Editorial: Eu não mereço ter meus direitos violados

Editorial: Eu não mereço ter meus direitos violados

A Declaração Universal dos Direitos Humanos completou em dezembro 66 anos. Nessa semana, o golpe militar que jogou por terra a assinatura do Brasil no tratado fez 50 anos. A redemocratização do país, em 1985, se pôs fim aos governos militares e restabeleceu vários direitos então extintos pela ditadura, não impediu, contudo, violações contínuas dos artigos desse documento da ONU, que permeou a Constituição brasileira de 1988.

Nesta edição da Fórum, reportagem mostra a situação dos familiares de presidiários, submetidos à chamada “revista vexatória” quando vão visitar o parente nas penitenciárias em São Paulo. Submetidos a constrangimentos e humilhações, mulheres e homens de qualquer idade têm de se despir e, nas palavras de uma das pessoas ouvidas, passar por um “verdadeiro estupro”.

Medida flagrantemente inconstitucional, segundo defensores públicos ouvidos pela reportagem, e que não visa a evitar a entrada de celulares ou drogas nos estabelecimentos. “O Estado faz de tudo pra você abandonar seu parente”, diz uma das entrevistadas. A intenção, acredita o defensor público Patrick Cacicedo, é “que as pessoas parem de adentrar num local onde tantas ilegalidades são praticadas”.

A edição traz também outra reportagem que trata de desrespeito aos direitos humanos. Na semana passada, levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou uma mentalidade retrógrada e machista na sociedade brasileira. Mais da metade dos consultados pelo instituto responsabiliza a mulher, por suas atitudes e modo de vestir, por ser estuprada.

O fato provocou indignação, e um protesto virtual – o #NãoMereçoSerEstuprada -, organizado, entre outras, pela jornalista Nana Queiroz, de Brasília, trouxe reações agressivas e até ameaças, revelando que há algo de torto – no mínimo – na cabeça de parcela de nossa sociedade. A reportagem ouviu sociólogas, filósofas e ativistas para tentar entender o porquê dessa mentalidade conservadora, machista e homofóbica. A ativista Tica Moreno, por exemplo, resume: “A sociedade forma sujeitos machistas e a mídia ajuda nisso”.

Por falar em mídia, a revista entrevistou a historiadora Beatriz Kushnir, que pesquisou, para seu doutorado, o comportamento da imprensa nos anos de chumbo. Ela conta que, além de não levantarem a voz contundentemente contra o regime – que, com raras exceções, apoiaram -, jornais chegaram a colaborar com os ditadores.

E as coisas, ela avalia agora, 13 anos depois de defender sua tese, não mudaram muito: “Os grandes jornais continuam fazendo a mesma coisa que faziam durante a ditadura: contar uma verdade a seu favor que não estava em sincronia com o que aconteceu naquele momento”.

(Crédito da foto da capa: Wikimedia Commons)

Compartilhe
1726 2 141

Deixe uma resposta