Editorial: O volume morto de um governo inepto

Editorial: O volume morto de um governo inepto

Na última quinta-feira (15), em Joanópolis, interior do Estado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), com o sorriso de vitória nos lábios que lhe é peculiar mesmo em momentos sombrios, acionou as bombas que deram início à captação de água do fundo da represa Jacareí, uma das seis do Sistema Cantareira.

É, para o governador, o alívio após meses de apreensão de quase 14 milhões de paulistas que a cada dia não tinham segurança de que teriam água para beber, tomar banho, lavar as roupas e as louças, assistindo a cada manhã o nível desse manancial que abastece quase metade da Região Metropolitana cair sem parar.

“O governo não está esperando São Pedro. Nós estamos trabalhando 24 horas com todo empenho, engenharia técnica, para garantir o abastecimento da população”, disse Alckmin depois de apertar o botão que fez a bomba puxar a água do chamado “volume morto” do reservatório. Nesta edição da Fórum Semanal, mostramos que a história não é bem assim.

Desde que a crise do Cantareira começou a despertar a atenção dos jornais e dos especialistas em recursos hídricos, o governador e a presidenta da Sabesp – empresa responsável pelo abastecimento de mais da metade das cidades paulistas -, Dilma Pena, vêm tentando tirar de suas costas a responsabilidade pelo problema, atribuindo à falta de chuvas o esgotamento do recurso nesse manancial.

Com efeito, tem chovido menos do que o habitual na região onde estão os rios que alimentam o sistema, mas, conforme mostramos nesta edição, há 10 anos o governo havia sido alertado que a Região Metropolitana e cidades de grande porte do interior não podiam ficar tão dependentes dessa fonte. O crescimento das cidades e da população dava o sinal de que um dia a fonte iria secar. E foi o que aconteceu.

A solução do governo do Estado, ao lado de tentar penalizar a população multando o aumento de consumo e campanhas de estímulo ao uso racional da água – que deveriam ser constantes, e não apenas em momentos de crise, como já alertava em 2004 o departamento que fiscaliza a Sabesp, o Daee -, é buscar uma água que, segundo especialistas, pode ser de qualidade sofrível, com sedimentos e metais pesados prejudiciais à saúde.

A falta dos investimentos necessários para evitar a calamidade é apenas um dos aspectos de um governo que, ao lado de várias outras deficiências em áreas fundamentais, como a saúde, educação, segurança, transportes e direitos humanos, tem demonstrado inépcia, para dizer o mínimo. E, para uma administração inepta, nada mais significativo do que a imagem de um “volume morto”.

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