuam em nível local, espalhados um pouco por toda a parte, que fazem lei”, explica Donatella Rovera, conselheira sobre situações de crise da Anistia Internacional. A crueldade de ambos os lados não encontrou limites na escolha de seus alvos. Segundo Fatou Bensouda, procurador-chefe da Corte Criminal Internacional em Haia, “as alegações incluem centenas de mortes; estupros e escravidão sexual; destruição de propriedade; pilhagem; tortura; refugiados e deslocados internos; recrutamento e o uso de crianças como soldados”, disse ele.

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Segundo a Unicef, a violência infantil também atingiu níveis “sem precedentes”, com relatos de crianças sendo decapitadas, mutiladas e feridas, além das que tiveram seus membros amputados por não conseguirem chegar a tempo no centro médico. No entanto, um dos casos mais extremos da brutalidade que tomou conta do país foi relatada pelo correspondente da BBC, Paul Woods, ao testemunhar um ato de canibalismo na capital, Bangui.

O canibal "Cachorro Louco" (Reprodução)

O canibal “Cachorro Louco”. Momentos após arrancar com mordidas pedaço da perna de muçulmano assassinado (Reprodução)

“[…] alguns minutos antes, eu conversei com uma testemunha horrorizada, Ghislein Nzoto, ele disse que tudo começou quando um homem muçulmano foi arrastado para fora de um ônibus. As pessoas começaram a atacá-lo, chutá-lo. Eles esmagaram sua cabeça com uma pedra. Havia cerca de 20 jovens, eles cortaram uma perna fora e então um deles começou a comê-la. Ele mordeu quatro vezes e engoliu”, disse ele – que conversou com o canibal. “Seu nome era Ouandja Magloire, mas ele me disse que agora era conhecido apenas como Cachorro Louco […] Ele me contou que os muçulmanos mataram sua esposa grávida, sua cunhada e seu novo bebê”. A explicação para o ato de canibalismo? “Porque estou com raiva”, ele disse. Não havia nenhuma outra explicação.

Um histórico de sucessivas tragédias

A RCA é apenas mais um dos países africanos “criados” pela dominação europeia no fim do século 19. A Conferência de Berlim em 1885 dividiu a África em zonas de controle para os poderes coloniais do Ocidente, que visavam a exploração dos recursos naturais e de mão de obra que o continente oferecia. A República Centro-Africana, até 1958, quando se tornou uma província autônoma da União Francesa, fazia parte da África Equatorial Francesa, território concedido à França no coração do continente, que também englobava a República do Congo, Chade, Gabão e Camarões. Sua independência veio em 1960, quando assumiu o atual nome e entrou numa fase que durou três décadas, marcada por diferentes regimes totalitários que incluíram até um imperador.

As primeiras eleições democráticas na história do país aconteceram em 1993, com ajuda de monitores da ONU e órgãos internacionais. Ange-Félix-Patassé foi eleito presidente e governou durante dez anos, mas a corrupção e a falta de instituições governamentais fortes levaram à sua queda em 2003, por meio de um golpe orquestrado pelo general François Bozizé, que assumiu a presidência se mantendo nela até 2013, caindo com a chegada do Seleka. Durante esses 10 anos, ele teve de enfrentar diversos grupos oposicionistas armados e seu governo foi gerenciando como uma ditadura militar. François Bozizé e seus aliados lideraram uma administração repleta de autoritarismo, nepotismo, subdesenvolvimento e corrupção desenfreada.

Houve sucessivos acordos de paz com os mais variados grupos de oposição. Em todos eles, os termos do acordo incluíam a garantia de anistia a todos os soldados rebeldes, a transformação das milícias em partidos políticos e a integração dos rebeldes ao exército nacional. Mas as acusações de não-cumprimento desses acordos fizeram com que a violência explodisse novamente, além do fato de as eleições em 2011 terem sido altamente criticadas pelos opositores. No entanto, com o limitado controle governamental fora da capital, os rebeldes conseguiram movimentar armas e soldados pelas fronteiras porosas do país.

Mapa da violência em RCA

Mapa da violência na RCA

E então, em dezembro de 2012, os grupos rebeldes do noroeste do país se uniram em uma – não tão coesa – coalizão; que é a tradução literal de Seleka. Em seu caminho rumo à capital, eles devastaram o interior do país com violência, pilhagem, estupros e recrutamento de crianças como soldados. As tentativas de acordo de paz nos meses seguintes não deram resultado e a Seleka finalmente tomou o controle da capital em março de 2013.

No entanto, facções rebeldes da Seleka começaram a agir por conta própria – retomando a onda de violência que antecedeu a queda de Bozizé. Em resposta, foram criadas as milícias cristãs anti-balaka.

Em 2014, o presidente autonomeado, Michel  Djotodia apresentou sua demissão, fruto de pressões internacionais, e, dias depois, o Parlamento do país elegeu Catherine Samba-Panza, a primeira presidenta do país. Mesmo assim, imediatamente após o primeiro discurso de Samba-Panza, houve um linchamento brutal de um suspeito de ser um rebelde Seleka: a vítima foi esfaqueada, apedrejada até a morte, esquartejada e o que restou de seu corpo foi queimado.

A esperança, agora, fica por conta das intervenções internacionais da ONU. As preocupações com a violência levaram o Conselho de Segurança das Nações Unidas a autorizar o envio de forças de paz. Estão no país, em Bangui e em outras cidades, 5,4 mil soldados de uma missão da União Africana e 1,6 mil soldados franceses que chegaram em dezembro. No início desse mês, estava previsto o envio pela União Europeia de 500 militares.

Foto de Capa: Matthieu Alexandre/Caritas

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