A Copa além do que se vê

A Copa além do que se vê

O Brasil herda do Mundial não apenas estádios e obras e infraestrutura – o chamado legado objetivo. Outros aspectos menos palpáveis de nossa cultura, identidade e reputação também foram influenciados pela realização do megaevento 

Por Anna Beatriz Anjos

A Copa do Mundo se foi, mas não levou consigo as discussões sobre o que fica por essas terras nos anos que a sucederão. Aquela série de perguntas que estamos cansados de ouvir pode ter perdido força a partir do momento em que a bola rolou, mas persiste. O que acontecerá com os estádios construídos para sediar o evento, em cidades ou estados onde o futebol profissional não é tão expressivo? Quais os benefícios de se receber um grande evento esportivo?

São diversas as tentativas de resposta. Alguns dizem que a Copa apenas adiantou e concentrou iniciativas que precisavam há muito tempo ser postas em prática – como a reforma de aeroportos ou as obras de mobilidade urbana. Outros destacam os aspectos negativos e até obscuros da realização do Mundial, como as remoções realizadas sem consulta popular – movimentos sociais ligados à causa estimam que cerca de 250 mil pessoas tiveram de ser retiradas de suas casa em todo o país por conta dos megaeventos, já o governo afirma que esse número é de 10,8 mil famílias; ou a Lei Geral da Copa, que deu à Fifa inúmeras prerrogativas como a isenção fiscal e o direito de comercializar as transmissões dos jogos com quem bem entender.

Estas questões, imprescindíveis, precisam integrar o debate, que, por sua vez, não deve se restringir a elas. O legado – ou não legado – não é medido apenas em cifrões ou blocos de cimento, vai além. Outros pontos, menos palpáveis e relacionados também à nossa cultura, identidade e reputação, precisam ser submetidos à análise da opinião pública.

(Foto: Pedro Revillion/ CAM)

De acordo com números do governo federal, cerca de 1 milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil durante a Copa do Mundo (Foto: Pedro Revillion/ CAM)

Persuadir em vez de cooptar: o soft power brasileiro

Em agosto de 2013, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, escreveu, em texto publicado na Folha de S. Paulo: “Acredito que a exposição de um país durante os dias de uma Copa seja uma oportunidade única para o incremento da imagem que queremos oferecer e para a melhoria do nosso soft power.”

Que a Copa do Mundo pode ter trazido – e ainda pode trazer – benefícios à reputação do Brasil é consenso. Especialistas falam em “vitrine”, “propaganda”, “holofotes” sobre o país no período em que os jogos aconteceram. É bem verdade que admitiam também a possibilidade de um eventual fiasco e de um consequente marketing negativo, caso se confirmassem as hipóteses do caos aéreo, colapso na segurança pública e falhas nos sistemas de mobilidade urbana.

Mas o que ganha o Brasil em termos de soft power, conforme expôs Marta Suplicy em seu artigo? Primeiro, é preciso entender do que ele se trata. O conceito foi criado pelo cientista político Joseph Nye, professor da Universidade de Harvard, e é descrito no livro “Soft Power: os meios para o sucesso na política mundial”, de sua autoria, lançado em 2004.

“Nye o caracteriza como a habilidade de um Estado (ou de qualquer outra entidade internacional, como empresas, organizações internacionais ou ONGs) em persuadir, em vez de cooptar. Se o hard power envolve a imposição da vontade sobre o outro, por meio da força militar ou econômica, o soft power envolve fazer com que o outro queira o que você quer. Isso se dá, em geral, por elementos simbólicos, ideológicos”, explica Guilherme Casarões, professor de relações internacionais das Faculdades Rio Branco e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

De acordo com Casarões, o soft power de uma nação pode ser exercido por meio de diversos fatores, como direitos humanos, democracia, sucesso econômico, bens culturais – a exemplo da indústria cinematográfica, nos Estados Unidos e na França – e até a imagem de empresas nacionais. No caso do Brasil, está intimamente relacionado a uma característica específica: a promoção da paz e o uso da diplomacia como instrumento de suas relações com o mundo. “Isso é um dado histórico. Nosso país não faz guerras com os vizinhos há quase 150 anos”, considera. “Está sempre aberto ao diálogo, tendo como principal âmbito de atuação as organizações multilaterais, como a ONU e a Organização Mundial do Comércio (OMC).”

Nesse sentido, o Mundial pode colaborar para o fortalecimento do “poder brando” brasileiro. É o que diz Antonio Jorge Ramalho, docente do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). “O Brasil cresceu com a organização da Copa. A frustração das expectativas negativas e as boas surpresas que tantos turistas levaram daqui, devido não só a nossa hospitalidade e simpatia, mas também ao aproveitamento de bons serviços, contribuem para melhorar a imagem do Brasil no mundo”, pontua. “O pessimismo foi exagerado e as coisas funcionaram efetivamente melhor do que se esperava. Nossas características não melhoraram a qualidade dos serviços, apenas compensaram algumas frustrações. As pessoas se prepararam para os dissabores, que não aconteceram.”

Entre as surpresas a que se refere Ramalho, está o relativo bom funcionamento de alguns setores, abordados anteriormente pela mídia tradicional, nacional e estrangeira, como potenciais desastres. O índice de atrasos em voos foi de 7,46% dos 263 mil pousos e decolagens, de acordo com a Secretaria de Aviação Civil – média que ficou abaixo do nível internacional (15%) e também do europeu (8,4%). Pesquisa do Instituto Datafolha, que ouviu 2.209 turistas estrangeiros nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza, entre os dias 1º e 11 de julho, indica que 72% dos entrevistados consideraram ótima ou boa a estrutura para segurança pessoal no país, 19% deram classificação regular e 6%, ruim ou péssima. Para 46%, o transporte funcionou acima do esperado; para 40%, dentro das expectativas e pior que o esperado para 11%.

Apesar do diagnóstico positivo no que diz respeito à logística durante o tonreio, para Casarões, há outros elementos que podem impactar igualmente o soft power brasileiro. “Neste período específico de Copa do Mundo, a imagem do Brasil estará muito ligada às experiências de quem veio assistir aos jogos e à repercussão midiática do evento. Então, é natural que o sentimento internacional com relação ao Brasil passe por uma melhora, após um tempo de expectativas e ansiedade. Mas isso não significa que a lua-de-mel do mundo com nosso país voltará: os principais veículos já se preparam para a cobertura das eleições, o debate político terá repercussões no exterior. A imagem vai sendo moldada pouco a pouco”, considera.

Turismo: é possível manter a alta?

Levantamento realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e divulgado no último dia 14 pelo governo federal revela que cerca de um milhão de turistas estrangeiros estiveram no Brasil durante a Copa do Mundo. O número ultrapassou a previsão inicial do Ministério do Turismo, de 600 mil visitantes vindos do exterior. Dentre os viajantes internacionais, 61% vieram ao Brasil pela primeira vez, 95% declararam ter a intenção de retornar e 83% afirmaram que o país “atendeu plenamente ou superou suas expectativas”.

Em 3 de julho, quando o campeonato ainda ocorria, o ministro do Turismo, Vinicius Lages, já havia declarado que o evento seria um “divisor de águas” para o setor. “Com certeza será um divisor do ponto de vista da nossa capacidade de poder aproveitar as sinergias que o turismo oferece”, afirmou.

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Mas será que é realmente possível manter essa tendência de alta? Para a turismóloga Maria José Giaretta, professora da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade São Judas Tadeu, o segredo está nas campanhas realizadas em torno da chamada “marca Brasil”. “Se a Embratur, o órgão do Ministério do Turismo que cuida da divulgação no exterior, continuar nessa linha e pegar uma carona nessas avaliações, essenciais para tratar o trabalho futuro, sobre a hospitalidade do povo brasileiro, vai manter sim um fluxo para o país.”

(Foto:  Valdecir Galor/SMCS)

Em Curitiba, o movimento de turistas cresceu durante a Copa. A Linha Turismo, que circula entre os principais pontos turísticos da cidade, registrou alta de 34,57% no número de visitantes, em comparação com o período de 1º a 23 de junho de 2013 (Foto: Valdecir Galor/SMCS)

Giaretta se refere à boa repercussão alcançada pela recepção dos anfitriões. A última pesquisa divulgada pelo Datalfolha indica, também, que 95% dos estrangeiros a avaliaram como ótima ou boa. A turismóloga ressalta a alta no nível das campanhas publicitárias relacionadas à imagem do país. “Elas melhoraram muito em qualidade nos últimos anos. Havia uma época em que o Brasil só divulgava mulheres nuas, e isso não acontece mais”, constata.

Entre os grandes legados que o Mundial da Fifa deixou ao turismo brasileiro, a professora destaca dois. Primeiro, o aumento da visibilidade internacional de algumas cidades-sede, antes não tão conhecidas quanto São Paulo e Rio de Janeiro. “A Copa mostrou muitas coisas que nem nós, brasileiros, vemos em algumas cidades. Foi assim com Curitiba, com Porto Alegre.”, exemplifica.

Segundo, o aprendizado da pontualidade. Segundo Giaretta, o país contou com uma dose de sorte, que não pode ser esperada sempre. “O Brasil precisa aprender a fazer a lição do cronograma. Não precisa de uma Copa ou de uma Olimpíada para que sejam feitos investimentos na infraestrutura urbana. Aí é que está a nossa defasagem. Tivemos um tempo enorme de preparação, mas os pregos estavam sendo martelados quando a abertura ia começar. Isso não pode mais acontecer”, considera.

As representações do Brasil

Florestas tropicais, araras, tucanos, mulatas sensuais, samba, caipirinha, a figura do “malandro”: estas são imagens recorrentemente utilizadas na representação do Brasil e de seu povo. Como e quando surgiram e ganharam força de estereótipo, porém?

“A preocupação em construir uma nacionalidade começa quando o Brasil se emancipa de Portugal. Aí é preciso criar uma identidade, é preciso diferenciar. Até o momento da independência, todo mundo aqui é considerado português. A partir daí, a gente precisa saber o que é brasileiro”, elucida a historiadora Juliana Serzedello Crespim Lopes, professora da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Ela prossegue: “Os valores da nacionalidade são diretamente construídos pelas elites, que detêm as terras e os escravos no período imperial. Elas vão construir, por exemplo, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB). Vão constituir instituições mesmo para formar essa nacionalidade.”

No entanto, segundo a historiadora, é a partir da década de 1930, durante a Era Vargas, que os estereótipos de Brasil ganham os contornos contemporâneos. “Não vai se jogar fora o modelo nacional que veio do Império, mas ele ganhará uma densidade e uma mídia que nunca havia tido. O Estado Novo começa a trabalhar pesado a questão da mídia, e se aproxima, inclusive, das grandes corporações, como a Disney”, narra.

Nesse período, inclusive – mais precisamente em 1942 -, os estúdios Walt Disney lançam o longa-metragem “Saludo Amigos” (ou “Alô, Amigos”, em português), ambientado em países da América do Sul – um deles é o Brasil. No segmento da animação que se passa por aqui, um novo personagem é inaugurado: o papagaio Joe Carioca, para os norte-americanos, ou Zé Carioca, para os brasileiros. Ele era a representação do bon vivant tropical, do “malandro”, que, simpático, leva a vida fazendo “bicos”.

Além de Carioca, que serve como um guia turístico ao “gringo” Pato Donald, protagonizam o filme as florestas, frutas, animais exuberantes, a cachaça, a dança, o gingado e até a cantora Carmem Miranda – figuras que se firmariam como símbolos nacionais perante o mundo. Tudo embalado pelas canções “Aquarela do Brasil” e “Tico Tico no Fubá”.

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Manifestantes concentrados na Praça da Saenz Peña, zona norte do Rio de Janeiro, antes de protesto contra a Copa do Mundo, no dia 28 de junho. “Ao mesmo tempo em que apareceu o brasileiro bacana, de verde e amarelo, sorrindo, também apareceu o brasileiro das manifestações”, destaca a historiadora Juliana Serzedello Crespim Lopes (Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Também durante a Era Vargas, em 1936, o historiador Sérgio Buarque de Holanda publica o livro “Raízes do Brasil”, um ensaio que revisita e recupera pontos centrais da formação da cultura e identidade brasileiras. Nele, há a caracterização do brasileiro como o ‘homem cordial” – aquele de “fundo emotivo extremamente rico e transbordante”, tanto para a formação de laços sociais como para a ruptura violenta. O conceito de Holanda não perdeu sua atualidade, e é até hoje referência para estudiosos do tema.

Tomando como base este contexto, pode-se considerar que, por um lado, houve certo reforço de algumas das representações clássicas do Brasil durante a Copa – como é o caso do “homem cordial”,  segundo a antropóloga Carla Cristina Garcia, professora da PUC-SP.  “Mais do que nas reportagens produzidas pela imprensa, isso [reforço do ‘homem cordial’] estava no discurso das pessoas: a ideia da gente receber bem os turistas, e o medo de perdê-la. Nas próprias redes sociais, falava-se que não podiam acontecer manifestações, porque senão não sustentaríamos essa fama”, aponta.

Entretanto, o retrato do “homem cordial” não ficou restrito a apenas uma de suas facetas. Outro aspecto também foi levantado, sobretudo pelos meios de comunicação, embora com uma frequência menor e de forma muitas vezes deturpada e reducionista. “Ao mesmo tempo em que apareceu o brasileiro bacana, de verde e amarelo, sorrindo, também apareceu o brasileiro das manifestações”, destaca Lopes. “Se a gente pegar o sentido mais radical da cordialidade do Sérgio Buarque de Holanda, o brasileiro cordial é tanto aquele que está no estádio dizendo ‘sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor’, quanto aquele que está colocando fogo no lixo, também na frente do estádio, para chamar atenção para uma questão social”, explica a professora.

Carla Cristina Garcia ressalta uma ruptura, identificada por ela, nas representações nacionais ao longo do Mundial. No cerne, está a imagem da mulher, quase sempre atrelada a apelos sexuais. “Não vi nenhuma exploração exagerada. Não vi nada além da conta, como a gente costuma ver”, atesta a antropóloga. Juliana Serzedello Crespim Lopes atribui essa suavização ao avanço da luta pelos  direitos das mulheres. “O fato da gente ter uma presidente mulher e também políticas públicas voltadas ao público feminino hoje, que não havia anteriormente, dificultou a construção do estereótipo da mulher gostosa’. O crescimento do movimento feminista também cria um certo ruído nessa história.”

Outro novo ingrediente nas representações do Brasil ao longo do Mundial é o sujeito periférico. Ele esteve longe de ser incluído, de fato, no espetáculo, mas apareceu em algumas reportagens e também em materiais da própria Fifa – como a vinheta de abertura das transmissões das partidas, em que um menino negro aparece olhando, de cima do morro, a cidade do Rio de Janeiro. “Esse é um elemento novo, até porque há, já há uns 10 anos, excursões para a Rocinha, por exemplo. Tem muito dinheiro de multinacional financiando projetos sociais no Brasil. São elas, inclusive, que impõem essa agenda, não os movimentos sociais. Há uma glamurização do pobre porque ele é uma mercadoria, que traz dinheiro”, avalia Garcia.

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Durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo, três crianças – uma branca, uma negra e uma indígena – entraram segurando pombas brancas nas mãos. A ultima aproveitou para pedir pela demarcação das terras de seu povo (Foto: Luiz Pires/Comissão Guarani Yvyrupa)

“É uma representação romantizada do sujeito periférico, que procura anular todas as tragédias sociais que o rondam – violência policial, casos como o do Amarildo, dentre outras coisas”, afirma Lopes, que relembra a “Fábula das Três Raças”, criada pelo antropólogo Roberto da Matta. “Ela aborda essa história de que o Brasil é constituído positivamente pelo branco, negro e índio. Na cerimônia de abertura, apareceram três crianças, uma negra, uma branca e uma índia, segurando pombas brancas – ‘olha só, o Brasil é o país que resolveu o problema racial’. Só que o que a gente viu em campo foram manifestações explícitas de racismo. Houve episódios entre as torcidas, entre os jogadores – mesmo a gente sendo racista com o colombiano que machucou o Neymar”, recorda.

(Crédito da foto de capa: J.P.Engelbrecht/ PCRJ)

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