Hortolândia: A terra onde tucano não voa

Hortolândia: A terra onde tucano não voa

Antes, renegada a “cidade dormitório” de Campinas; hoje, um dos municípios que mais cresce na região. O que acontece com o único lugar do estado de São Paulo em que o PSDB não venceu? 

Por Ivan Longo

Crise hídrica, esquema de corrupção e inércia histórica do transporte sobre trilhos, obras inacabadas, falta de segurança, violência policial e descaso principalmente para com a população pobre e periférica. Nada disso pareceu um empecilho para que a população paulista reelegesse Geraldo Alckmin pela quarta vez. Pelo bem ou pelo mal, Alckmin entrou para a história ao ganhar em quase 100% municípios. Quase. Se não fosse Hortolândia, única das 645 cidades de São Paulo em que o tucano não foi o mais votado.

Em meio a vitória avassaladora de tucanos e um considerável aumento de parlamentares conservadores na assembleia estadual, a cidade vizinha de Campinas, no interior da capital, foi na contramão do estado e deu 38,60% dos votos para o candidato petista Alexandre Padilha, derrotando o tucano. Eduardo Suplicy, candidato ao Senado, e Dilma Rousseff, à presidência, também foram vitoriosos na cidade.

Esse sucesso petista no município não vem de hoje. Desde 2005, quando foi eleito o primeiro prefeito do PT  na cidade – Ângelo Perugini – que Hortolândia vota, majoritariamente, em candidatos do Partido dos Trabalhadores.

“É uma cidade de trabalhadores”, admite Ananias José Barbosa, líder do PSDB na câmara dos vereadores de Hortolândia.

Mas o que faz do município, com pouco mais de 200 mil habitantes, ser o único do estado a escolher o PT?

O legado petista 

“Votei no PT de ponta a ponta”, conta Valmiro, pedreiro, de 56 anos, morador de Hortolândia. Essa é a resposta mais comum na cidade.

Um conjunto de fatores ajuda a compreender os motivos pelos quais o eleitor hortolandense tende a votar nos candidatos petistas. O primeiro é a própria origem da cidade, que conquistou, em 1991, a emancipação da cidade vizinha, Sumaré, e que, até então, era considerada mera periferia ou cidade dormitório de Campinas, tornando-se, assim, uma “cidade de trabalhadores”, conforme apontado pelo vereador Ananias – não havia no município nenhuma elite ou setor de classe média consolidado.

“Teve um processo muito intenso de crescimento. Tanto da população, que hoje passa dos 200 mil habitantes, quanto do desenvolvimento econômico. Mas, acima de tudo, há na cidade um perfil fortemente associado ainda à periferia. Então, praticamente não tinha uma classe média no centro da cidade. Nem centro da cidade tinha. Isso tudo foi construído nos últimos dez ou vinte anos, mas com muito mais intensidade a partir do governo Lula”, analisa o sociólogo da Unicamp, Valeriano Costa.

“Então, existe um crescimento muito forte associado a uma certa hegemonia do PT na região, exatamente por que tinha esse perfil de periferia e não tinha um setor de classe média consolidado na cidade. Em todo o estado a chamada ‘nova classe média’, que surgiu com o governo Lula, começou a migrar para o Aécio ou para a Marina e se afastar do PT. Em Hortolândia não tinha essa classe média e isso facilitou uma hegemonia do PT associado a um surto de crescimento nos últimos anos”, completa.

Outro aspecto é que as gestões petistas trouxeram coisas básicas que até então eram renegadas à cidade, como asfalto, escolas, rede de esgoto e até mesmo participação política. Eleitores de Hortolândia que votaram em Alckmin ou Aécio, inclusive, não deixam de reconhecer os avanços trazidos por Ângelo Perugini e que traz agora o atual prefeito Antônio Meira.

“Voto no Aécio porque não gosto do PT. Mas aqui em Hortolândia é diferente, eles fizeram um bom trabalho. A cidade teve um alto índice de crescimento, muita multinacional instalada aqui, a geração de emprego aumentou…”, sustenta o empresário Adriano Barbieri, de 33 anos.

Antes sem nem rua asfaltada, hoje Hortolândia tem intensa concentração de empresas e comércio. (Foto: Ivan Longo)

Antes sem nem rua asfaltada, hoje Hortolândia tem intensa concentração de empresas e comércio. (Foto: Ivan Longo)

 

Em relação a Alckmin, a população da cidade não tece muitas críticas. O sucesso do PT está muito mais ligado aos feitos do partido do que a uma desqualificação do governador em si.

“A força do Alckmin vem dessa incapacidade das pessoas em criticarem ele. Pelo mal ou pelo bem ele é uma figura que não cola nada contra. Aquela figura bastante simplória mesmo, típico do interior de São Paulo. Isso é a força dele. Ele tem baixíssima probabilidade fazer carreira fora do estado de São Paulo. Dificilmente ganharia uma eleição nacional. Mas aqui no estado ele é o exemplo perfeito da classe média mais tradicional, e aí realmente não tem um espaço muito forte para críticas contra ele, a não ser da pouca relevância dele enquanto político”, afirma Costa. O pesquisador da Unicamp acrescenta que o PT trabalha com uma perspectiva social que é mais adequada à realidade da cidade.

“As políticas do PSDB são muito horizontais no sentido de melhorias gerais na infraestrutura, mas nenhuma focada claramente na melhoria dos mais pobres, nada muito progressivo do ponto de vista de política, como o PT faz. E a prefeitura de Hortolândia, na época do PT, surfou na onda do crescimento e fez muitas políticas além das políticas de infraestrutura: postos de saúde, educação de mais qualidade e também uma politica de atração de empresas muito fortes”, analisa.

Participação popular, a fórmula de uma boa gestão

Para Ana Perugini, deputada federal petista eleita com mais de 50% dos votos na cidade, a escolha da população pelo PT se deve ao próprio histórico de lutas da cidade e ao fato de o partido ter abraçado essas causas quando assumiu o poder. Moradora de Hortolândia há mais de 30 anos, Perugini acredita que a participação das pessoas no processo político da cidade seja a fórmula do sucesso do PT.

“Nós conhecemos nossa história. O PT assumiu a administração no ano de 2005 e fez uma revolução na cidade. Tudo o que nós construímos na cidade antes do PT foi com movimento social e participação popular. Essa história é muito viva no nosso cotidiano hoje. Tudo o que conquistamos aqui na cidade foi a partir de luta. Nós lutamos muito pra que tivéssemos esgoto coletado e  tratado, lutamos para trazer o desenvolvimento da indústria e do comércio. A população sempre acompanhou e o PT esteve ao lado dela para chegar onde chegamos. Deixamos de ser o ‘patinho feio’ da região para sermos referência em administração”, afirma.

O processo de participação popular na gestão da cidade começou quando Ângelo Perugini assumiu, em 2005. Na época, ele implantou, pela primeira vez no município, o Orçamento Participativo, programa de consulta popular que colhe sugestões da população para a definição do orçamento anual da prefeitura. O atual prefeito, Antonio Meira, avançou ainda mais: substituiu o OP pelo programa Prefeitura na Comunidade, em que o primeiro escalão da gestão municipal, incluindo o prefeito, visita quinzenalmente os bairros da cidade para coletar sugestões e reclamações, além de, eventualmente, esclarecer para as pessoas dúvidas a respeito do funcionamento do poder público. 

O prefeito Antônio Meira (PT) em reunião com os moradores da cidade. (Foto: Rede Brasil Atual)

O prefeito Antônio Meira (PT) em reunião com os moradores da cidade. (Foto: Rede Brasil Atual)

A deputada Ana Perugini também utiliza do mesmo método. Ao invés de fazer comícios ou carreatas com som, prefere reunir eleitores e visitar os bairros de casa em casa para ouvir as demandas e esclarecer dúvidas. “Isso, sem dúvidas, dá um ar político muito forte para a cidade. Além disso, a mudança foi muito clara e muito rápida nos últimos anos”, avalia o sociólogo Valeriano Costa.

Em uma curta caminhada pelo centro da cidade é possível perceber como o poder público se esforça para estar presente. Em somente um quarteirão, é possível avistar quatro equipamentos públicos criados nas últimas gestões. Um centro de acolhida e referência para a “melhor idade”, a “Casa do Conselho” e o “Centro de Economia Solidária”, ambos da secretaria de Desenvolvimento Social, além do “Centro de Formação dos Profissionais em Educação Paulo Freire”.

Crescimento visível 

A cidade que antes funcionava apenas como dormitório de trabalhadores de Campinas está se transformando. Há 15 anos, não havia ruas asfaltadas e nem avenida principal, nem nada. Há 20 anos, apenas um banco Bradesco sinalizava um projeto de “centro” do município.

A partir de 2005 Hortolândia passou a receber, no entanto, atenções básicas e, atualmente, é a cidade que mais recebe investimentos e empresas na região. A mesma cidade que há pouco tempo nem coleta de esgoto tinha, hoje abriga centenas de empresas e multinacionais, como a IBM, e tem um índice de desenvolvimento humano de 0,756, faixa considerada alta pela ONU. Em dez anos, a taxa de desemprego no município caiu de 17% para apenas 2%, enquanto a coleta de esgoto, que antes era inexistente, passou a cobrir 85% da cidade.

Hortolândia recebeu 3 mil unidades de moradias populares pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida. Antes das administrações petistas, a cidade contava com apenas 3 UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Hoje são já são 17 que foram, inclusive, contempladas com a vinda de 27 profissionais do programa, também federal, Mais Médicos. 

“Eu posso falar que ele [o prefeito] olha pelo povo por mim mesma. Eu moro no Rosolém [bairro periférico da cidade] e lá aumentaram os postos de saúde. Quando você agenda consulta, tem clínicos, não demora, é tudo muito rápido e eficiente. A gente precisa disso”, afirma Maria Aparecida Girardi, aposentada de 63 anos.

Em alguns lugares da cidade, ainda é possível perceber ruas que ainda não receberam asfalto, herança de uma cidade ignorada. (Foto: Ivan Longo)

Em alguns lugares da cidade, ainda é possível perceber ruas que ainda não receberam asfalto, herança de uma cidade ignorada. (Foto: Ivan Longo)

Serviço público: um dever do governo; não para o PSDB 

“O Alckmin aqui não fez nada que preste. Voto no Perugini e no PT por que eles fazem as coisas por nós, né. Onde eu moro, no Jardim Amanda, por exemplo, foi ele quem deu asfalto pra gente.  E de graça, no bairro inteiro!”, afirmou o pedreiro Valmiro, citado no início da reportagem. Sua fala reflete um pouco o que o líder da bancada do PSDB na cidade, o vereador Ananias, julga ser o principal motivo pelo sucesso do PT na cidade: o perfil do eleitor.

Para o tucano, uma população majoritariamente pobre e trabalhadora tende a votar nos candidatos petistas por se identificarem mais com o tipo de política do partido, que investe em atenções básicas para aqueles que mais necessitam. Em suma, o parlamentar segue o discurso de boa parte dos tucanos que julgam o eleitorado petista como um segmento que necessita do Estado, como se isso fosse algo ruim ou se não fosse propriamente o seu papel, principalmente em regiões mais carentes.

“A cidade é recém emancipada. Então recebemos aqui, na década de 70, pessoas de diversas partes do país. Aí chegavam aqui por que tinha o terreno mais barato. Eram pessoas mais pobres e esse tipo de perfil ainda se identifica com o PT. 80% da população economicamente ativa de Hortolândia ganha menos que 5 salários mínimos. É uma população trabalhadora. Diria que é por que é um perfil de eleitor que depende de serviços públicos. Aí vem a resposta do governo para essa demanda e a população visualiza mais segurança na figura do prefeito local”, diz.

Para Valeriano Costa, esse tipo de visão se identifica muito com o restante do estado de São Paulo, que tem o eleitorado, como foi possível perceber nessas eleições, majoritariamente tucano. “Não é uma questão de nordestinos versus sulistas, como tem sido possível observar nas redes nos últimos tempos. É uma questão de classes, de identificação de classes. Então, o problema aí é que o perfil do Alckmin, Serra, Aécio é muito mais próximo desse perfil da classe média que a própria população de São Paulo espelha, sustentada principalmente por esse discurso do próprio Alckmin, de que ‘eu não dependo do estado’, que ‘eu me construí por conta própria’, que eu ‘não preciso de politicas sociais'”, afirma.

“Essa é a diferença entre o PT e o PSDB. Enquanto o PSDB trabalha com medidas planas, iguais para todos independente das condições sociais, o PT foca nos mais pobres – é o que chamavam, nos anos 80, de ‘inversão de prioridades’. É isso que o PT faz. Em Hortolândia, as pessoas ascenderam mas foram criadas condições para que elas não se esquecessem de quem que fez isso e quem faz isso.  É uma marca bem diferente e presente na cidade”, completa.

Foto de capa: Wikimedia Commons 

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