“Expressar a cultura da periferia é uma forma de resistência”

“Expressar a cultura da periferia é uma forma de resistência”

Em mais uma edição do programa Brasil Perifa, os convidados debateram a cultura urbana que vem das periferias e as dificuldades para se ganhar espaço e produzir nas quebradas 

Por Ivan Longo 

Produzida pelo SPressoSP e SPressoRJ, que são iniciativas regionais da Revista Fórum, em parceria com o Perifa Livre e a Agência Papagoiaba, a terceira edição do programa semanal Brasil Perifa teve como tema, nesta quinta-feira (31.08), a cultura urbana.

Transmitido ao vivo pela internet, o debate, mediado por Igor Carvalho e Luana Bartholomeu, contou com a participação, de São Paulo, da professora Jaqueline Conceição – que vai apresentar na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, sua pesquisa sobre funk cantado por mulheres – da antropóloga, pesquisadora e escritora do livro “Vozes marginais da literatura”, Érica Peçanha e do artista plástico e poeta Tubarão Dulixo. Do Rio de Janeiro, participou a antropóloga Adriana Facina.

Espaço Público 

A primeira pauta do debate foi sobre a questão da ocupação de espaços públicos para a expressão cultural da periferia. Em São Paulo, já há alguns anos a realização de saraus tem se tornado o principal eixo de expressão cultural nas quebradas. Autora do livro que tem tudo a ver com o tema (“Vozes marginais da literatura”), Érica Peçanha lembrou como se deu essa efervescência da cultura do sarau e da literatura nas regiões mais marginalizadas da cidade, que teve como principal propulsor a criação da Cooperifa, no início dos anos 2000.

“A gente está vivendo um momento histórico muito específico. Não há só novas formas de socioativismo como uma nova forma de construção cultural. Além de moradores de periferia, são pessoas se colocando como produtores culturais e agitadores culturais. Aqui em São Paulo desde o começo dos anos 2000 há uma efervescência dos saraus”, afirmou.

Érica salientou ainda que uma das principais características dos saraus das periferias – a sua realização em bares – revela justamente esse problema da falta de espaços públicos. Como não são disponibilizados espaços e nem recursos adequados para que a população da periferia expresse sua cultura, os bares foram sendo ocupados. Com o tempo, no entanto, esses lugares ganharam novas significações.

“Bar não é espaço público. Bar é um espaço de lazer e sociabilidade das periferias. Houve uma resignificação desses lugares. Antes, era predominantemente masculino onde as pessoas se encontravam pra consumo de álcool. Agora, é um espaço do público feminino, de estudantes, de literatura”, disse.

Da direita para a esquerda: Érica Peçanha, Tubarão Dulixo, Igor Carvalo e Jaqueline Conceição

Da direita para a esquerda: Érica Peçanha, Tubarão Dulixo, Igor Carvalho e Jaqueline Conceição

O poeta e artista plástico Tubarão Dulixo também falou da questão da ocupação dos espaços. “Meu trabalho vem do lixo. Tenho a cidade como matéria prima”, afirmou o artista, que faz obras de arte com o lixo que encontra nas ruas. “A gente ocupou os bares porque só tinha bar. A gente não ocupou igreja por que igreja não aceita nossa palavra. E eu nunca vi uma galeria de arte na quebrada”, adicionou.

Jaqueline, por sua vez, que dá aulas de literatura em uma escola de Paraisópolis e que vai aos Estados Unidos apresentar sua pesquisa sobre funk cantado por mulheres, afirmou que a ocupação de espaços públicos por jovens da periferia é natural como é para o jovem de qualquer camada social. A diferença é que o jovem da periferia não tem espaços adequados à sua disposição e, por isso, ocupa as ruas.

Ela lembrou que, nas quebradas, nem mesmo as escolas abrem suas portas para que os jovens promovam suas iniciativas culturais, como o baile funk. “A gente só entra na escola assim: ou obrigado ou marginalizado”, criticou. A professora vai apresentar sua pesquisa sobre funk nos Estados Unidos com a ajuda financeira da funkeira Valesca Popozuda, autora de diversas letras julgadas como polêmicas por se apropriar do discurso sobre o próprio corpo. “Para a mulher jovem, cantar ‘a porra da buceta é minha’, representa empoderamento”, avaliou.

Para a antropóloga Adriana Facina, no Rio de Janeiro, a questão do espaço público para a expressão cultural da periferia é ainda mais complicada. “A ocupação do espaço público é chave para a produção cultural da periferia. O surgimento das favelas chamadas “pacificadas”, com presença militar, no entanto, acabou fazendo esses espaços serem significativamente encolhidos. Não há uma política cultural que coloque frente a isso. Trata-se de uma ameaça à criação cultural das favelas”, disse.

Produção 

Mesmo com inúmeras iniciativas surgindo a todo momento nas periferias do país, uma das principais dificuldades enfrentadas por essa população é a falta de recursos e incentivos para viabilizar suas produções, além, claro, da burocracia exigida para ter acesso aos poucos recursos existentes.

Os escassos espaços para cultura nas periferias criaram uma geração que precisa ser, além de artista, produtores de seus próprios encontros e espetáculos. “Burocracia é um entrave. A gente teve que aprender a negociar nossa arte, como elaborar isso tudo”, disse Dulixo, adicionando ainda que existem muitos artistas bons que não conseguem encabeçar uma ideia pois não têm formação e, por isso, não conseguem desenvolver projetos que se enquadrem nos parâmetros exigidos pelos editais de recursos públicos.

Érica Peçanha, por sua vez, admite que os recursos públicos são escassos, mas reconhece a importância desse tipo de política, como o VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), de São Paulo. “Tem a coisa do poder público de estar atento a esta demanda, de não deixar esse bonde passar. Comunidade e poder público vem se retroalimentando. Ter uma política pública que tenta atender essas demandas é um reconhecimento”, afirmou.

Já a professora Jaqueline é mais crítica em relação a esse tipo de “ajuda”. “O edital também é uma forma de controle do dinheiro público: determina quem pode e quem não pode acessar”, ponderou.

Criminalização da cultura periférica 

A cultura de criminalização de músicas, danças e movimentos das periferias foi mais um, entre outros tantos, pontos abordados pelos convidados. Historicamente, as elites, bem como a classe média do país, olham com maus olhos o rap, o hip-hop, o funk e todas as outras expressões culturais genuinamente oriundas dos morros cariocas, das periferias paulistas ou das áreas marginalizadas por todo o Brasil. Essa criminalização não institucionalizada dificulta, por consequência, o desenvolvimento, o reconhecimento e a consolidação dessas manifestações como cultura, tal como elas são.

Para a antropóloga Adriana Facina, o problema vem de longa data.”Acho que a história mais antiga vem da criminalização das culturas da diáspora africana. Os trabalhadores escravizados não trouxeram para o Brasil só os seus corpos. Trouxeram suas culturas, suas afetividades, suas formas de se expressar. E expressar isso hoje em dia é uma forma de resistência à sua objetificação. Como pode uma expressão cultural estar subjulgada a ações policiais? A gente tem um contexto aqui no Rio de Janeiro escandalosamente desfavorável e criminalizante, e o agente criminalizante é o próprio Estado”, analisou.

Contando ainda com poesias de Dulixo, o debate percorreu discussões que foram desde a questão dos editais para a produção cultural até a questão do grafite e da pichação como manifestações e artísticas/culturais.

Confira abaixo, na íntegra, o vídeo da terceira edição do Brasil Perifa: cultura urbana

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