Aeroporto em Montezuma: aqui em cima, o buraco é mais embaixo

Aeroporto em Montezuma: aqui em cima, o buraco é mais embaixo

Segunda parte da matéria sobre os controversos aeroportos em Minas Gerais, onde a pequena cidade de Montezuma também abriga uma polêmica pista de pouso e inúmeras suspeitas sobre o velho uso do coronelismo pelo clã Neves

Por Vinicius Gomes, de Montezuma (MG)

Qualquer um que se aventure a viajar por terra para Montezuma, no extremo norte de Minas Gerais, bem na divisa com a Bahia, logo compreenderia por que surgem questionamentos a respeito da conveniência para Aécio Neves contar com um aeroporto na cidade onde seu pai, Aécio Cunha, falecido em 2010, tinha uma fazenda – terras essas que também estão envoltas em controvérsias. Quem vem pelo sul do estado tem que encarar, em determinado trecho, estradas de terra batida, subidas lentas em primeira marcha, curvas sinuosas e poeira para tudo o que é lado. Ideal para os de espírito aventureiro, um horror para quem está habituado a aviões particulares.

De acordo com a prefeitura, a pista de pouso em Montezuma (MG) não teve nenhum pouso ou decolagem em 2014. De acordo com locais, há anos ela está inutilizada (Vinicius Gomes)

De acordo com a prefeitura, a pista de pouso em Montezuma (MG) não teve nenhum pouso ou decolagem em 2014. De acordo com locais, há anos ela está inutilizada (Vinicius Gomes)

Seu portão, assim como o de Cláudio, está trancado (mas pelo menos aqui se sabe quem tem a posse das chaves). A reportagem de Fórum conseguiu entrar no local, utilizando a mesma passagem que cachorros de rua e entusiastas da motovelocidade o fazem. O local está jogado às moscas. Literalmente. E ninguém na cidade possui um avião particular para utilizar a pista.

De acordo com Flávio Oliveira, chefe de gabinete da atual gestão municipal desde que o último prefeito, Erival José Martins (PSDB), foi caçado por compra de votos, não existe qualquer documentação em posse da prefeitura a respeito do aeroporto da cidade, nem qualquer registro de plano de voo e a pista não foi utilizada esse ano.

Assim como o aeródromo de Cláudio, também não está registrado e seu funcionamento não é autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). De acordo com Oliveira, nem é de interesse da atual administração que o seja, pois as prioridades do município seriam investimentos em saúde, educação e a restauração do balneário de águas quentes, que é o grande marco da cidade.

Guarita da pista de pouso em Montezuma (Vinicius Gomes)

Guarita da pista de pouso em Montezuma (Vinicius Gomes)

Todavia, isso não impediu que o presidenciável do PSDB a utilizasse também. Aécio Neves admitiu na última quarta-feira (30) ter usado a pista há cerca de dez anos. Mas não é isso o que se ouve em Montezuma. Diversos comerciantes locais afirmam que, assim que a obra foi concluída, Aécio, à época governador do estado, viajou até a cidade em um jato particular e depois disso seguiu em um helicóptero para a fazenda de seu pai.

O município, com seus 7,9 mil habitantes, está em 438° lugar em população entre todos os outros do estado, possui um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado e tem seu principal motor econômico atividades rurais, à semelhança de todos os municípios vizinhos. Mesmo assim, o governo do estado, através de um convênio entre o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) do estado e a prefeitura de Montezuma, realizou uma obra de pavimentação da pista de pouso local por pouco mais de 268 mil reais – um valor irrisório  segundo quem acompanhou a obra.

E é nesse ponto que a história sobre o aeroporto local fica nebulosa:  tudo teria começado com obras do ProAcesso em 2008 – programa que visava realizar inúmeras reformas na malha rodoviária no estado. A Construtora Pavisan foi a empresa que venceu a licitação para realizar as obras em um trecho do norte do estado, próximo a Montezuma. Frente ao convênio DER-Montezuma, a empresa também foi a escolhida para realizar a obra no aeroporto da cidade. Algumas questões surgem daí, a primeira sendo: por que uma pequena cidade como Montezuma, sem uma real significância econômica regional que justificasse tal empreendimento, foi agraciada com a pavimentação de uma velha pista de pouso que desde sua construção inicial era quase nunca utilizada?

A pequena Montezuma, fazendo fronteira com a Bahia (Wikipedia)

A pequena Montezuma, fazendo fronteira com a Bahia (Wikipedia)

Existem cidades muito maiores ao seu redor que – também  sem uma representatividade econômica significativa – possuíam populações maiores: Porteirinha (40 mil), Espinosa (cerca de 40 mil), São Francisco (55 mil), Bocaiuva (50 mil) e nenhuma dessas tem aeroporto algum.

Respondendo à pergunta que deveria ter sido dada  pelo então governador Aécio Neves, o governo do estado mineiro justificou recentemente  o aeródromo em Montezuma por que a cidade “está situada em uma das regiões mais pobres do estado e tem como principal eixo estratégico para o seu desenvolvimento a atividade turística a ser desenvolvida a partir do balneário de água quente”.

O suposto atrativo para um aeroporto na cidade, o balneário de águas quentes, outrora a maior atração de Montezuma, está abandonado (Vinicius Gomes)

O suposto atrativo para um aeroporto na cidade, o balneário de águas quentes, outrora a maior atração de Montezuma, está abandonado (Vinicius Gomes)

Infelizmente o governo mineiro parece estar desatualizado sobre o que acontece de verdade na pacata Montezuma. O balneário de águas quentes – aquele mesmo que o portal da cidade convida os vindos de fora a visitarem – está há cerca de dois anos fechado para obras e seu atual estado é lamentável.

A próxima questão remete ao valor um tanto quanto estranho para uma obra como a pavimentação da pista de Montezuma. De acordo com um ex-executivo da empresa que prefere não ser identificado, um mesmo trecho de asfaltamento em uma pista na rodovia custaria em torno de 1,5 milhão de reais. Mas se o valor baixo do investimento em Montezuma foi um mau negócio para a empresa a curto prazo, a Pavisan acabou fechando vários contratos com o governo mineiro durante a gestão de Aécio e seu dono, Jamil Habib Curi, veio a ocupar um cargo público, sendo contemplado com a diretoria do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI). Esse órgão governamental é responsável por atrair investimentos para o estado, um posto estratégico para um empresário por estar em posse de informações privilegiadas dentro do governo.

Uma cidade longínqua de quase 8 mil habitantes bem na divisa com a Bahia onde o pai do governador do estado possui uma fazenda (9 mil e 500 hectares = 950 campos de futebol) recebe uma pista de pouso que ninguém utiliza – obra realizada por uma empresa que aparentemente leva prejuízo em levá-la adiante, mas que mais tarde seu dono é indicado à direção de um órgão estatal. São questionamentos que surgem a partir disso e que ainda não encontram respostas convincentes.

O candidato tucano não pode terminara unilateralmente o assunto sem que todas as questões tenham sido respondidas (Reprodução)

O candidato tucano não pode terminara unilateralmente o assunto sem que todas as questões tenham sido respondidas (Reprodução)

O candidato tucano tentou encerrar o assunto de uma vez por todas, de maneira unilateral, ao assumir que usou de “maneira equivocada” ambos os aeroportos, no entanto, ainda deve explicações. Expor tudo de maneira transparente, tanto sobre os astronômicos R$ 14 milhões em Cláudio quanto os irrisórios R$ 268 mil em Montezuma, é o mínimo que se espera de alguém que almeja governar o maior país da América Latina e uma das maiores economias mundiais. Mas também é, principalmente, uma dívida moral com as populações humildes e trabalhadoras de Cláudio e Montezuma, que tiveram suas prioridades de saúde, educação e segurança, negligenciadas em nome de duas pistas de pouso que provavelmente não será utilizada por quase nenhum de seus habitantes.

Compartilhe

Deixe uma resposta