Ferguson, Missouri: mais um capítulo de uma história de 300 anos

Ferguson, Missouri: mais um capítulo de uma história de 300 anos

A não-resolvida questão racial no país e a persistência do preconceito venenoso, nunca inteiramente apagado pelo norte-americano, ainda fazem com que grupos de ódio se proliferem pelos EUA – contando com apoio de políticos

Por Joe Conason, em Alternet | Tradução: Vinicius Gomes

A tragédia que se desenrola desde a semana passada em Ferguson, Missouri, com sua polícia militarizada e quase completamente branca, confrontando raivosos e desesperançosos manifestantes negros, não é uma história isolada para aquele lugar, ou para essa época. Muitas cidades nos EUA enfrentam os mesmos problemas de pobreza, alienação e desigualdade, como a metropolitana St. Louis, ou até mesmo pior.

Mas, por trás dessa narrativa familiar, existe uma história ainda mais profunda que reflete a não-resolvida questão racial no país – e a persistência do preconceito venenoso nunca inteiramente apagado pelo norte-americano.

Por décadas, o estado do Missouri deu cria e atraiu alguns dos mais virulentos racistas dos EUA, incluindo neonazistas e os remanescentes da outrora poderosa Ku Klux Klan (KKK). Adeptos da violência, criminalidade e extremismo religioso, esses coletivos marginalizados nunca conseguiram ter muita influência na era pós-direitos civis. Além deles, todavia, há outro grupo defensor da supremacia branca, cujos líderes se aproveitaram durante um bom tempo do patrocínio de políticos de direita republicanos.

O Conselho dos Cidadãos Conservadores (CCC), sediado em St. Louis, é um legado vivo da “resistência branca” do sul norte-americano pela segregação racial, com raízes históricas nos chamados “conselhos cidadãos”, disseminados na década de 1950 como uma subsidiária “respeitável” da KKK. Em seu site, consta que o CCC é o “único grupo ativista sério no país que luta pelos direitos dos brancos”. O que significa, mais especificamente, pregar o ódio aos negros, judeus, homossexuais, imigrantes latinos, enquanto exalta as virtudes do “jeito de vida sulista”, da Confederação e até mesmo a escravidão.

O sítio se gaba, ainda, de que o CCC é o único grupo a promover os “direitos dos brancos”, e cujas reuniões regulares contam com a presença de “inúmeros oficiais eleitos, importantes autores, apresentadores de talk-show, pastores e outras pessoas importantes” como palestrantes.

Apesar dessa “ostentação” ser exagerada, ela não é vazia. Fundado em 1985 por força do segregacionista do estado da Georgia, Lester Maddox, e de um grupo de ativistas brancos, o CCC permaneceu desconhecido para a maioria dos norte-americanos até 1998, quando a imprensa expôs suas ligações com proeminentes congressistas do Partido Republicano – fazendo com que o senador Trent Lott, do Mississippi, renunciasse. Seis anos depois, o Centro de Lei Contra Pobreza no Sul, um grupo sem fins lucrativos que monitora atividades racistas nos EUA, relatou que as reuniões do CCC recepcionaram pelo menos 38 políticos (dos âmbitos federal, estadual, municipal) – todos republicanos, exceto um democrata, embora o Comitê Nacional do Partido Republicano tivesse se posicionado contra a associação com grupos de ódio.

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Ao longo dos anos, o círculo de amigos do CCC no alto escalão passou a incluir figuras como o ex-senador John Ashcroft, do Missouri, que compartilhava muitos de seus ideias quando governador, principalmente ao se opor ao “fim da segregação forçada” nas escolas de St. Louis, ao lado de membros do próprio CCC, que estavam na bancada de diretores desses colégios. Quando o presidente George W. Bush nomeou Ashcroft como procurador-geral dos EUA, o CCC celebrou abertamente, declarando em seu jornalzinho: “Nosso Barco Chegou”.

Nos últimos tempos, de fato poucos politicos republicanos têm se mostrado dispostos a se associar publicamente aos líderes racistas do CCC. No entanto, o próprio Ashcroft tende a se encontrar secretamente com eles, evitando-os publicamente.  Quando perguntado sobre suas conexões com o grupo, durante sua nomeação em 2001, ele jurou não haver nenhum indício de racismo ou antisemitismo nas propagadas do grupo – uma afirmação muito improvável, dada a proeminência do CCC em St. Louis na época em que servia como governador.

Apesar da presença do CCC, o Missouri é, obviamente, lar de muitas pessoas boas e decentes, mas os traços malignos do grupo e a animosidade racial que ele representa se espalharam para muito longe das fronteiras do estado. O exemplo mais claro é Rush Limbaugh, o conservador “fenômeno” que cresceu ao sul de St. Louis – em Cape Girardeau – e ganhou a reputação como um agitador racial ao longo dos anos, enquanto trabalhava em um programa de rádio, e fazia tiradas satíricas do “dialeto preto”.

Em 1998, o piadista de radio defendeu o senador Lott, enquanto outros conversavdores exigiam sua renúncia por conta das conexões com o CCC. Atualmente, Limbaugh reproduz a linha do CCC quanto à morte de Michael Brown em Ferguson. Ambos sugerem, de maneira fria, que o adolescente desarmado merecia o seu destino, pois era suspeito de furto a lojas, ou então por ter fumado maconha. A vida de um jovem valeria menos que um maço de cigarros? No estado natal de Rimbaugh, a resposta é óbvia. 

(Crédito da foto de Capa: Reprodução/Liberty Voice)

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