A Copa da politização

A Copa da politização

Muito mais que instrumento político de governo, a realização de um mundial no Brasil se tornou mote para a conscientização da própria sociedade. “A Copa não é um problema a ser enfrentado, mas revela quais precisam ser”

 Por Ivan Longo

Em outubro de 2007, depois de travar uma intensa campanha junto à FIFA, o ex-presidente Lula conquistou o que era um antigo sonho de outros governistas e de boa parte da população: a vinda de uma Copa do Mundo ao Brasil. O que Lula provavelmente não esperava, entretanto, é que em 2014, ano de realização do tão sonhado mundial, haveria uma parcela da sociedade rejeitando o evento e se colocando contra os investimentos que foram realizados, justamente no país onde o futebol tem um peso simbólico e cultural tão grande.

A organização do evento, assim como gastos passaram a ser questionados. Flávio de Campos, doutor em história social e coordenador do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da Universidade de São Paulo), explica o questionamento: “A gente está em uma politização tremenda da sociedade brasileira e uma politização que em poucos momentos da história do Brasil foi vista.”

Para o historiador, dentro desse cenários, as bandeiras, diversas, se encontram nas ruas. “não há nenhum setor social, nenhuma demanda que não esteja sendo colocada na pauta. Investimentos públicos, a questão do espaço urbano, das remoções, moradia, mobilidade urbana, todas essas questões cruciais vieram à tona em um contexto relacionado ao futebol”, analisa pesquisador, que vê o país dividido em duas torcidas: “Uma um pouco tímida, constrangida, mas que vai torcer pelo Brasil e uma torcida mais visível, apesar de minoritária, que está torcendo contra. Então, temos um contraste: uma mobilização intensa e uma desmobilização torcedora.”

O presidente da FIFIA, Joseph Blatter, anunciando a vitória do Brasil como sede da copa de 2014. (Foto: Wikimedia Commons)

O presidente da FIFA, Joseph Blatter, anunciando a vitória do Brasil como sede da copa de 2014. (Foto: Wikimedia Commons)

Para o antropólogo Enrico Spaggiari, que também faz parte do Ludens, apesar de reconhecer que as deficiências na organização do evento, o pesquisador acredita que o mundial da Fifa é o que permitiu que as pessoas se dessem conta da carência estrutural do país.

“As pessoas estão tomando consciência disso, de que elas conseguem se manifestar, mostrar repúdio à Copa e ao mesmo tempo separar o que vem acontecendo para a sua realização ao que já  vem acontecendo há vários anos. A população começou a perceber que o Mundial, mais do que o grande problema, é o grande revelador dessa falta de estrutura no Brasil”, explica Spaggiari.

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A consciência e a mobilização em torno do que precisa ser combatido no país a partir da experiência da vinda da Copa do Mundo mostra que o evento, diferentemente do que diz alguns setores da imprensa, não é um instrumento político do Governo, como foi na Copa de 1970. Na ocasião, o regime militar se apropriou do sucesso nos gramados da seleção brasileira com o intuito de prover a integração nacional e passar a ideia de um país grande, poderoso e do qual a população deveria sentir orgulho. O cenário, hoje, no entanto, é completamente diferente e, se funciona como ferramenta política, trata-se de uma ferramenta da própria população para reivindicar suas demandas, e não mais dos governantes.

O pesquisador Flávio de Campos ainda vai além neste sentido. Para o historiador, toda e qualquer tentativa de colocar a Copa como um instrumento político por parte do Governo vem da própria oposição e que, nesse sentido, isso é completamente incabível.

O general-presidente Emílio Garrastazu Médici ergue a taça de campeão da Copa do Mundo de 1970. (Foto: reprodução)

O general-presidente Emílio Garrastazu Médici ergue a taça de campeão da Copa do Mundo de 1970. (Foto: reprodução)

“Em 1970 você tem o sucesso do Brasil nos gramados como um elemento que ajudaria a alimentar ainda mais essa ideia de Brasil grande. Estávamos no contexto do ‘milagre econômico’, da ditadura, do cerceamento de liberdades, violação de direitos humanos… Nesse momento eu acho incrível e também criminoso como alguns setores da imprensa tentam comparar 1970 com 2014″, afirma Campos, que enumera as diferenças. “Primeiro por que não vivemos mais em um regime de exceção, estamos em um período de plena liberdade democrática. Em segundo lugar, quem mais está politizando a Copa do Mundo não é o Governo, são as oposições, sejam elas as burguesas ou as mais à esquerda. Quem está utilizando o evento do ponto de vista da instrumentalização política não é o Governo Federal que, aliás está tímido nesse sentido”, afirmou o historiador.

Campos, inclusive, lembra que a Copa do Mundo no Brasil está cercada de erros em organização em detrimento de investimentos em outros setores da sociedade, mas que a culpa não deve ser depositada integralmente no Governo Federal. “Uma questão crucial é a percepção que a população está tendo desta Copa. A impressão é que toda a culpa dos erros desse evento devam ser depositadas na conta da Dilma. Mas essa conta toda não é do Governo Federal. Ela tem que ser distribuída com uma série de governos estaduais e prefeituras, de diversas siglas, que também são responsáveis pelos atrasos nas obras de infra-estrutura, de mobilidade e até mesmo agiram, em alguns momentos, por meio da sabotagem”, ressaltou, tomando como exemplo os gastos com a construção desnecessária de novos estádios, como no caso do Mineirão, em Minas Gerais, que foi completamente destruído para a construção de uma nova arena durante a gestão do governador Aécio Neves (PSDB).

Com tantas manifestações contrárias à Copa e em prol de legados para o país, o que muitas pessoas esquecem  é que talvez, o maior legado deixado pelo evento, não seja novas estações de metrô, estádios ou hospitais. Como explica Spaggiari.

“Quando pensamos em legado, sempre nos vem à mente algo concreto. Mas podemos falar de vários legados possíveis. O maior que vejo nesta Copa é o protagonismo político do esporte. Se a gente for fazer uma retomada histórica, o esporte nunca teve o papel político que tem agora. Mais do que um instrumento político, as pessoas tomaram o futebol como uma questão política. Haja visto a formação dos comitês populares da Copa, a articulação dos movimentos sociais. Isso, invariavelmente, é um grande e o maior legado”, analisou Enrico Spaggiari.

Manifestação em São Paulo questionando os gastos com a Copa do Mundo. (Foto: Mídia Ninja)

Manifestação em São Paulo questionando os gastos com a Copa do Mundo. (Foto: Mídia Ninja)

Esse legado veio como resultado justamente da luta daqueles que acreditavam que não haveria legados. Ainda que não tenham concretizado o jargão que “não vai ter Copa”, conquistaram de forma latente a crítica e o questionamento e, se tem algum setor da sociedade que depois dessa Copa não será mais o mesmo, este setor é o esporte.

Para o pesquisador Flávio de Campos, torcer pela seleção brasileira, não invalida qualquer tipo de reivindicação. “Eu acho que a questão mais importante que essa Copa trouxe à tona é a necessidade da ação política. Apesar do descrédito que nós temos hoje com os nossos representantes no executivo e no legislativo, há uma valorização da política, mesmo que não seja plenamente consciente. Eu duvido que teríamos uma discussão como essa se a Copa não fosse realizada no Brasil nesse momento. Isso é o legado de uma Copa democrática”.

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