A luta contra o ebola no oeste da África

A luta contra o ebola no oeste da África

Em entrevista, o coordenador de emergências ao surto de ebola em Guiné pelos Médicos Sem Fronteiras falou sobre o trabalho de conter o avanço de um dos vírus mais mortais conhecidos no mundo

Por Vinicius Gomes

Ebola. Até o som dessa palavra já parece trazer calafrios quando anunciada, e não é para menos.

Considerado um dos vírus mais mortíferos que o mundo já viu, ele foi primeiramente descoberto na República Democrática do Congo (antigo Zaire), em 1976. A contaminação por ebola leva a uma febre hemorrágica, causando enorme dor muscular, fraqueza, vômitos, diarreias e, nos casos que levam à morte, uma falha geral do funcionamento dos órgãos, além de se severa hemorragia interna. É um dos fins mais terríveis de se ter e seu poder de contaminação é tão grande que os corpos devem ser incinerados após a morte do paciente.

O vírus se multiplica dentro do organismo tão rapidamente que o sistema imunológico dos contaminados não chega a ser páreo para combater a infecção. Até hoje não existem tratamentos ou vacinas para ebola, seu índice de mortalidade vai de 25% a 90%, dependendo da cepa do vírus.

Além de Guiné, os países mais afetados pelo surto do vírus mortal foram Libéria, Serra Leoa e Mali (Divulgação)

Além de Guiné, os países mais afetados pelo surto do vírus mortal foram Libéria, Serra Leoa e Mali (Divulgação)

No início de fevereiro desse ano, a pequena Guiné, país localizado na costa oeste da África, testemunhou alguns de seus cidadãos da cidade rural de Guéckédou terem febre, diarreia e sangramentos – tudo indicava serem sintomas de ebola. E era.

O surto epidêmico do vírus foi terrivelmente veloz, ultrapassando as fronteiras da cidade, da província e, por fim, do país – poucas semanas depois os vizinhos Mali, Libéria e Serra Leoa passaram a relatar mortes por febre hemorrágica causada pelo ebola. O total de mortes foi de centenas.

No início de maio, o presidente de Guiné, Alpha Conde, disse que a situação aparentava estar sob controle – desde o final de abril, não havia novos relatos de contaminação, no entanto, existem ainda muitas das pessoas sofrendo nos hospitais por conta do vírus, o que significa que o número de mortes provavelmente irá aumentar.

“Não temos tido qualquer novo caso, mas entre aqueles que permanecem em quarentena, certamente haverá alguns que irão morrer”, disse ele.

Quarentena. Essa é uma das palavras chaves no combate ao vírus mortal que não tem vacina, nem tratamento. Seu avanço pode ser apenas contido com o isolamento de casos suspeitos em condições de limpeza máxima – o que, qualquer um há de concordar – é um trabalho extremamente perigoso para ser realizado nas matas e florestas tropicais do oeste da África.

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"Esse tipo de epidemia é de fato um assunto internacional de saúde, não apenas de Guiné" - Mariano Lugli

Lugli: “Esse tipo de epidemia é de fato um assunto internacional de saúde, não apenas de Guiné” (foto: MSF)

Conversando com a Revista Fórum Semanal, diretamente de Genebra, na Suíça, o italiano Mariano Lugli – responsável pela coordenação emergencial em resposta ao surto de ebola em Guiné, pela organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) – nos contou um pouco sobre como esse extenuante, árduo e extremamente perigoso trabalho foi – e está – sendo realizado.

Fórum – As notícias que vieram de Guiné, são de que o surto do ebola ali é de uma nova cepa do vírus. Como os MSF estão trabalhando para conter a epidemia? 

Mariano Lugli – Sim, ela é nova. Nós já operamos na luta contra a epidemia do ebola, assim como outras também. Então sabemos, de experiências anteriores, as ações que devem ser tomadas para conter epidemias e não apenas em Guiné. Primeiramente, em relação ao trabalho em campo, os casos de contaminação são hospitalizados e medidas específicas de proteção são tomadas pelo estafe médico– assim como outros estafes – que trabalham dentro da unidade de isolamento. Além disso, é necessário garantir que todos os contatos – todas as pessoas que estiveram em contato com as pessoas contaminadas – sejam “rastreados” para traçar a cadeia de transmissão do vírus.

Existe também a parte da comunicação do estafe médico trabalhando em diferentes hospitais dos centros dos MSF, para assegurarmos que não haja pânico, garantindo que as medidas de proteção estejam sendo tomadas, pois eles são os que estão mais expostos à contaminação; afinal, o vírus é transmitido através de contatos diretos com fluidos – como sangue, fezes e até suor – dos contaminados. Então devem estar todos alertas para a rápida identificação de possíveis casos de contaminação e onde eles estão dentro das comunidades, para também reduzir o risco de eles entrarem em pânico.

Essas são todas as coisas que são importantes de serem implementadas o mais rápido possível e, claro, tudo isso deve ser feito de uma maneira coordenada com todos os atores envolvidos – geralmente, em caso da febre hemorrágica de ebola, o Ministério da Saúde local deve garantir a coordenação da resposta para esses tipos de surtos, e isso deve ser feito da maneira mais rápida possível.

Fórum – Recentemente destacamos como o caso do surto de ebola em Uganda foi bem manejado e hoje está sob controle. Qual a diferença dos dois casos? 

Lugli – A diferença está na repartição geográfica dos casos. Em Uganda [o surto] aconteceu em apenas uma província; em Guiné, a epidemia “viajou” para diferentes províncias, diferentes regiões e cruzou fronteiras de países – então existem particularidades em epidemias e é isso que faz a diferença na contenção delas. Assim sendo, o grande problema é combater epidemias que são específicas.

Fórum – Então quando acontece um surto, o único caminho a seguir é a contenção? E quanto à prevenção?

Lugli – Essa é difícil. A primeira contaminação aconteceu com o morcego-de-frutas, certo? O morcego frutívoro foi o primeiro corpo a ser contaminado e os morcegos podem espalhar a doença para, por exemplo, outros animais selvagens – que por consequência podem passar para as populações que vivem no mato. Elas podem se infectar por esses animais selvagens. Então é bem difícil prevenir, é difícil realizar atividades de prevenção no meio do mato – particularmente em uma região onde a epidemia é diferente, como em Guiné. Então é muito complicado realizar prevenção.

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Fórum – E quanto aos países vizinhos, como Mali e Libéria, estão sendo realizados treinamentos pelos MSF para a contenção do ebola?

Lugli – No momento o que estamos fazendo é trabalhar com o Ministério da Saúde e na Libéria apoiamos todas as autoridades e diferentes departamentos ali, para que tenham treinamento e vigilância epidemiológica – mas isso seria depois da [normalização] da epidemia. No momento, nosso foco principal deve ser responder à epidemia, então, na realidade, muito do estafe está sendo treinado automaticamente, como todo o relacionamento de trabalho que está acontecendo.  Mas o mais importante é trabalhar com as autoridades de saúde locais para responder à situação que eles têm em mãos.

Em todos esses lugares, existem diferentes doenças, certo? Elas podem aparecer do nada e não é responsabilidade dos MSF – não está em nosso mandato – treinar todo o estafe do ministério e todo o sistema de saúde para possíveis surtos que possam ocorrer.

Fórum – E quanto à Organização Mundial da Saúde (OMS), como isso está sendo coordenado com os MSF em Guiné?

Lugli – Eu já estava em Guiné como coordenador internacional de emergências, então eu já estava lá antes mesmo de o surto de ebola ser anunciado, em Guéckédou. O que eu posso dizer é que a resposta sobre a coordenação com o governo em Guiné está sendo feito, mas é difícil, pois eles precisam de algum tempo para colocar as pessoas em campo. Inicialmente nós chegamos sozinhos, tentando trabalhar com as autoridades locais e autoridades centrais e após alguns dias, um pessoal da OMS chegou à Guiné e a sua capacidade era ainda um pouco “nova”. Poucas semanas depois, novas pessoas chegaram e a comunicação passou a melhorar de uma maneira que ainda não havia sido possível.

Mas a coordenação das atividades é muito mais difícil nas áreas rurais do que em Conakry (capital de Guiné) e foi também complicado para a OMS também. Então, no contexto, a OMS precisava de algum tempo para agir em campo e coordenar suas atividades.

Fórum – Em sua opinião, tudo o que é possível ser feito está sendo realizado, ou há espaço para melhora? 

Lugli – Para mim esse é um assunto de saúde pública internacional e estamos fazendo tudo o que deve ser feito, mas eu penso que deveria haver um maior envolvimento de todos os atores internacionais, pois esse tipo de epidemia é de fato um assunto internacional de saúde, não apenas de Guiné e, para mim, isso é muito importante. Na Libéria, o governo também está trabalhando para controlar e conter [o surto] e tem nos consultado, pois não estamos presentes ali regularmente. Em Guiné, para nós, já é muito mais fácil para operacionalizar as atividades e estamos fazendo tudo o que deve ser feito em coordenação com o Ministério da Saúde.

(Crédito da foto de capa: Amandine Colin/MSF)

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