Lutando pela educação de meninas na Nigéria

Lutando pela educação de meninas na Nigéria

Muitas famílias na Nigéria já têm dúvidas sobre a educação feminina. A falha do governo nigeriano em as proteger só torna a situação pior

Original em Foreign Policy in Focus, tradução de Ítalo Piva

O presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, demorou 18 dias para criar um comitê de resgate para encontrar as 276 meninas que foram raptadas do seu colégio no mês passado.

Vamos dizer mais uma vez: demorou a melhor parte de um mês para o governo nigeriano reagir ao sequestro violento de garotas que apenas tentavam ir à escola. Garotas que apesar de pobreza inacreditável, e uma crença cultural generalizada que meninas não devem se educar, acordam todas as manhãs para ir ao que se espera um lugar seguro para o aprendizado.

“Estou frustrada”, disse uma ativista nigeriana e aliada do Fundo Global para Mulheres que pediu para permanecer anônima. Muitas de suas companheiras estão sendo detidas e interrogadas pela polícia por protestarem contra esse crime horrível. “A reação tem sido lenta, muito pouco, muito tarde, ou nada feito. Os cidadãos estão pedindo informação –  informações básicas, verdadeiras, que assegurarão ao público que algo concreto está sendo feito sobre os ataques.”

Enquanto ocorre o Fórum Econômico Mundial este mês na Nigéria, 70% da população do nordeste desse país predominantemente muçulmano vive com menos de um dólar por dia. Para incentivar famílias a enviarem e manterem suas filhas no colégio, organizações de mulheres e ONGs pagam as mensalidades, de acordo com a nossa fonte anônima. As mulheres também se esforçam para fornecer bons exemplos femininos para que as alunas continuem com seus estudos.

“Esse ataque aconteceu num momento muito frágil, quando a confiança nas escolas como um lugar seguro para meninas estava começando a ser construído”, disse a ativista nigeriana. “Famílias que tradicionalmente não acreditam na educação feminina provavelmente verão poucos benefícios em enviar suas filhas à escola por causa do estigma gerado sobre estupro e violência sexual.”

Notícias das garotas raptadas sendo forçadas a casar com membros do Boko Haram não são nenhuma novidade. Nossas fontes afirmam que o grupo terrorista que assumiu responsabilidade pelos sequestros usa casamentos forçados, violência sexual e tráfico de pessoas como armas de intimidação. Num vídeo recente, um homem se proclamando o líder dos militantes islâmicos confirmou que o Boko Haram de fato capturou as garotas e ia as “vender no mercado”.

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“Os terroristas adotaram a prática de deixar pequenas quantias de dinheiro no chão e abduzir meninas de suas casas”, explicou a ativista. “A prática, que é interpretada pelo Boko Haram como uma forma de casamento, numa tentativa de legitimar seus crimes, é condenada por muitos muçulmanos.”

O Boko Haram luta uma insurgência no norte da Nigéria há cinco anos. Sua agenda é complexa e política, com a educação sendo apenas um componente. Recentemente, a violência vem aumentando. Alguns meses atrás, o grupo matou 59 alunos de um colégio, muitos sendo queimados vivos. No mesmo dia que as garotas foram raptadas em Chibok, uma explosão também assumida pelo Boko Haram matou 75 pessoas na capital, Abuja. No começo do mês, pelo menos oito meninas com idades entre 12 e 15 anos também foram sequestradas, e os detalhes ainda estão sendo divulgados sobre o ataque que matou mais de 300, em outra cidade do norte.

“O Islã puro é por sua maioria um protetor das mulheres e demanda respeito por elas”, diz nossa fonte anônima. “O Boko Haram e outros fundamentalistas religiosos com ideologias violentas trazem sua própria doutrina, que é vista como uma adulteração do Islã por seguidores verdadeiros.”

Novamente o mundo inteiro está de olho, enquanto mulheres lutam por seus direitos e o retorno seguro das meninas (foto: Reprodução/Al Jazeera)

Novamente o mundo inteiro está de olho, enquanto mulheres lutam por seus direitos e o retorno seguro das meninas (foto: Reprodução/Al Jazeera)

A Nigéria possui uma rica história de mulheres lutando bravamente por seus direitos –  incluindo o Aba Women’s Protest, onde mulheres se organizaram pacificamente e foram brutalmente reprimidas por líderes coloniais, e mais recentemente no Estado de Plateau, onde mulheres marcharam sem sutiã para chamar a atenção internacional e pedir um fim à violência. Novamente o mundo inteiro está de olho, enquanto mulheres lutam por seus direitos e o retorno seguro das meninas.

Para apoiar a ação global, o Fundo Global para Mulheres, em parceria com o Fundo de Desenvolvimento para Mulheres Africano, está oferecendo verbas emergenciais para grupos femininos no norte da Nigéria, e escrevendo cartas para embaixadores nigerianos e governos do oeste da África pedindo mais ação.

A mídia social se tornou uma potência nessa crise. Protestos liderados por mulheres estão sendo fortalecidos mundialmente com a hashtag #bringbackourgirls. Nossa fonte vê a mídia social como uma ferramenta para pôr pressão em governos corruptos, que ela espera que envergonhará o governo nigeriano, forçando que ele se responsabilize diante seus cidadãos.

“É crucial”, explica ela, “para a comunidade internacional manter seu apoio através de demonstrações, sanções, e pressão diplomática, como um sinal claro de condenação contra a resposta inadequada do governo à violência contra as mulheres”.

(Crédito da foto da capa: http://fpif.org/)

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