O Chile, o Peru e a direita brasileira

O Chile, o Peru e a direita brasileira

O raciocínio binário de parte da oposição brasileira é calcado na tese de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Não importa que esteja ocorrendo um desastre humanitário em Gaza. Se Dilma condena o governo de Netanyahu, logo o governo de Netanyahu só pode estar certo

Por Wagner Iglecias (*)

Já não há palavras para descrever o horror que se passa nestes dias na Faixa de Gaza. Um dos ataques a uma escola, com dezenas de vítimas, foi classificado pela ONU como “vergonha universal”. E ao que parece nada pode deter o grupo político que atualmente comanda o Estado de Israel. Não se vê, por parte das grandes potências ocidentais, atos de condenação àquilo que o governo brasileiro classificou como reação desproporcional de Tel Aviv aos ataques do Hamas. De fato, as iniciativas de censura a Israel têm partido de países de uma das regiões do mundo que até outro dia tantos chamávamos de periferia do sistema: a América Latina. Na terça-feira passada os presidentes de Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela reiteraram, durante a Cúpula do Mercosul, em Caracas, sua solidariedade à população de Gaza. No dia seguinte Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Pepe Mujica e Nicolás Maduro (o Paraguai omitiu-se) emitiram um comunicado de repúdio aos ataques de Israel contra civis palestinos e pediram imediato cessar-fogo, urgência nas investigações sobre violações do Direito Humanitário Internacional e a identificação dos responsáveis.

A iniciativa é o passo seguinte à decisão dos governos de Brasil, El Salvador e Equador de convocar para consultas seus respectivos embaixadores em Israel. Na linguagem das relações internacionais trata-se de um indicativo de reprovação de uma nação às ações de outra. Mas no rebaixamento do debate público brasileiro, que se observa tanto nos partidos políticos quanto em partes da imprensa e da sociedade, a atitude do Itamaraty foi classificada por setores da oposição ao governo Dilma como “desfeita a Israel” e “apagão da diplomacia brasileira”, entre outros termos, fazendo côro, internamente, ao governo israelense, que chamou o Brasil de “anão diplomático”.

Não a toa já se vê aqui e ali gente que nunca ou raramente disse qualquer coisa sobre o Oriente Médio colocando-se ao lado do governo de Israel. Para isso bastou, obviamente, a postura crítica do governo brasileiro. Nada de novo no front, na verdade. Vai prevalecendo, uma vez mais, o raciocínio binário de parte da oposição brasileira, calcado na tese de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Não importa que esteja ocorrendo um desastre humanitário em Gaza. Se Dilma condena o governo de Netanyahu, logo o governo de Netanyahu só pode estar certo. Simples assim.

Mas o problema é que o mundo real é um pouco mais complexo do que as fabulações de certos setores da oposição. Também na terça-feira os governos de Chile e Peru convocaram seus respectivos embaixadores em Israel para consultas. Igualzinho ao que fizeram Brasil, El Salvador e Equador na semana passada. O Chile é governado pela socialista moderada Michelle Bachelet, filha do ex-general Alberto Bachelet, que faleceu enquanto estava preso pela ditadura de Pinochet por se opor ao golpe de Estado contra o socialista Salvador Allende, ocorrido em 1973. Mas o país, embora sob o comando de uma mulher de centro-esquerda, é a economia mais aberta da América do Sul, aquela que foi o campo de provas das experiências neoliberais do Prof. Milton Friedman, da Escola de Economia de Chicago, a partir da chegada de Pinochet ao poder. E o Peru? É governado por um militar nacionalista, Ollanta Humala. Que foi eleito com um discurso de esquerda, um mix entre os estilos de Lula e Chávez, mas que faz um governo bem conservador, confiável às mineradoras transnacionais e amigo dos USA. Chile e Peru nem do Mercosul são, fazem parte da Aliança do Pacífico, iniciativa sob liderança de Washington para consolidar a influência geopolítica e econômica dos USA do Alasca à Nova Zelândia, da Patagônia à Coréia do Sul. Aliança que se tem por objetivo oculto conter a expansão da China pelo Pacífico, tem como efeito colateral tornar mais difíceis as iniciativas de integração latino-americana.

Peru e Chile são dois dos países que estão, portanto, mais à direita no espectro político latino-americano. Juntamente com a Colômbia, vira e mexe são citados pela oposição brasileira como modelo de governos que promovem um bom ambiente de negócios para empresas privadas e exemplos de bom desempenho do PIB. Seriam antípodas do rótulo “bolivariano”, que a direita tupiniquim gosta de usar não para relembrar o ideal integrador de Simón Bolívar, mas para referir-se, de forma pejorativa, aos governos latino-americanos não tão próximos à Casa Branca e que buscam um caminho alternativo de integração à economia mundial. Mas agora ambos os países fizeram como o Itamaraty, e chamaram de volta seus respectivos embaixadores em Israel. Seriam Chile e Peru anões diplomáticos também? Estarão fazendo uma desfeita a Tel Aviv? Será o apagão das diplomacias peruana e chilena, como disse nossa extrema-direita sobre a diplomacia brasileira? E agora, o que dizer? Provavelmente nada.

Fato é que em nosso país política externa nunca foi tema na boca do povo, e até hoje, pelo menos, jamais foi assunto de relevo em debate eleitoral. Os ataques à política externa do governo Dilma, assim como do governo Lula, servem muito menos para se compreender os movimentos que têm ocorrido nas relações internacionais e muito mais para se entender o projeto que certa oposição tem em relação à inserção do país no mundo contemporâneo. Serve também para entender a disputa por corações e mentes que se dará nas urnas de outubro, na qual, ao que parece, deverá valer tudo. Até mesmo condenar quem condena o desatre humanitário de Gaza.

(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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