Política e arquibancada: o encontro por um novo futebol

Política e arquibancada: o encontro por um novo futebol

Torcidas libertárias expõem princípios que confrontam o velho preconceito e machismo dos gramados. A paixão pelo clube começa a se soma, agora, à luta contra o ódio, a violência, a homofobia e elitização do esporte 

Por Ivan Longo

Brigas entre torcidas, machismo, xingamentos racistas e homofóbicos, espaço restrito para mulheres e crianças e ódio irracional em nome da paixão ao clube sempre foram características enraizadas no futebol, principalmente no Brasil. Aqui, naturalizou-se entre as torcidas organizadas o tom preconceituoso em relação a tudo aquilo que não fizesse parte da falsa essência criada, ao longo dos anos, para o esporte: de que seria uma modalidade de homens, para homens.

Essa lógica que imperou e ainda impera nas arquibancadas não surgiu dos clubes ou mesmo dos próprios membros da torcida. Mas é resultado, na verdade, de um processo natural de reprodução dos valores de uma sociedade. O futebol, enquanto esporte de maior prestígio coletivo no país, simplesmente serviu de ambiente favorável para que essas características se expressassem de forma ainda mais intensa quando somadas à paixão pelo clube. Assim como o esporte, a sociedade brasileira ainda é, majoritariamente, machista, racista e homofóbica, conforme defende o sociólogo Maurício Murad, estudioso que já publicou obras analisando o comportamento das torcidas de futebol.

“O futebol é um dos maiores eventos culturais da coletividade brasileira, isso historicamente. É um traço fundamental da nossa identidade. A torcida é, portanto, o maior patrimônio do futebol. Ele só é grande por causa da imensidão das torcidas. Então a torcida, em princípio, dá conta de quase toda a sociedade brasileira”, analisa Murad, que é professor do mestrado da Universo (RJ).

Ainda sem grande expressividade, no entanto, grupos de torcedores de diversos clubes do país vêm se articulando, ao longo dos últimos anos, para tentar mudar essa realidade. Ao confrontar conceitos que sempre estiveram presentes de forma tão concreta no esporte  sendo legitimados, inclusive, pelas autoridades que gestionam o futebol no Brasil , é inevitável que a discussão passe também a permear o campo político e social que, se analisado a fundo, se relaciona de forma direta com a modalidade que mais reproduz a nossa sociedade.

No Brasil, torcidas anti-homofóbicas, antirracistas ou que carregam entre seus princípios qualquer tipo de reivindicação social ainda são um fenômeno recente. Na Europa, por exemplo, torcidas como a do Livorno, da Itália, declaradamente socialista e antifascista, ou a do St. Pauli, na Alemanha, que foi o primeiro clube a ter um presidente assumidamente homossexual e a colocar em seu estatuto ser um time  antinazista, antirracista e anti-homofóbico, pregam a liberdade e são contra a intolerância nos estádios já há décadas.

Torcida do St. Pauli, da Alemanha, levanta faixas contra a homofobia. (Foto: reprodução)

Torcida do St. Pauli, da Alemanha, levanta faixas contra a homofobia. (Foto: Reprodução)

Até houve uma experiência mais libertadora, neste sentido, na década de 1970. Um grupo de torcedores homossexuais do Grêmio formaram a Coligay, torcida que procurava lutar pelo espaço do público LGBT nos estádios e que, por meio do humor, tentava combater o discurso homofóbico. O grupo foi fundado por Volmar Santos, à epoca gerente de uma boate gay da capital gaúcha, a Coliseu. A hostilidade dos torcedores gremistas, no entanto, decretou, em meados dos anos 80, o fim da primeira torcida homossexual de futebol do Brasil.

A Coligay foi a primeira torcida a desafiar os preconceitos latentes do futebol. (Foto: reprodução)

A Coligay foi a primeira torcida a desafiar os preconceitos latentes do futebol. (Foto: Reprodução)

A pauta dos homossexuais, bem como a das mulheres, dos negros, dos desfavorecidos financeiramente e de todas as minorias que historicamente são excluídas do futebol, no entanto, continua em voga, e a bandeira da democratização do esporte nunca esteve tão hasteada entre os torcedores. Em Fortaleza, no estado do Ceará, cresce o que podemos classificar hoje como a torcida mais politizada e libertadora no país atualmente: a Ultras Resistência Coral, formada por militantes de esquerda apaixonados pelo Ferroviário Atlético Clube.

“Os inimigos não estão na torcida do outro clube. Estão um pouco mais em cima”

Bandeira anti-racista do Ultras Resistência Coral. (Foto: reprodução)

Bandeira anti-racista do Ultras Resistência Coral. (Foto: Reprodução)

Fundada em 2005 por dois militantes de esquerda  um socialista e um anarquista , a Ultras Resistência Coral representa hoje a torcida mais completa em termos de reivindicações sociais de que já se ouviu falar no país. A proposta do grupo, composto por cerca de 20 pessoas, mas que recebe a adesão de outras dezenas nos dias de jogos, é incentivar  a equipe do Ferroviário a vencer os jogos sem ter que recorrer a cantos machistas, manifestações homofóbicas ou racistas.

Pela própria origem proletária do clube, que nasceu na década de 1930 pelas mãos de operários da linha ferroviária do Ceará, a Resistência Coral procura, além de tudo, militar pela democratização do esporte. Eles se colocam contra o capitalismo, se organizam de maneira horizontal e não aceitam ingressos ou apoio financeiro de nenhuma entidade, inclusive da diretoria do próprio clube.

“A gente se auto financia, construímos alternativas. Nos  períodos em que o Ferroviário não está jogando, a gente estabelece uma política de cotização para criar um caixa e, assim, manter a torcida. Mas produzimos também alguns materiais, como camisetas, faixas e zines para vender. Assim, mantemos nossa independência e autonomia em relação à diretoria”, conta Leonardo Carneiro, membro da torcida, sociólogo e professor da rede pública.

Como forma de situar o esporte no contexto político e ir além das arquibancadas, o Ultras Resistência Coral realiza reuniões periódicas que não se limitam à sua atuação durante os jogos, mas que abarcam também outras questões sociais que reivindicam. “A gente discute coisas que acabam interferindo no estádio também no campo da política. Estatuto do Torcedor, a questão das lutas sociais que estão acontecendo no período. Sempre articulamos participação em algumas manifestações, participamos de atos de trabalhadores no 1º de maio, das manifestações de junho do ano passado, protestos contra a violência policial…”, diz o sociólogo.

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Durante a partida, cantos de cunho preconceituoso, machista ou homofóbico são proibidos. Os militantes/torcedores usam bandeiras e faixas com mensagens diretamente ligadas a simbologias da esquerda, como a foice e o martelo, imagens de Che Guevara ou ainda prestam apoio ao povo palestino. A relação entre as reivindicações sociais e a torcida de futebol em si, para eles, é direta. “Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes”, diz uma de suas faixas.

A Ultras Resistência Coral relaciona luta de classes com o futebol. (Foto: divulgação)

A Ultras Resistência Coral relaciona luta de classes com o futebol. (Foto: Divulgação)

Os membros da Ultras Resistência Coral têm noção de que a militância que exercem pode não se enquadrar na realidade de outras torcidas, mas acreditam que, independentemente do clube ou dos princípios das organizadas, é dever e papel delas, sim, trazer o teor político às arquibancadas em prol de um futebol melhor e mais democrático.

“Independente da torcida ser politizada ou não, o fundamental é encontrar maneiras de torcer pelo clube, mobilizar os torcedores para incentivar a equipe e lutar para que o clube seja dos torcedores, seja democrático. No momento em que surge uma política de aumento de preço de ingressos, acredito que seja papel da torcida organizada combater isso. Trata-se de elitização e a torcida tem que lutar contra”, avalia Carneiro. A Ultras, contrariando outras organizadas, luta pelo bem do esporte, e não contra os outros times.

“Ficou muito claro com esse período de Copa do Mundo que a política interfere no futebol, na maneira com ele é administrado e proporcionado para a sociedade. As torcidas têm que se ligar mais nos fatores políticos e em como isso interfere na própria lógica da torcida. Infelizmente, a maioria delas não tem essa visão tão clara e acaba colocando como inimigos pessoas de outras torcidas quando, na verdade, na nossa avaliação, os inimigos não estão nas torcidas dos outros clubes, mas um pouco mais em cima”, completa.

Faixa contra o machismo da Ultras Resistência Coral. (Foto: divulgação)

Faixa contra o machismo da Ultras Resistência Coral. (Foto: Divulgação)

Ódio eterno ao futebol moderno 

No que diz respeito à luta contra a elitização do esporte, há ainda mais torcidas, de diferentes clubes, que vêm abraçando a causa. A Camorra 1914, por exemplo, é um grupo de torcedores do Palmeiras que tem o amor ao clube, atrelado à democratização do esporte, como princípio essencial.

Inspirados nas barrabravas argentinas, que cantam durante todo o jogo para apoiar o time, os torcedores da Camorra 1914 compartilham de uma ideologia antifascista, que prega um futebol mais acessível e democrático a todos, e com menos medidas repressivas e autoritárias. O ódio, assim como no Ultras Resistência Coral, também é um aspecto dispensável para esses torcedores.

“Nós ficamos cantando o jogo inteiro, nossa ideia é expressar amor ao clube e não à torcida. Apoiamos o clube durante 90 minutos, não existe a prerrogativa de vaia, não paramos de cantar”, conta Renan Assis, um dos membros da barrabrava palmeirense.

Quanto ao viés antifascista, Renan vai direto ao ponto. “Nós temos uma ideologia claramente antifascista. Somos completamente contrários ao futebol moderno e contra qualquer forma de elitização. A gente viu que a Copa do Mundo não foi nada do retrato da sociedade brasileira. Você vê o estádio repleto de torcedores brancos de classe media alta. Tirando as organizadas, é assim também nos jogos de clubes”.

Faixa contra a elitização do futebol erguida pela torcida Camorra 1914. (Foto: divulgação)

Faixa contra a elitização do futebol erguida pela torcida Camorra 1914. (Foto: Divulgação)

Renan revelou que a Camorra 1914, aos se colocar como antifascista, na verdade, luta contra medidas autoritárias, como o aumento de preço de ingressos – não para si próprios, mas para os torcedores de uma maneira geral. “Nós da torcida vamos conseguir ingresso de um jeito ou de outro. Conhecemos membros de outras torcidas, vendemos entre nós, participamos do programa de sócio torcedor. Então, não brigamos por nós, lutamos pelo torcedor de baixa renda que está sendo expulso dos estádios através desses programas de filiação e do preço abusivo dos ingressos”, pondera.

A Ultras Resistência Coral de Fortaleza, neste sentido, compactua com essa luta com a torcida palmeirense. “É contra essa lógica de higienização, elitização, e mercantilização do esporte que lutamos. Se a torcida quer que o clube seja dos torcedores, tem que lutar contra essa lógica atual do futebol que está em voga e que é regida pela CBF e seus braços regionais”, afirma Carneiro, torcedor do Ferroviário.

Quanto à participação dos torcedores nas decisões do clube, a Camorra 1914 já conseguiu avanços no Palmeiras. “A gente brigou muito para que o sócio tivesse direito a votar nas decisões do clube. Conseguimos sair vitoriosos, isso em busca de democracia e menos autoritarismo  que é o que rege a diretoria do Palmeiras hoje”, revela Renan.

E quando a torcida percebe que seus princípios podem ter relação direta com a luta política e social, instaura-se um caminho sem volta. A torcida palmeirense de Renan, por exemplo, de tanto lutar contra a elitização do esporte, namora agora políticas de aumento da consciência social. Ele conta que já estão fechando uma parceria com a Anistia Internacional, que promoverá palestras ao torcedores, e que estão viabilizando um local de acolhida para aqueles de baixa renda, em um bar próximo ao estádio do Palestra Itália.

Um novo caminho pela frente 

A consciência política que vem sendo adquirida por torcedores de futebol deixa o sociólogo Maurício Murad otimista em relação ao futuro do esporte. Para ele, essas e outras iniciativas, que também já surgem em outras torcidas, como a Bambi Tricolor – página na internet de torcedores do São Paulo que lutam contra a homofobia nos estádios -, ou ainda a Galo Queer – torcida do Atlético Mineiro que segue os mesmos princípios – refletem o que o futebol já reproduz naturalmente: a própria lógica da sociedade em que vivemos.

“O ambiente do futebol é um espaço predominantemente de homens. As torcidas são predominantemente masculinas. Só que de uns anos pra cá, felizmente essa realidade vem mudando. Mulheres vêm fazendo parte de torcidas e também outros grupos que eram excluídos, como crianças e idosos”, analisa Murad, “Além disso, as torcidas começaram, atendendo mais à diversidade, a se opor à intolerância,  à xenofobia, ao racismo e ao sexismo. Antes era tudo muito escondido, muito velado. Agora, até acompanhando o que acontece no âmbito geral da sociedade, as torcidas já permitem que essas tendências anti homofóbicas e anti-sexistas apareçam mais, embora sejam conceitos que ainda prevaleçam.”

Lonardo Carneiro, da Resistência Coral, também é otimista quanto ao futuro, mas insiste no preceito básico de sua militância: a luta. “A mudança tem que partir da mobilização popular, dos torcedores, das organizadas. As grandes mudanças não vêm de cima, elas vêm da base. Caberia pressionar essas entidades pra mudar essa política visando algo maior”, afirma, citando ainda exemplos de como tal transformação se concretizaria: “Direções de clubes mais democráticas, clubes autogestionados pelos torcedores, decisões discutidas pelo maior número de pessoas possível e revisão de uma série de políticas, como a do Estatuto do Torcedor, que causa inúmeras restrições”.

O punho cerrado, em sinal de luta, é o símbolo da torcida. (Foto: divulgação)

O punho cerrado, em sinal de luta, é o símbolo da torcida. (Foto: divulgação)

Murad vai pelo mesmo caminha e acredita que política tem a ver, sim, com futebol e, assim como prega a torcida mais libertária do país, é a base da mudança.”É necessário. Porque é preciso que aquela multidão entenda o furtebol como parte da vida social. E a vida social como parte da vida política. Então é preciso politizar, sim. A discussão de temas sociais e políticos representa um avanço no pensamento da ideologia das torcidas para além ao amor ao clube”, avalia.

 

(Foto de capa: Reprodução/Facebook Camorra 1914)

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