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14 de janeiro de 2019, 23h02

Dois poetas cubanos falam sobre o atual estado da poesia na ilha

Na coluna de Tomaz Amorim, os editores da antologia “Nocaute: 6 poetas/Cuba/Hoje” entrevistam os poetas cubanas José Ramón Sánchez e Oscar Cruz sobre a situação da poesia contemporânea em Cuba e suas relações, sempre intensas, com a política

Boa parte do interesse dos brasileiros por Cuba sempre teve fundo político. Seja pelo seu já alegórico passado revolucionário, seja pelos desdobramentos dessa mesma revolução no cotidiano dos cubanos. A defesa inspirada do modelo social ali em curso ou mesmo sua negação veemente quase sempre vêm acompanhadas de distorções e desconhecimento, sobretudo no que se refere à produção cultural da ilha. Na tentativa de colocar os brasileiros em contato direto uma parcela expressiva da poesia cubana contemporânea – não necessariamente alinhada às vozes oficiais de instituições literárias e governamentais – as Edições Jabuticaba lançaram em 2017 a antologia “Nocaute: 6 poetas/Cuba/Hoje”, organizada por José Ramón Sanchez e traduzida por Rodrigo Alves do Nascimento e Mariana Ruggieri. Boa parte dos poemas ali reunidos apresenta uma outra faceta do cotidiano da ilha: vozes experimentais que misturam banalidade cotidiana e violência institucional, lirismo arredio, erotismo e distopia. A fim de dar continuidade ao diálogo, será também publicada em Cuba uma antologia de poesia contemporânea brasileira, a ser lançada na Feira do Livro de Havana, que reúne nomes como Adelaide Ivánova, Fabiano Calixto, Marília Garcia, Tarso de Melo e outros(as). Abaixo, segue entrevista inédita relizada por Marcelo Lotufo e Rodrigo Nascimento com dois dos poetas presentes na antologia: José Ramón Sánchez e Oscar Cruz. Nela, os poetas falam sobre a atual geração de poetas da ilha, seu trabalho na revista literária La Noria, as recentes mudanças políticas no país e suas referências literárias brasileiras. Confira:

Marcelo Lotufo e Rodrigo Nascimento: Pensamos que poderíamos começar falando da sua geração em Cuba. Em Nocaute, a antologia que publicamos no Brasil, há poetas muito diversos entre si; mas parece haver também uma vontade de olhar e reler a história (política e literária) da ilha. Você poderia falar um pouco sobre isso? Há uma vontade de se distanciar da história canônica da ilha para escrever sobre o cotidiano e outros temas? José Ramón, por exemplo, fala muito da prisão americana de Guantánamo; tem também a poesia da Legna, que está nos EUA…

José Ramón Sánchez Leyva: Para mim, uma espécie de “poeta do povo”, ler a história político-literária é uma obrigação. Que “poeta do povo” pode ler e dedicar-se, ao mesmo tempo, às ciências duras e puras: matemática, física, astronomia etc? Qualquer um lê uma “Rapsódia para uma mula” ou algum comentário sobre os heróis da pátria. Não me sinto membro de nenhuma geração, menos ainda com a estampa que me dão de “Geração 0”. Não escrevo em acordo com nada. Nocaute é o que tinha a meu alcance no momento. A US Naval Base é uma medida oportunista que tive para que olhassem para mim. No começo eu queria ser um bom poeta, mas ninguém me notava; mas se alguém disser um par de bobagens político-sexuais, parece que assim você existe. Até as pessoas a quem mandei meus melhores poemas pré-Gitmo[1] sequer me respondiam os e-mails. E com o Gitmo eles dizem que sou “inteligente”.

Oscar Cruz: Somos três ou quatro gatos pingados, cada um com sua dinâmica –  o resto é moleza. Embuste. Colocamos em circulação uma espécie de “Neo-grotesco oriental” nas primeiras tiragens de La Noria e também nos nossos livros. Depois disso, logo chegaram e se atracaram sujeitos cheios de truques: “eu também, mas (…)”. Eles tiraram uma boa quantidade de leite dessa vaca que é a instituição literária cubana. Não me interessa ser classificado sob qualquer rótulo geracional. Se um poema, um livro ou um sujeito que escreve poemas e livros não pode se defender por si mesmo, então não tem sentido publicarmos nossas coisas. A sede de falsidade comunitária e coletiva nos passa continuamente da conta. Nos enterra. Em matéria de poesia não existe comunidade possível, salvo a comunidade dos bestas.

ML e RN: Também seria interessante falar um pouco da revista La Noria e de como é dirigir uma revista de poesia em Cuba. Quem são os leitores da poesia contemporânea cubana? Quais os diálogos que buscam com a revista? Vocês têm publicado escritores contemporâneos de fora de Cuba? A publicação é em papel? No Brasil, agora, as revistas literárias circularam quase que totalmente online. É mais econômico, mas também menos agradável (tanto para fazer a revista como para ler depois…).

JR: La Noria não se cala. Embora mude de nome, La Noria continuará: Forever. La Noria é lida procurando ansiosamente seus prazeres e seus defeitos. Nós temos publicado muitos escritores estrangeiros, sem eles La Noria seria uma coisa coxa. A revista em papel é uma cortesia do Instituto Cubano del Libro. E sim, é legal tocar no papel, dar para alguém: presentear, mesmo sendo letras em um pedaço de papel, é sempre algo bom.

OC: Editar uma revista literária como La Noria é um processo mais que complexo. Temos conseguido pôr em circulação 14 números desde o final de 2009. Superamos a mesquinhez, a censura, a austeridade, as pressões ideológicas de todo o tipo, mas os resultados estão aí. Sempre sustentamos a ideia de publicar autores contemporâneos vivos de qualquer parte do mundo. Fazer circular um transatlântico poético. Cada número pode ser potencialmente o último. Não guardamos munição. A única condição tem sido e será a qualidade dos projetos. Até agora não conseguimos fazer um site para a publicação, dada a nossa péssima e instável conexão; sem contar – também -, com o orçamento para fazê-lo. Nesse sentido, contamos com a colaboração do site In(cuba)dora.com, do nosso amigo Carlos “El Checo” Aguilera. Ali pode ser feito o download de todos os pdfs.

ML e RN: As mudanças recentes na política cubana têm tido alguma importância para os escritores na ilha? Têm tido alguma influência na poesia escrita na ilha nos últimos anos?

JR: Oh, Yeah. As mudanças nos aquecem. Imagina que você é um arremessador e que você chegue com a sua equipe no final e estão empatados. Seu braço de arremesso já está ferrado, mais quente que escapamento de moto. Há dois outs, as bases estão cheias e o quarto deles está no home. O treinador da sua equipe não sabe o que fazer: se o tira ou o deixa por conta de seu braço. O público grita: vão te chamar ou não, seu corno? Se não te chamam, invente o seu jogo e faça o que tem que ser feito.

OC: Que mudanças?

ML e RN: Sobre a poesia brasileira: o que você conhecia antes de começarmos este diálogo? Como chega a poesia brasileira em Cuba? É possível lê-la pela internet?

JR: Eu conheço tão poucos que só um poeta brasileiro me impactou verdadeiramente: Ferreira Gullar e seu Poema Sujo. Creio que a poesia brasileira nunca foi o prato principal na mesa cubana de leituras. A poesia brasileira sempre está antecedida por muitos poetas de outros países e línguas. O Brasil é um gigante invisível da América do Sul. Por isso na La Noria 13, colocamos um tridente do jogo bonito na capa.

OC: Em Cuba tem-se publicado poesia brasileira com relativa frequência nesses últimos anos. De Drummond a Ferreira Gullar até os concretistas. O último que circulou foi a antologia traduzida por Ricardo Alberto Pérez: Catorce poetas brasileños (Ed. Arte y Literatura, 2004). Vários poetas cubanos têm se dedicado à tradução do português. Veja os casos de Mario Marínez Sobrinho (já falecido), Idalia Morejón Arnaiz, Pedro Marqués de Armas e o próprio Ricardo Alberto Pérez, entre outros. La Selección/ once poetas brasileños hoy, que deve aparecer pela Ediciones Santiago, em 2019, será uma atualização desse registro já existente. Traz autores nascidos a partir de 1970. Oferecerá uma panorâmica das principais tendências estéticas que lutam right now no Brasil para ter espaço, o que mostrará como esses autores assimilam e processam a tradição poética do seu país.

ML e RN: Qual é a impressão que há da seleção que fizemos para a revista La Noria e também para a antologia La Selección? Apesar de serem contextos diferentes, há alguma relação de geração entre a jovem poesia cubana e a jovem poesia brasileira? Tem havido interesses estéticos e temáticos em comum?

JR: Quando terminamos de apresentar em Santiago de Cuba o número 13 da La Noria, alguém foi me apertar a mão; eu tinha acabado de ler um poema de cada um dos três poetas brasileiros, “Un paisaje de Sao Paulo”, de Fabiano Calixto, “El broche”, de Adelaide Ivánova, e “El mundo”, de Tarso de Melo. Dias depois me disseram que ovacionaram muito os poetas brasileiros da 13.

OC: Uma das pretensões dessa amostra é a inclusão de poetas mulheres. Em Cuba tem sido quase nula a publicação de poesia brasileira feita por mulheres e, as que aparecem em La Selección, têm um discurso e uma força muito interessante. Há pontos de contato evidentes com a poesia cubana mais recente: uma visão crítica sobre a realidade socioeconômica e política do país; uma vontade cívica, transgressora, com doses de cinismo e humor; e, na forma, articulam-se determinadas buscas experimentais no nível da linguagem e com a própria arquitetura e disposição do texto na página.

ML e RN: Para terminar, o que está lendo esta semana?

JR: Agora mesmo vou ler a lista dos mortos em um acidente aéreo em La Habana. Nem tudo anda bem. Em Cuba, uma parte não tão pequena do que chamam “o povo” é criminosa ou simpatizante de criminosos. O que fazer? Essas pessoas parecem estar imunizadas pelo álibi de serem pobres, e como o marxismo-leninismo se declara o defensor universal dos pobres, as autoridades marxistas-leninistas os permitem fazer maravilhas (por exemplo, colocar grandes auto-falantes com o ruído que eles chamam de “música” em pleno luto nacional pelas vítimas do acidente aéreo do 18 M), desde que não atentem (esses delinquentes) contra o poder. Resultado: os que também são pobres e não querem compactuar com essas pessoas, têm de suportar seus vários abusos, que aqui chamam eufemisticamente de “indisciplinas sociais”. Uma espécie de guerra cotidiana de baixa intensidade, invisível àqueles que não a sofrem. Aqui nós aprendemos sobre o assédio contra Lula e seus seguidores, talvez vocês no Brasil não suspeitem de nada disso. Parece que “o mal” não vem apenas dos ricos e poderosos; há pessoas pobres que são tão merdas como eles. Essas “indisciplinas sociais” são ataques diários que o povo faz contra o povo: roubo, fraude, violência, crueldade aos animais, e todo o tipo de ofensas e maus-tratos. Esse desastre parece abundante no povo subdesenvolvido e “alegre” como o cubano, e é possível pela indolência institucional, já que as “autoridades” se passam por distraídas. Derrubaram Batista, derrotaram os mercenários da Playa Girón e o governo racista Sul-Africano, mas não podem com esse bando de lixo, a imensa maioria nascida depois do triunfo da Revolução e que está comendo este país por uma perna.

OC: George Steiner: Gramáticas de la creación (edição brasileira: Gramáticas da criação, Editora Globo, 2001), tradução de Adoni Alonso e Camen Galán Rodríguez (formato EPUB).

 

[1] GITMO é a forma pela qual é conhecida a Base Naval da Baía de Guantánamo

(Tradução do espanhol: Joaquim Mendes)