A escravidão do pensamento binário

A escravidão do pensamento binário

O pensamento binário reduz realidades a duas possíveis equações, negando a complexidade e sequestrando a riqueza de opções e alternativas. Condenar a gestão política de um grupo como a Irmandade Muçulmana não tem que ser o mesmo que consentir com sua perseguição

Original por Olga Rodríguez em ElDiario, tradução por Ítalo Piva

Há duas semanas, tive vários encontros na Turquia com egípcios exilados, integrantes da Irmandade Muçulmana. Entre eles, Yehia Hamad, que foi ministro de investimentos no governo de Mohamed Morsi até o golpe de Estado do verão passado, e que agora está na Espanha para relatar a situação de seu país ao Senado e a ONGs.

Precisamente ontem [22/04] publiquei essa entrevista, feita em Istambul, sobre a atual situação da Irmandade e a repressão que seus seguidores sofrem no Egito. Centenas foram mortos em ataques contra manifestantes, milhares foram presos e 529 foram condenados à morte em um julgamento que durou apenas dois dias e foi questionado por diversas organizações de direitos humanos.

No dia 28 de abril, um tribunal egípcio anunciará o veredicto final sobre estas condenações à morte. Se não forem anuladas, serão as maiores da história contemporânea do Egito.

"No caso que nos preocupa, o do Egito, esse reducionismo diz que 'se está condenando as violações de direitos humanos está apoiando aos Irmãos Muçulmanos, e se não está do lado da Irmandade, não pode nem falar de repressão no Egito'”. (Mídia NINJA)

“No caso que nos preocupa, o do Egito, esse reducionismo diz que ‘se está condenando as violações de direitos humanos está apoiando aos Irmãos Muçulmanos, e se não está do lado da Irmandade, não pode nem falar de repressão no Egito’”. (Mídia Ninja)

Diversas ONGs internacionais já denunciaram a repressão no Egito e as violações de direitos humanos. Porém, existem certos setores nos países ocidentais que confundem a condenação da repressão no Egito com o apoio à Irmandade Muçulmana. Apesar das diferenças entre uma e outra postura serem mais do que evidentes, o pensamento binário tem peso e reduz as realidades a duas possíveis equações, negando a complexidade e sequestrando a riqueza de opções e alternativas.

Se trata de um verdadeiro assédio à criatividade, à imaginação, a este outro mundo possível e necessário. Se trata de um reducionismo habitual e cotidiano nos modos dominantes de interpretar a realidade.

“Criticar os EUA é estar com Putin em relação à Ucrânia.” “Criticar o neoliberalismo é ser um radical antissistema.” “Dizer que os ataques de drones americanos violam os direitos humanos é preferir que os terroristas do Iêmen escapem” (de fato, nessa semana, uma operação de drones matou 55 pessoas no Iêmen, no mínimo quatro eram civis. São as novas execuções sumárias do século XXI).

Adaptado à nossa realidade [espanhola], o planejamento binário estabelece que “se critica o PP [Partido Popular] é porque você é do PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol]”. “E se criticar o PSOE está fazendo um grande favor ao PP”. Existe nisso a intenção de cercar a realidade, a condenação de quem analisa a realidade com todas suas variantes, uma vontade de controle das mensagens e das mentes, uma imposição da polarização – “ou está comigo ou está contra mim” –, uma estratégia de asfixia da criatividade no plano político, e de profundidade no plano jornalístico.

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No caso que nos preocupa, o do Egito, esse reducionismo diz que “se está condenando as violações de direitos humanos está apoiando aos Irmãos Muçulmanos, e se não está do lado da Irmandade, não pode nem falar de repressão no Egito”. A questão é apresentada de forma restrita e exclusiva, como uma discussão na qual só se pode escolher entre o amor incondicional ou o ódio total.

Pouco importa que homens e mulheres tenham morrido nos protestos contra o golpe de Estado no Egito. Não parece relevante que jornalistas e ativistas críticos do governo estejam presos, que meios de comunicação tenham sido banidos, e que prisões e invasões a domicílios por parte da polícia sejam coisas habituais.

Tampouco foi divulgada informações sobre como Tamarod, o grupo que organizou os protestos contra Mohamed Morsi, manteve contato com o Exército egípcio antes do golpe. Apenas há uma semana, um dos fundadores da Tamarod deu mais detalhes acerca do assunto, relatando como sua organização seguia ordens dos militares: “Fomos muito inocentes, não fomos responsáveis”.

“E as políticas da Irmandade contra as mulheres?”, perguntam alguns, querendo assim justificar o golpe de Estado contra o governo Morsi, a repressão, as centenas de mortos, as prisões.

As razões para criticar a Irmandade Muçulmana são numerosas. Fizeram um acordo em 2011 com o Supremo Conselho das Forças Armadas, elemento chave do regime, impuseram uma Constituição sem consenso, pediram o fim dos protestos e limitaram direitos e liberdades. Além disso, não é segredo para ninguém que a Irmandade manteve – ainda e mantém – uma atitude discriminatória contra as mulheres.

"Condenar as políticas de um grupo como a Irmandade Muçulmana não tem que significar consentir com sua perseguição." (Mídia NINJA)

“Condenar as políticas de um grupo como a Irmandade Muçulmana não tem que significar consentir com sua perseguição.” (foto: Mídia Ninja)

Mas isso – que alguns de nós já denunciamos quando Morsi era capa da revista Time e recebia aplausos de metade do mundo, inclusive de nossos governos -, não pode servir para apoiar um golpe de Estado por uma instituição, o Exército egípcio, caracterizado por sua misoginia e abusos de gênero, e que também comete violações de direitos humanos, assassinatos ou sequestros. Lamentavelmente, a propaganda teve efeito, e são muitas as pessoas que pensam, equivocadamente, que no Egito só os islamistas são os machistas.

Condenar as políticas de um grupo como a Irmandade Muçulmana não tem que significar consentir com sua perseguição. Com isso, só se gera mais polarização, sofrimento, mais mártires, e mais figuras simbólicas que encobrirão as intenções dos militares egípcios em relação a quem tirar do cenário político.

(Crédito da foto de Capa: Wikimedia Commons)

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