Andrea Caldas

política e educação

09 de abril de 2019, 22h39

Duas verdades e uma mentira na nomeação do novo ministro da Educação

Em nova coluna, Andrea Caldas afirma que “a verdade cristalina é: estão hipotecando o futuro da nação. Lamentável e cinicamente”

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Sim, não é novidade que representantes da área econômica assumam a pauta da Educação, no Brasil. Paulo Renato e Fernando Haddad são dois dos exemplos, mas não, os únicos.

E não há nenhum problema nisto. Já que Educação e Economia (e não financismo ou financeirizaçao) deveriam caminhar juntas. Um projeto de nação se faz com projeto de desenvolvimento econômico, social e educacional.

A questão é: qual é o projeto de nação e qual projeto de desenvolvimento educacional decorrem dele? Formar uma nação soberana, com produção de ciência e tecnologia? Ou conformar um país produtor de commodities e fornecedor de mão de obra barata?

E sim, há um problema adicional quando ministros vindos da Economia, ou de qualquer área – às vezes da Filosofia! –  ignoram as pesquisas e práticas no terreno da Educação.

Mas, há outra verdade dura.

O atual ministro vem do campo acadêmico (UNIFESP) e reverbera teses que não são excepcionais nas universidades.

A universidade abriga conservadores entre si. Pessoas que contestam a ampliação de vagas, as cotas e inclusive – como vimos, no caso recente da eleição da UNIRIO – gente que professa que estudantes e técnicos devem ter menos voz nos processos internos da universidade. Que a voz deve ser, por excelência, a dos doutores! (A Unirio, infelizmente, não é um caso isolado).

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Disto decorre o inegável sofisma da fala do atual ministro e da maioria dos integrantes do governo Bolsonaro.

Não há uma hegemonia do pensamento gramsciano na universidade.

Se consultarmos o google acadêmico, veremos que Paulo Freire é um dos autores mais citados no mundo – e não só no Brasil.

Mas, Gramsci não.

Talvez, tenha tido grande influência, nos anos 80, em áreas bem específicas.

E, como vimos, isto não produziu uma revolução.

A universidade brasileira, ainda que tenha tido alguns avanços do ponto de vista do acesso, ainda continua sendo um lugar reservado a poucos.

Nada a ver com a reforma intelectual e moral proposta por Gramsci, nos anos 30, para elevação de conhecimento de toda a população.

Nada a ver com seu postulado de que o ensino técnico deveria ser incentivado.

Nada a ver com sua utopia de formar “Leonardo da Vinci modernos” na escola básica, onde a arte, o trabalho, a técnica e a cultura fossem a base do currículo e onde “não se hipotecasse o futuro dos garotos/as”.

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Isto é Gramsci.

Isto é o que queriam os Pioneiros da Escola Nova – que bebiam da matriz liberal de Dewey – nos anos 30, no Brasil.

Isto é tudo o que ainda não conseguimos fazer e que o novo governo diz refutar.

A verdade cristalina é: estão hipotecando o futuro da nação. Lamentável e cinicamente.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.