Manuela D’Ávila: “Não podemos silenciar frente a este aumento da cultura de ódio”

Manuela D’Ávila: “Não podemos silenciar frente a este aumento da cultura de ódio”

Após ser vítima de um assalto, deputada foi atacada na redes sociais em mais um episódio que mostra a trivialidade das campanhas difamatórias na internet, principalmente em torno de sujeitos políticos que atuam com direitos humanos

Por Marcelo Hailer

No último domingo (9) a deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB) e o músico Duda Leindecker foram vítimas de um assalto, no qual um carro e celulares foram roubados. Assim que o caso foi publicizado pela imprensa, uma profusão de comentários ofensivos à parlamentar foram postados nas redes sociais. Entre os mais absurdos constava que, por ser comunista “ela merecia ser assaltada, pois estava praticando distribuição de renda”, outros mais raivosos chegaram até defender abuso sexual como forma de lição.

Inconformada com o que leu, D’Ávila utilizou a sua página no Facebook para fazer um desabafo. No texto intitulado “Uma reflexão…”, a deputada declarou que ficou surpresa com o fato de o boletim de ocorrência ter vazado e disse que os comentários que tripudiavam sobre o fato que viveu eram “um gesto típico dos que não respeitam quem pensa diferente”.

Campanhas difamatórias na rede, infelizmente, hoje são regra, principalmente em torno dos sujeitos políticos que atuam com direitos humanos, como é o caso da deputada. Na conversa que você confere a seguir, Manuela comenta que jamais “silenciaria” frente a tais ataques, pois, segundo a deputada, se assim o fizesse seria cúmplice dos ataques de ódio.

A parlamentar também comenta a respeito do aumento dos grupos de extrema direita. Em sua concepção, eles sempre existiram, mas neste momento “se sentiram encorajados” a sair do armário. Manuela analisa a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e diz que os grupos que tentam reorganizar um evento que aconteceu há 50 anos é por que não possuem “capacidade de fazer leitura histórica”. Ainda sobre os grupos de ódio, D’Ávila acredita que não é possível “silenciar”, sendo necessário lutar pela construção de uma cultura da paz.

Fórum – Como você tem observado essa profusão de páginas e de grupos de extrema direita que tem surgido no Brasil?

Manuela D’Ávila – Acredito que, na verdade, estes grupos têm mostrado mais a cara do que surgido propriamente. Eles expressam a coisa mais atrasada do nosso país e se sentiram encorajados nos últimos tempos por uma série de fatores como a proximidade do período eleitoral, por que viram que em alguns casos outros tipos de manifestação tiveram espaço, então também quiseram disputar esse espaço… É um conjunto de questões que emulou esses grupos com suas opiniões atrasadas que sempre existiram e estiveram trancadas dentro do armário.

Fórum – Neste sábado (22) vamos ter em várias cidades do Brasil a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Isso é preocupante ou uma caricatura?

D’Ávila – As duas coisas. É caricato, por que reeditar um movimento cinquenta anos depois é não ter qualquer dimensão histórica. Agora, é sempre preocupante e por isso não acho certo tratar apenas como caricato um movimento como este… É sempre preocupante ver pessoas com ideia tão atrasadas se organizarem, por que certamente esses argumento de que ‘há ofensiva comunista’, de que há pessoas (como aconteceu comigo) que merecem ser assaltadas por serem comunistas, esse tipo de opinião estimula a ação de grupos violentos. Na minha avaliação, achar que é caricato esse tipo de comportamento é achar caricata a piada com o homossexual como se ela não estimulasse a violência, achar caricato a piada com o negro… Pra mim nunca é caricato aquilo que brinca com coisa séria. A Marcha da Família de 1964 resultou num dos períodos mais trágicos da história do nosso país que foi o golpe militar, um momento muito trágico para a nossa democracia e para aqueles que lutam por Direitos Humanos em nosso país.

Fórum – Nos últimos dois anos tivemos o deputado Jean Wyllys, a pesquisadora Tatiana Lionço e outros ativistas vítimas de campanhas difamatórias, ameaças de morte e posteriormente foi descoberto que os parlamentares Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) também participavam dessas campanhas. Porém, nada aconteceu com os parlamentares. Isso lhe causa indignação?

D’Ávila – Isso demonstra como nós não levamos a sério a construção desse comportamento que estimula a prática de violência em nosso país e tem que se fazer uma reflexão: até onde vamos permitir essa construção de uma cultura do ódio? Até quando vamos permitir jornalista estimulando ódio na televisão? Personalidades com um grau de influência, como um parlamentar, estimulando ódio nas redes sociais e não só a partir de redes mas a partir do seu próprio nome, as pessoas criam redes e falam na primeira pessoa. Mais do que a indignação e a raiva, a gente tem que refletir até onde permitiremos não punir, seja um parlamentar, uma emissora de televisão, seja qualquer um que estimule a prática da violência em nosso país. Chegamos a duras penas no regime democrático, temos o dever de sermos vigilantes com as práticas democráticas na construção de uma cultura de paz.

Grupos de extrema direita utilizam a rede para difamar defensores dos Direitos Humanos (Imagem: outrapalavras.net)

Grupos de extrema direita utilizam a rede para difamar defensores dos Direitos Humanos (Imagem: outrapalavras.net)

Fórum – Nos últimos anos os setores da extrema direita pegaram as bandeira do machismo e da homofobia como pauta, obtendo votos. Como entender que essas bandeiras tão reacionárias sejam eficazes do ponto de vista eleitoral?

D’Ávila – Eu estava pensando sobre isso hoje (20), presidi a Comissão de Direitos Humanos (CDHM) em 2011 e pensava como de lá pra cá esses grupos se organizaram. Na realidade, eles expressam um volume que dentro da proporcionalidade do total de brasileiros não é tão grande, o problema é que eles têm muitas vozes, por diversos motivo, acabam tendo um microfone grande demais ligado. A partir de coisas do senso comum, chegam nas pessoas e dizem: ‘é preciso aprovar a pena de morte por que as cidades estão tomadas por bandidos’. Trabalham com sensações reais para chegar nas pessoas, ou muitas vezes com mentiras deslavadas, como, por exemplo: ‘a bancada que defende a criminalização da homofobia quer na realidade que a pedofilia não seja crime’. Nunca a explicação é uma só, temos diversas explicações, desde as mentiras criadas como a que diz que os religiosos serão obrigados a casar pessoas do mesmo sexo; na eleição de 2010, fui muito abordada por pessoas nas ruas que me perguntavam se isso se era verdade, se eu defendia que os padres fossem obrigados a fazer o casamento gay. Eles aproveitam a falta de informação de um lado e, do outro lado, tratam com radicalismo angústias reais da nossa população, como o tema da violência das nossas cidades.

Fórum – Há o retorno do discurso do “perigo comunista”, esse argumento muito utilizado ultimamente, e você mesma foi vítima na semana passada de ataques na rede nesse sentido. Qual foi a reflexão que tirou por conta desse tipo de ataque?

D’Ávila – Temos que ir pra ofensiva. Jamais seria vítima de algo como isso se não houvesse realização política. Gosto muito de uma frase que as feministas usam: ‘o silêncio é cúmplice da violência’. Não posso silenciar perante essas frases que são criminosas. De um lado, temos os que organizam isso [ataques na rede] de maneira consciente; do outro lado, tem os que entram na canoa não percebendo o quão violentos são esses tipos de comentários. Tenho que enfrentar os que fazem isso de maneira deliberada e como parlamentar a minha obrigação é tentar conscientizar pessoas que fazem isso apenas na canoinha. ‘Ah, eu vou entrar por que é legal falar mal de político’, ‘vou entrar por que a política não está com nada mesmo’. Temos estes dois papeis, o que não dá é pra silenciar, pois, quando a gente silencia, está dizendo ‘ok, está tudo certo’. Não está tudo certo. A violência não está certa e nós não podemos calar perante ela, não podemos silenciar frente a este aumento desta cultura de ódio.

Para a extrema direita, Brasil vivo sob nova ameça comunista (Imagem: sapo.net)

Para a extrema direita, Brasil vive sob nova ameça comunista (Imagem: sapo.net)

Fórum – Manuela, você está em seu terceiro mandato, de lá pra cá você considera que o ambiente político-parlamentar ainda é essencialmente masculino e heteronormativo?

D’Ávila – O ambiente parlamentar sim, temos apenas 9% de mulheres. A política legislativa é o lugar que mais absorve o sistema eleitoral que a gente tem. No poder Executivo, num certo sentido, os partidos concentram em torno de uma candidatura, é diferente; no Legislativo, os candidatos correm atrás de mais financiamento pra campanha, tempo de televisão, então têm todas as deformidades do sistema eleitoral. Um dos nossos maiores problemas é o sistema eleitoral do nosso país: o financiamento de campanhas é destinado sobretudo aos homens, o tempo de TV é destinado sobretudo aos homens, não tem como você enfrentar, quando tem um parlamento onde mais de 70% dos que estão aqui são das campanhas mais caras, não tem como enfrentar isso sem enfrentar o problema real, é tapar o sol com a peneira. Ajustes podem ser feitos para que se aumente a participação de mulheres na política, mas, para chegarmos na equidade de gênero, termos a condição de representatividade que temos na sociedade, só será possível com a reforma política, não tenho a menor dúvida quanto a isso.

Fórum – O atual cenário político nos mostra que os ânimos entre os setores fundamentalistas e progressistas estão mais acirrados. Acredita que a campanha deste será, como a de 2010, pautada pelas questões morais?

D’Ávila – Não tenho noção de como vai ser a campanha para presidência da república, mas que os ânimos estão mais acirrados, isso é uma verdade, e não sei como isso vai se caracterizar na eleição para presidente. Isso depende das pautas que os candidatos topem comprar e espero que os adversários da presidenta, jovens como são, o Aécio e o Eduardo, não comprem pautas tão velhas como as morais.

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