16 de julho de 2018, 07h59

Duas ou três coisas que todo militante deve lembrar sobre a arte da oratória antes de falar em público

Não acreditamos que o rosto mais fotogênico seja o melhor para a representação dos interesses dos trabalhadores. Nossos critérios são diferentes da vulgaridade da política institucional eleitoral.

É possível que na luta de classes contra o capitalismo todos os meios sejam permitidos? A mentira, a falsificação, a traição, o assassinato, “et cetera”? Nós respondemos: não são permitidos senão os meios que aumentam a coesão do proletariado, infundindo em sua alma um ódio inextinguível de opressão, ensinando-o a desprezar a moralidade oficial (…) e aumentam sua coragem (…) Nem todos os meios são permitidos. Não é tolerável lançar uma parte da classe trabalhadora contra outra; ou diminuir a confiança das massas em si e em sua organização, ou a adoração de “líderes”. Acima de tudo, irremediavelmente, a moralidade revolucionária condena o servilismo à burguesia e a soberba contra os trabalhadores.

Leon Trotsky

O domínio de uma técnica de oratória é uma forma de poder. Um poder de influenciar os outros, de vencer na luta de ideias. Quando um conhecimento é usado a serviço de uma causa miserável, ele se transforma no contrário do que deveria ser. Deixa de ter uma função emancipadora, e passa a ter uma função alienadora, opressora.

A vida é uma luta. Lutas exigem ferramentas. A oratória surge na experiência social humana como recurso ao serviço da agregação das pessoas, da união pela sobrevivência e, também, para a solução de conflitos. A arte da eloquência, o domínio do discurso, a clareza de expressão, a força dos argumentos, a intensidade do compromisso são algumas de suas características. A oratória não é uma ciência. É uma técnica. Ao surgir, há muitas dezenas de milhares de anos, estava a serviço da construção de coletivos estáveis em sociedades igualitárias. A oratória é uma forma de comunicação. Ela une a horda humana em sociedades de caçadores-coletores, ela oferece coesão à tribo que se organiza pelo parentesco, e precisa lutar contra a penúria imposta pela dificuldade de domínio sobre a natureza, ou contra outros grupos que são rivais. A oratória favorece a cooperação.

Os gregos chegaram a um momento de excelência da oratória há 2500 anos. A oratória nessa época se especializa em discurso político, e encontra expressão artística no teatro. Alguns séculos mais tarde, quando do apogeu de Roma, se desenvolve toda uma escola de oratória construída na tradição jurídica, naquilo que chamamos de campo do Direito.

Na história da civilização, ao progresso material se associa a elevação do nível cultural médio da sociedade, e a oratória também se amplia e se diversifica cada vez mais. No mundo em que vivemos há oratórias para tudo. Existem cursos de oratória para a formação de padres e pastores religiosos, um tipo de discurso ultraespecializado, em que os brasileiros formaram uma escola. Outros para vendas, por exemplo, oferecidos pelas grandes corporações. Há uma oratória destinada a executivos com o objetivo de motivar os funcionários, para galvanizar a área em que atuam. Há uma oratória para o radio, outra para a televisão. Há uma oratória para a educação e, dentro dela, diversas variantes, cada uma como os seus vieses. Há o discurso acadêmico, por exemplo, não poucas vezes, um pouco, hermético. Ou bizarro.

Cada época introduz transformações na oratória. Em primeiro lugar, porque o discurso oral é uma forma de expressão que tem, também, um caráter de classe. O orador da escola burguesa clássica foi o bacharel de Direito com os divertidos vícios da citações em latim. Os tribunos proletários e populares criaram no Brasil outra escola de oratória, sobretudo nos anos oitenta, o discurso de combate para a ação.

Um grande orador(a) a serviço de um projeto mesquinho é uma pessoa perigosa. Se tiver poder é um monstro. A história está repleta de exemplos de lideranças que eram, monstruosamente, criminosas. Portanto, é realmente importante saber sempre a serviço de quais interesses se luta. Quando alguém se esquece disso, quando o uso da oratória se transforma em um fim em si mesmo para manter posições de poder, de cargos de prestígio, a tendência é o embrutecimento. Quem age assim se desumaniza.

Não somos instrumentos ao serviço da oratória, mas o contrário. A oratória é um instrumento ao nosso serviço. Somos, cada um de nós, nossos corpos, nossas vontades, nossa voz, nossa mente, nossa emoção, militantes a serviço de uma causa que é muito mais grandiosa do que nós. Quando alguém toma a palavra, e as luzes estão concentradas sobre ele; quando pega o microfone e os outros estão sentados e estão ouvindo, a responsabilidade é imensa. Com o domínio da oratória vêm as responsabilidades de quem está se construindo como liderança.

O maior perigo da oratória é a tentação da vaidade. Mais do que em outras tarefas, a exposição pública que a oratória permite é muito perigosa. A exposição pública permite um grau de reconhecimento que parece intransferível, ou até insubstituível, e pode incendiar egos e alimentar invejas, potencializando rivalidades desnecessárias e destrutivas.

Acontece que somos todos imperfeitos e o excesso de vaidade é, portanto, uma atitude infantil. Ninguém reúne todas as capacidades em máximo grau. Ninguém é insubstituível. Todos os dias nascem, em cada greve, em cada combate, novos lutadores que poderão desenvolver qualidades extraordinárias, se encontrarem um ponto de apoio, uma organização em que podem desenvolver o seu potencial. Os coletivos militantes são em primeiro lugar, escolas de formação de lideranças. É somente uma ilusão de ótica, portanto, uma conclusão falsa, a ideia de que os oradores mais experientes são os melhores, só porque já deram provas no passado. Militantes mais jovens surpreenderão, se a eles forem dadas as oportunidades para desenvolver suas habilidades.

As habilidades necessárias na luta sindical, social e política são muitas e variadas. Grandes oradores dependem muito das equipes em que estão integrados. Nessas equipes estão os que têm mais talento para a solução de problemas, os que elaboram melhor, os que organizam, os que escrevem e, talvez, mais importante do que tudo, estão aqueles que são capazes de unir os militantes, e têm a capacidade da agregação, de construir espaços coletivos autênticos.

A vaidade não deve ser subestimada. Algum grau de vaidade é plausível, até mesmo necessária, mas deve ser contrabalançada pela pressão do trabalho de equipe. Militantes socialistas devem ser educados na percepção de que os aplausos que recebem são aplausos para as ideias que defendem. Na luta política e social, na esfera dos sindicatos, dos movimentos sociais e dos partidos, toda militância deve ser um trabalho de equipe com divisão de tarefas.

Que alguém seja escolhido como porta-voz de um coletivo, em determinado momento, não autoriza o camarada a concluir que ele é o “rei da cocada preta”. Quem perde o sentido da humildade é gente “sem noção”. Ou seja, imatura, sem sentido das proporções. O personalismo, o estrelismo, portanto, o individualismo é ridículo. É triste. Militantes devem ser, na dimensão pessoal, discretos sobre si mesmos.

Como em toda e qualquer atividade humana, há na oratória um espaço para o improviso, mas é um espaço minúsculo. Não improvisamos. Quem primeiro pede a palavra e decide começar a pensar enquanto vai falando, está condenado ao fracasso. Se a ideia central e os argumentos de um discurso não estão prontos, é melhor não fazê-lo. É um tiro no pé e um gol contra. Em segundo lugar, fazemos os exercícios de linguagem corporal: relaxamento, concentração, aquecimento de voz, que nos ajudam a nos libertarmos de nossos medos e inibições.

A oratória militante contraria os estereótipos da política burguesa. Não devemos escolher para porta-vozes das lutas sindicais, populares e políticas aqueles que terão a melhor imagem na televisão. Não acreditamos que o rosto mais fotogênico seja o melhor para a representação dos interesses dos trabalhadores. Nossos critérios são diferentes da vulgaridade da política institucional eleitoral.

Só merecem ser escolhidos como nossos porta-vozes aqueles que já passaram, na luta de classes, por inúmeras provas de dedicação, compromisso, coragem, e inteligência e, por isso, apostamos que resistirão ao assédio que será feito sobre eles para abandonar a defesa dos interesses do proletariado. Esse perigo é muito real e não deve ser subestimado. É muito triste, mas ninguém pode mais se surpreender, se considerarmos o que aconteceu na esquerda brasileira nos últimos trinta anos.

A oratória para a luta popular, para a mobilização dos trabalhadores e da juventude é completamente diferente das demais. Em primeiro lugar, antes e mais importante do que tudo o resto, porque o domínio da oratória para as lutas dos trabalhadores é somente o desenvolvimento de uma das habilidades para formação de lideranças. Porque a oratória não é a habilidade mais importante. O melhor orador não é, necessariamente, a melhor liderança.

A melhor liderança é a daquele ou aquela que tem a maior lucidez do que fazer, por onde caminhar, qual é o caminho a seguir. Ou seja, os líderes mais completos são os mais lúcidos, maduros, equilibrados, mais capazes de enxergar em cada situação quais são as tarefas. Grandes líderes cumprem um papel agregador, constroem equipes, unem dirigentes com diferentes habilidades, para resolver problemas complexos que não podem depender somente da decisão de um grande chefe.

Ao contrário da política burguesa, que forma lideranças individuais carreiristas, portanto, caudilhescas, a política socialista, a política das organizações de trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos movimentos negros é uma atividade coletiva. Alguns pesquisam e estudam um tema, outros articulam e organizam e, finalmente, alguns são os porta-vozes.

Para atingir a ampla maioria do povo brasileiro, a oratória comercial, gerencial, a do direito, todas elas são ineficazes. A oratória militante é outra oratória. É uma oratória que quer despertar o que há de melhor nas pessoas, não o que há de mais mesquinho, de mais egoísta, de mais alienado. Está a serviço da luta contra a dominação política burguesa. A oratória militante quer estimular a união e coesão dos explorados para que se organizem de forma independente, elevar o seu nível de consciência, incendiar sua imaginação, inflar a sua confiança, para que acreditem que a transformação da sociedade é possível. É uma oratória pedagógica porque tem um papel educativo.

Uma oratória militante é uma entrega, uma doação. Um discurso militante tem como objetivo apresentar de forma clara e contundente tudo aquilo que pulsa na mente de milhares, mas não encontrou ainda expressão consciente.

Queremos despertar em cada um de nós, com o estudo da oratória o que há de mais humano dentro de nós, a sede por justiça e liberdade. O que está guardado dentro do coração e não conseguimos expressar em palavras. Aquilo que é quase intuitivo, mas existe dentro de todo coração humano, e toda mente saudável: a aspiração de igualdade social, ou seja, o apetite pela liberdade, porque são indivisíveis. Dentro de cada coração humano há esse desejo, essa sede, de que deve haver mais liberdade e mais igualdade. Porque não é possível a liberdade entre desiguais. Para um lutador popular a bandeira da igualdade e da liberdade é a causa mais justa, mais elevada do tempo que nos coube viver, e o seu nome é socialismo. Não há nada mais importante do que defender essa causa. Os recursos que vamos usar estão selecionados para defender essa bandeira.

Entretanto, como todos sabem, uma técnica é somente um recurso e pode ser pervertida. Pode ser usada a serviço de interesses miseráveis, mesquinhos. Portanto, como nós aprendemos na escola da vida, há uma dimensão moral na oratória. São técnicas que têm de ser usadas com responsabilidade. Devem ser usadas para uma causa justa. Não podem ser aproveitadas, demagogicamente, para defender interesses mesquinhos, pessoais, egoístas. Uma grande orador(a) é acima de tudo um lutador contra a exploração e a opressão.