Abre as asas sobre nós

Abre as asas sobre nós

Durante a ditadura militar, a censura e o cerco à imprensa fizeram com quem surgissem experiências fascinantes na área do jornalismo, com veículos alternativos combatendo o regime das formas mais variadas

Por Mouzar Benedito

Nessa onda de “comemoração” dos 50 anos do golpe de 1964, divago mais uma vez sobre um assunto referente a ela. Nada que seja novidade: a liberdade, ou melhor, a falta de liberdade para publicar suas ideias e criações, seja em jornais, revistas, livros, música, filmes, peças de teatro ou mesmo novelas.

No cinema, a gente até se acostumou a ver, antes de iniciar o filme, a projeção de um certificado de liberação pela censura. Se não tivesse, não podia passar. Alguns filmes tinham cenas cortadas e outros eram totalmente proibidos, principalmente quando se tratava de temas políticos que não agradavam os ditadores, ainda que tratassem de acontecimentos em outros países e produzidos longe daqui.

As telenovelas também eram censuradas. Roque Santeiro, de Dias Gomes, por exemplo, foi proibida e só liberada anos depois. Com as músicas, a mesma coisa aconteceu durante um período. Compositores tinham que ter muita criatividade para transmitir suas mensagens quando havia qualquer crítica. Chico Buarque era craque nisso, e os censores só percebiam que tinham sido enganados quando todo mundo cantava suas músicas. Chegou a um ponto que qualquer coisa que compusesse era proibido, e usou o pseudônimo Julinho de Adelaide para mais uma vez enganar a censura. Mas não eram só temas políticos, os proibidos. Odair José teve proibida uma música chamada Pare de tomar a pílula, referindo-se, claro, a pílulas anticoncepcionais.

Cada show tinha que ser liberado pela censura. O artista ou grupo tinha que apresentar uma relação das músicas que seriam cantadas e esperar a liberação. E censores compareciam aos shows para ver se não seria apresentada alguma música não incluída no roteiro original, ou se não seria alterada alguma letra. Lembro-me de um show de Chico Buarque e Gilberto Gil no Anhembi. A música Cálice, de Chico e Milton Nascimento tinha sido proibida. Durante o show, Chico e Gil entoaram a música sem cantar a letra, só falando “cálice” em determinados momentos, mas obviamente com o sentido de “cale-se”. Os censores cortaram o som.

Livros não eram censurados previamente, mas depois de lançados podiam ser apreendidos, dando prejuízo às editoras, sem contar que o autor podia até ser preso, como foi o caso de Renato Tapajós, autor do livro apreendido chamado Em câmera lenta, um romance.

A censura à imprensa foi outra tragédia. Não só jornais de esquerda. O Pasquim e o Movimento eram semanários, e em certa fase tinha que mandar todas as matérias para Brasília, e a maioria era proibida. Tinham que produzir matérias para dois ou três jornais para que liberassem o suficiente para publicar um, que assim mesmo às vezes saía bem magrinho, com poucas páginas.

O Estado de S.Paulo, que foi um apoiador do golpe (como quase toda a grande imprensa), depois passou a criticar o regime e foi censurado. O censor ficava direto na redação. E outro jornal do grupo, o Jornal da Tarde, também era censurado da mesma forma. O Estado passou a publicar poemas de Camões no lugar de algumas matérias censuradas, e o Jornal da Tarde publicava receitas.

A Folha de S. Paulo, durante um período, tinha o grande jornalista Cláudio Abramo como editor. O governo exigiu a sua demissão, e no seu lugar entrou Boris Casoy. Houve uma época em que nem editorial o jornal publicava mais. E outro diário do grupo, a Folha da Tarde, passou a ser editada por policiais, enquanto seus jornalistas da fase anterior, inclusive o Frei Betto, foram para a cadeia.

No teatro, fora a censura, teve agressões violentíssimas contra atores. A peça Roda Viva, de Chico Buarque, era apresentada em São Paulo em 1968, e um dia um bando violentíssimo invadiu os camarins e deu uma surra inclusive na atriz Marília Pêra, que foi deixada nua.

Uma imprensa militante

Com a censura aos grandes jornais, e a adesão voluntária de alguns deles ao regime, muitos jornalistas e intelectuais começaram a sonhar com uma outra imprensa. Quer dizer, sonhar, não. Partiram para a ação, criando jornais chamados “alternativos”. Como a maioria deles era em tamanho menor, tabloide, seus opositores a chamavam de imprensa nanica, mas o apelido pejorativo foi assimilado e tornou-se até referência positiva.

Eram jornais de todo tipo. Lembro-me de um dos primeiros deles, a Folha da Semana, publicado no Rio, acredito que em 1966. Não durou muito. Millôr Fernandes lançou o Pif-Paf, que também não durou muito, foi sufocado pela ditadura.

Capa de O Pasquim, um dos mais importantes veículos alternativos da época da ditadura

Capa de O Pasquim, um dos mais importantes veículos alternativos da época da ditadura

O ano de 1969 tornou-se glorioso nesse sentido: foi quando começou a circular O Pasquim (depois, simplesmente, Pasquim), jornal de humor carioca que inicialmente parecia ter a pretensão de circular apenas em Ipanema e adjacências. Mas pegou e se tornou um semanário de circulação nacional, que influenciou toda a imprensa com sua linguagem irreverente, uma grande novidade para a época. Em vez de “apenas” atacar a ditadura, gozava, ironizava. Cheguei à conclusão, então, que mais do que o humor, só a luta armada irritava mais os militares.

Dois anos depois surgiu Opinião, jornal bancado pelo empresário Fernando Gasparian, com uma linha um tanto nacionalista, mas crítica. Era publicado no Rio. Depois, já em 1974, veio o Movimento, em São Paulo, uma dissidência do Opinião, mais à esquerda. O Movimento sofreu muito com a censura.

O Versus, que ajudei a fundar, foi lançado poucos dias depois do assassinato de Vladimir Herzog, em 1975. Foi o jornal mais bonito dessa fase toda. Ele se apresentava mais como um jornal de aventura e cultura, depois passou a dar espaço ao Movimento Negro. O idealizador foi Marcos Faerman, gaúcho que trabalhava no Jornal da Tarde, com um estilo inovador, de reportagens escritas sem nenhuma isenção, colocando o jornalista no meio dos acontecimentos. Com intelectuais como Boris Schnaiderman e Modesto Carone e jornalistas como Moacyr Amâncio e Moacir de Oliveira, uma diagramação linda, de Joca Pereira e Toninho Mendes, ilustrações de Luis Gê, Jayme Leão, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Alcy, Angeli, Grilo, Laerte, Jota e muitos outros, era tão bonito que incomodava certa parte da esquerda, acostumada com textos escritos em espaço 1, de ponta a ponta, ilegíveis para gente “normal”. Uns diziam: “Pra que tanto espaço em branco nesse jornal? Daria para pôr um monte de textos revolucionários aí…”. Respondíamos: “Daria sim, mas ninguém leria”. O jornal atraía a leitura, e maravilhava muita gente. A pretensão era que circulasse em toda a América Latina, e tínhamos como colaboradores gente como Gabriel García Márquez, Ariel Dorfman, Galeano, Cortazar e Benedetti.

O primeiro número do Versus foi impresso com dinheiro do Marcos Faerman e meu. Mais (muito mais) dele do que meu. Com a grana arrecadada com sua venda, imprimimos o número dois, e assim por diante. Era para sair a cada dois meses, mas pegou bem e pouco depois passou a ser mensal.

Éramos tão apaixonados pelo jornal que queríamos vê-lo pronto logo que saía da gráfica. E isso acontecia sempre de madrugada, horário em que as máquinas ficariam ociosas e a impressão era mais barata. Três horas da manhã, ficava aquele bando de jornalistas esperando o primeiro jornal vir pela esteira da gráfica, na Baixada do Glicério, região decadente do centro paulistano. Pegávamos o jornal, cheirávamos…

A distribuição era um problema que resolvíamos arrumando pessoas ou grupos de apoiadores em certos locais, dando a eles a porcentagem que caberia ao distribuidor. Eu viajava muito e contatei gente para distribuir em Manaus, Belém, Salvador, Rio Branco e várias cidades de São Paulo e Minas.

Capa do jornal Em Tempo de junho de 1978, quando denunciou torturadores do regime listados por presos políticos

Capa do jornal Em Tempo de junho de 1978, quando denunciou torturadores do regime listados por presos políticos

E os nanicos pipocaram por todo lado

Houve uma frase em que foram surgindo jornais alternativos em tudo quanto era lugar. No caso de jornais mais literalmente “políticos”, qualquer divergência podia servir para uma divisão e surgir um novo jornal.

Do Movimento, saiu um grupo que se juntou a outros jornalistas fundou o Em Tempo (do qual participei também). Mas antes de sair o primeiro número do Em Tempo, um grupo saiu dele e fundou o Amanhã, de vida curta. O Em Tempo teve uma militância muito grande na esquerda, foi, acredito, o que mais deu espaço aos presos políticos, e publicou três listas de torturadores. Numa das vezes que fez isso, teve depredadas as sucursais de Curitiba e Belo Horizonte.

E surgiram os jornais feministas. Primeiro o Brasil Mulher, mais político, ligado à questão da anistia. Depois veio o Nós Mulheres, mais “sexista”, feminista. E mais tarde o Mulherio.

No Rio Grande do Sul, um alternativo importante foi o Coojornal, de uma cooperativa de jornalistas. Em Minas, teve o De Fato, mas o que eu mais gostava era de um jornal que circulava nos bairros operários de Belo Horizonte e Contagem. Era quinzenal e chamava-se Jornal dos Bairros, fundado por jornalistas e militantes de esquerda que queriam fazer trabalhos políticos nesses bairros. Quando se deu a “redemocratização”, várias pessoas de sua equipe se tornaram políticos importantes em Minas. Entre eles, Nilmário Miranda, Tilden Santiago, Sandra Starling e Patrus Ananias.

Na Bahia, o Boca do Inferno; no Piauí, o Chapadão; em Manaus, o Jornal da Amazônia; em Rio Branco, o Varadouro; em Goiânia, o José; em Belém, o Resistência; em Vitória, o Posição. Mas havia em quase todos os lugares.

Um jornal que eu gostava foi lançado em São Gotardo, pequena cidade de Minas Gerais. Era pequenininho, do tamanho de um almanaque do Biotônico Fontoura, e tinha um nome curioso. Quando se deu o golpe de 1964, um grande fazendeiro de São Gotardo ficou contra a ditadura, e o presidente Castello Branco resolveu fazer uma “reforma agrária” apenas nas terras dele. Mas a tal reforma agrária consistiu em tomar suas terras e dar à Cooperativa de Cotia, de São Paulo. Em vez de beneficiar os trabalhadores, eles foram prejudicados, mandados pra rua, transformados em boias-frias, sem ter nem lugar para morar. Então, o nome Cotia ficou sendo maldito ali. E o jornal, que era radicalmente contra ela, chamava-se Paca, tatu, cotia não.

Havia jornal de tudo quanto era linha. O Repórter, era só de grandes reportagens. Chana-com-chana era de lésbicas. Lampião da Esquina era de homossexuais (não havia a palavra gay na época). O Inimigo do Rei era anarquista.

E a imprensa alternativa chega ao fim

Quando a ditadura começou a balançar, no início dos anos 1980, os grandes jornais passaram a publicar matérias semelhantes às dos nanicos, e contrataram muitos jornalistas “alternativos”. Então, além de não termos muitos assuntos diferentes dos grandes jornais, muitos jornalistas preferiram empregos na grande imprensa a ficar malhando nos alternativos, de graça ou quase de graça.

E em alguns jornais, com a abertura política, começaram as brigas internas. No Em Tempo, que tinha grupos de várias tendências políticas, o MR-8 sonhava se impor e acabou sendo forçado a sair. O jornal foi se fechando, até se tornar órgão interno das tendências Centelha, de Minas Gerais, e Peleia, do Rio Grande do Sul, que depois se juntaram numa tendência do PT.

O Versus se tornou porta-voz da Convergência Socialista e ficou muito chato.

O Pasquim, que chegou a vender 220 mil exemplares (aí prenderam a maior parte dos seus jornalistas), vinha perdendo força, mas resistia. Em 1982, restavam dois sócios: Jaguar, que apoiava o PDT de Brizola nas eleições para governador do Rio, e Ziraldo, que ficou no PMDB. As divergências eram grandes, apostaram o jornal: se o PDT ganhasse, ele ficaria com Jaguar, se perdesse, ficaria com Ziraldo. Jaguar ficou com ele, mas o jornal perdeu força.

Porém, o golpe mortal contra a imprensa alternativa, que cambaleava, aconteceu em São Paulo, quando um grupo de extrema-direita começou a incendiar bancas que vendiam jornais alternativos. Muitos donos de banca passaram a recusar esses jornais. Foi o fim.

Não confundir com "O Capital"

Não confundir com “O Capital”

Que capital é esse?

 Logo depois do golpe de 1964, muitos livros considerados “subversivos” foram apreendidos. Uma edição inteira do romance A Capital, de Eça de Queiroz, foi tirada de circulação, confundida com O Capital, de Karl Marx.

 Algumas histórias sobre a censura

 Se for relacionar obras censuradas, dá um livro enorme, grosso. Vou citar aqui só alguns exemplos da atuação da censura em um ano apenas. Escolhi por acaso o ano de 1970. Colhi no Almanaque “Brasil dia-a-dia” da Editora Abril, de 1990.

  • Em janeiro, uma edição da revista Realidade foi apreendida no Rio, por conter uma matéria em que crianças falavam do mundo dos adultos, considerada por um juiz como ofensiva à moral e aos bons costumes.
  • O ministro da Justiça tirou de circulação periodicamente a revista Ele-Ela, por considerá-la ofensiva à moral pública. O ministro da Justiça proibiu, só neste ano, 20 livros, que segundo ele “configuravam propaganda subversiva”.
  • Ainda neste ano, foi proibida a peça Brasil e cia., estrelada por Paulo Autran. O disco Che, de Caetano, foi interditado porque, segundo o censor, continha “mensagens subversivas de incitamento à guerrilha”.
  • Em 12 de janeiro, a Câmara dos Deputados, obediente, estabelece a censura prévia de livros e periódicos.
  • Em 7 de janeiro, Aloísio Mulethaler, ex-chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), anuncia que no ano anterior foram censuradas 50 peças de teatro e 10 filmes.
  • Até um livro do coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação, teve problemas com a censura. A primeira edição de Terra Encharcada era de 1959, mas onze anos depois, em 1970, a censura mandou que ele cortasse do livro um trecho em que falava da convivência de dois homossexuais na Amazônia.
  • Em 15 de dezembro, tiraram uma edição de O Pasquim de circulação. Houve várias outras vezes que apreenderam edições inteiras. Numa dessas vezes, prenderam quase todos os jornalistas desse jornal, que ficaram dois meses em cana (passaram inclusive o Natal presos).
  • Ah, agora uma coisa que mostra como as coisas funcionavam em certas áreas da cultura: em 23 de abril, o general Lyra Tavares foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Alguém conhece alguma obra dele?

 Bobagem pode

 Uma peça de Márcio Souza, chamada Zona Franca meu amor, foi proibida pela censura, por ter críticas à Zona Franca de Manaus, em 1977 ou 78. Ele mudou o nome da peça para Tem piranha no pirarucu, simulando ser uma peça de teatro de revista, e ela passou. O censor nem deve ter lido.

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