O racismo em números: o que o caso Michael Brown diz sobre os EUA

O racismo em números: o que o caso Michael Brown diz sobre os EUA

Indicadores certificam que a Justiça estadunidense não favorece os afrodescendentes. A propósito da impunidade no assassinato de Brown, confira uma lista de episódios com conotação racista e de dados que mostram porque o caso está longe de ser acidental

Por TeleSUR/JO-FCH

O Grande Júri determinou que os oficiais implicados no caso do assassinato de Michael Brown não fossem indiciados, e a TeleSur põe à disposição alguns dados que ajudam a compreender, não justificar, a decisão. Tenhamos em conta a seguinte informação: os afrodescendentes nos Estados Unidos representam somente 13% do total populacional.

Racismo em Ferguson?

O condado de St. Louis inclui 90 municípios que circundam a cidade de St. Louis. Os afro-americanos se concentram no norte, o centro é de maioria branca. A força policial de Ferguson tem 50 oficiais brancos e três negros.

Para obter recursos, muitos destes municípios dependem das multas de trânsito. Tanto as forças do condado quanto as municipais detêm de forma desproporcional motoristas negros. Um informe recente da ArchCity Defender afirma que 86% dos veículos parados em Ferguson são conduzidos por um negro, sendo que somente 67% dos 21.203 mil residentes da cidade são afro-americanos.

Entre 2004 e 2014 foram registradas 14 ocorrências fatais com armas de fogo cometidas por agentes da polícia do Condado de St. Louis; segundo dados compilados por David Klinger, criminólogo da Universidade do Missouri. A maioria destas mortes não foi investigada devido ao fato de terem sido consideradas “assuntos internos da política ou do escritório da promotoria”. Em apenas quatro ocasiões houve investigação, e três dos casos foram arquivados, conforme informação do escritório do promotor McCulloch. O quarto é o caso de Michel Brown.

Segundo as estatísticas da cidade de St. Louis, 39 pessoas foram assassinadas por agentes policiais entre 2003 e 2012. De acordo com a promotoria, só um agente foi acusado, e este oficial foi absolvido.

De acordo com Robert Goldman, especialista em procedimentos penais e Direito Cosntitucional da Faculdade de Direito da Universidade de St. Louis, entrevistado pelo Mother Jones, uma lei do Missouri de longa data dá à polícia amplas faculdades para disparar e matar se “razoavelmente consideram” que o acusado “cometeu o tentou cometer um delito grave”, e o uso da força é imprescindível para proceder à sua prisão. Ainda que a norma seja inconstitucional, encontrar um tribunal do júri que assim a determine é algo complexo, e caso se trate de um júri de maioria branca que julga um afro-americano, a dificuldade aumenta.

A Justiça dos EUA é racista?

28,4% das prisões realizadas são de afrodescendentes. Um negro tem aproximadamente seis vezes mais possibilidade de acabar em uma prisão do que um branco, e 2,5 vezes mais do que um latino.

Mais de 36% dos presos são negros; 33%, brancos (63% da população) e 22%, latinos (17%). 37% dos presos por consumo de entorpecentes são negros, ainda que eles representem 15% dos consumidores dos Estados Unidos.

2,5 milhões de pessoas se encontram privadas de liberdade nos EUA, 41% dos presos são afro-americanos. No caso das prisões federais, este índice alcança 44%. Os afro-americanos representam 59% dos condenados e são 74% dos que recebem como sentença a prisão perpétua.

Segundo o defensor de direitos civis e fundador da Organização Justiça Igualitária diante da Lei, Alec Karakatsanis, “os Estados Unidos encarceram negros a uma razão seis vezes mais alta que a África dos Sul nos tempos do apartheid.”

Michelle Alexander, professora e especialistas no tema do racismo sistêmico contemporâneo, assinala que atualmente há mais homens afro-americanos nos cárceres dos EUA, ou em liberdade condicional, que aqueles que estavam escravizados em 1850.

“Javious Cotton, negro do Mississipi, não pode votar porque está em liberdade condicional e com a etiqueta de delinquente convicto; seu pai não pode fazê-lo também por não pagar impostos municipais e por não ser alfabetizado; seu avô sofreu com as ameaças da Ku Klux Klan; seu bisavô foi morto pelo Klan quando tentava votar; e seu tataravô não teve sequer essa oportunidade, pois era um escravo.”

Um promotor imparcial para o caso Brown?

Alguns dados podem responder a esta pergunta:

O promotor do condado de San Luis, Robert McCulloch, se reelegeu para o cargo por seis vezes desde 1991. Em 1964, perdeu seu pai, um oficial da polícia, morto por um afro-americano.

A mãe do promotor trabalhou por várias décadas como secretária do escritório de Homicídios do condado de St. Luis. Um de seus tios, um irmão e um primo foram funcionários da instituição.

O hoje promotor também foi policial, mas por problemas de saúde não pode cumprir seu desejo: “Não pude me tornar um agente policial, então ser promotor do condado é a segunda melhor opção”.

McCulloch esteve envolvido em vários casos nos quais os acusados, policiais, foram absolvidos. Um exemplo é o caso “Jack in the Box”, ocorrido em 2001, durante o qual dois agentes infiltrados foram acusados de assassinar “narcotraficantes”. Os agentes foram absolvidos sob a justificativa de que os falecidos haviam tentado atropelá-los. O Grande Júri foi quem tomou a decisão. Uma investigação federal posterior demonstrou que o automóvel dos supostos narcotraficantes não havia se movido na direção dos policiais.

Segundo o Escritório de Estatística Oficiais, os promotores estadunidenses processaram 162 mil casos em 2010, dos quais somente 11% tiveram o mesmo destino do caso Brown, com decisão do Grande Júri. Ou seja, menos de 10%. Por isso, a convocação feita ao Grande Júri por McCulloch encontrou grande rejeição e despertou suspeitas.

Estes dados sensíveis podem complementar as declarações do oficial Darren Wilson, responsável por ter efetuado os disparos, ao Grande Júri. Declarações que “justificam” o crime que vitimou o jovem Brown, uma verdadeira afornta contra a humanidade.

“A única maneira como posso descrevê-lo, é que parecia como um demônio, isso mostra com que raiva ele olhava” (Página 225 do expediente).

Outro detalhe: os investigadores não tiraram fotos da cena do crime, devido à bateria que havia acabado (página 67 do expediente).

Malcolm X afirmava que “o homem negro não tem que ir à Corte para ser livre. O Tio Sam deve ser levado diante da Corte e ser obrigado a explicar porque o homem negro não é livre em uma dita ‘sociedade livre’”.

Fontes: Newsweek, Mother Jones, teleSUR.

(Foto de capa: Reprodução)

Compartilhe

Deixe uma resposta