Editorial – A César o que é de César…

Editorial – A César o que é de César…

A edição desta semana traz uma reportagem que tem como gancho a inauguração do chamado “Templo de Salomão”, edifício religioso monumental inaugurado pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. O custo total do empreendimento gira em torno de R$ 680 milhões, um volume de recursos que impressiona.

Também impressiona a presença de tantas autoridades na celebração que inaugurou o local. O que mostra o senso de oportunidade dos mandatários da igreja, fazendo tal evento às portas das eleições, mas evidencia também o que se tenta esconder por trás de um jogo que envolve poder econômico, religião e, claro, política.

Em tese, não há qualquer problema em um governante ou representante do poder público se fazer presente em um evento religioso, ainda que, investido de tal função, deva zelar pela igualdade entre as diversas denominações e manter a equidistância que é um dos pilares da liberdade religiosa assegurada pela Constituição. No entanto, como na obra orwelliana, percebe-se logo que uns são mais iguais que os outros. Enquanto segmentos chegam mesmo a ser perseguidos, outros contam com benesses quase injustificáveis.

O rápido crescimento de uma igreja pode estar baseado no carisma dos seus líderes ou na força da sua palavra, mas o fato é que refletem questões que ainda precisam ser discutidas. Como a da concentração da comunicação no Brasil, que propicia um campo fértil para a utilização de concessões públicas destinadas a fins particulares diversos, negligenciado suas funções originais que estão inscritas na Constituição.

A proximidade da política com a religião também retrata não apenas a dificuldade em se efetivar um Estado legitimamente laico, como também é fruto de um sistema político representativo que se distancia cada vez mais de parte da população, privilegiando a eleição de setores que possuem força econômica em detrimento daqueles que são alijados por não ter como enfrentar um embate com parcos recursos.

Para muitos, os projetos de algumas igrejas representam estratégias de poder que atendem a poucos. Mas não deixam também de ser um espelho no qual vemos tantas outras deficiências e questões relegadas a um segundo plano, e que dizem respeito à democracia que ainda estamos construindo.

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