Quilombo

por Dennis de Oliveira

12 de fevereiro de 2019, 15h25

Diretora da Vogue expressa a branquitude como lugar de privilégios

Sobre a festa de Donata Meirelles, Dennis de Oliveira diz que “basta ligar os pontos e verificar que todos os sinais indicam para uma condição de subalternidade das mulheres negras ante aos convidados brancos”

Foto: Reprodução/Instagram

Donata Meirelles, diretora da Vogue-Brasil, comemorou seu aniversário em uma festa em que pessoas brancas e negras representavam sinhás e escravizadas. A glamourização de um período bárbaro que foi a escravidão de africanos no Brasil rendeu inúmeras críticas à socialite. Diante disso, ela veio a público pedir “desculpas” pela “impressão diferente” que a festa tenha causado. Segundo Donata Meirelles, as mulheres negras não estavam vestidas de “mucamas”, mas de “baianas de festa” e a cadeira em que ela estava sentada não era de Sinhá e, sim, de “rainha do candomblé”.

John Thompson, professor da Universidade de Cambridge, na sua obra “Ideologia e Cultura Moderna”, defende que as expressões culturais e simbólicas sempre têm um aspecto intencional. E, por aspecto intencional, Thompson define como o que é percebido pelos receptores destas expressões simbólicas. Isto porque as expressões simbólicas se realizam em códigos que são socialmente compartilhados.

Voltando à festa, as mulheres negras que Donata Meirelles diz estarem vestidas de “baianas de festa” (não se sabe bem o que é isso) eram as recepcionistas dos convidados. E outras mulheres negras ficavam abanando nos tronos em que os convidados sentavam para tirar fotos. Basta ligar os pontos e verificar que todos os sinais indicam para uma condição de subalternidade das mulheres negras ante aos convidados brancos. Isto mais outros elementos que vinculam ao período do Brasil Colônia levam à percepção de que se tratava de uma referência ao período da escravização.

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E, por ser uma festa, esse momento histórico foi simulado em uma perspectiva glamourizada, festiva.

O que está subjacente na mentalidade de brancos (e alguns negros) que saíram em defesa da socialite é o pernicioso conceito de “equilíbrio de antagonismos” de Gilberto Freyre. Estranhamente, esse conceito do pensamento de Freyre é pouco criticado, apesar de ser central na obra “Casa Grande e Senzala” – e não, como muitos pensam, a ideia de “democracia racial” que não aparece em nenhum momento nessa obra de Freyre.

Por antagonismos em equilíbrio, Freyre pensa que as contradições de raça e classe existentes na sociedade colonial eram “equilibrados” nas relações privadas existentes no lócus da família patriarcal, expressos simbolicamente no compartilhamento de espaços na Casa Grande de pessoas da Senzala (como as mucamas e outros escravizados e escravizadas que trabalhavam na Casa Grande). A convivência em espaços, produto de singularidades histórico-culturais dos colonizadores portugueses, segundo Freyre, criava esse equilíbrio de antagonismos em relações privadas. Importante lembrar que pensadores liberais europeus também falavam de equilíbrio de antagonismos de classe, mas nas instituições parlamentares (daí, que esse equilíbrio ocorria na dimensão da esfera pública e não privada).

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Daí, então, que a crítica que se pode fazer a este episódio é muito nítida: a festa expressou, sim, o RACISMO de Donata Meirelles. Não importa que parte da festa foi feita no terreiro de Gantois, que teve a presença do Caetano e Preta Gil ou que ela dirige uma revista que internacionalmente se mostra como “moderninha” ou “defensora da diversidade”. O racismo de Donata Meirelles decorre da construção da sua identidade branca a partir de uma branquitude como lugar de privilégios.

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