12 de novembro de 2018, 21h36

“É desumano subir junto com o lixo”, diz professora após passar por constrangimento em hotel no Rio

"Nós não somos racistas. Só olhar pros nossos funcionários", disse gerente do hotel, ao se desculpar por ato preconceituoso de um dos empregados

(Foto: Reprodução Facebook)

Tháyna Sisnande, professora substituta de Biotecnologia Farmacêutica e doutoranda em Química Biológica no IbQM – UFRJ (Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), passou por uma experiência traumática. Dentre os 100 convidados do Brasil, Alemanha e outros países de um congresso, no Rio de Janeiro, a professora e sua colega de trabalho eram as únicas negras do local. O que Tháyna não esperava é ter que usar o mesmo elevador que a rede de hotéis Windsor reserva para transportar. Além disso, ouvir do gerente do hotel “não somos racistas, olhe os nossos funcionários”.

“Eu sou professora da UFRJ, aluna de doutorado e se você olhar em volta, eu e a professora somos as únicas negras participantes desse evento. Eu e ela estamos num local onde não temos o mínimo de representatividade. Nós somos a representatividade! Vocês esperam que pessoas como nós, estejam numa posição de servir como os outros negros que se encontram servindo o café, tirando o lixo! Mesmo que eu fosse a entregadora de pizza! É desumano subir junto com o lixo! Reveja esse racismo institucional de vocês, eu não piso mais nesse hotel. Depois disso o homem me solta: olha, nós não somos racistas. Só olhar pros nossos funcionários.”, informou a professora.

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Da série: Não existe racismo no Brasil.

Bom, essa aí da foto sou eu apresentando meu trabalho num congresso em que todos os participantes foram convidados. Uma lista seleta de cerca de 100 pessoas do Brasil, Alemanha e outros países.

O congresso começou numa quinta-feira, peguei meu pôster na impressão e chovia horrores. Comprei uma caixa de proteção, entrei no ônibus, saí do Fundão e fui pra Zona Sul, onde era o congresso. Cheguei na porta do hotel (daquelas redes de hotelaria enormes com gente de uniforme que abre a porta do carro pra você – você, o hóspede), com a minha caixa e meu guarda-chuva. Perguntei se era naquele hotel que estava acontecendo o congresso, disse que estava indo pra lá. Nem passei da porta. O funcionário imediatamente me orientou que era pra dar a volta na rua e entrar pela porta de serviço, o congresso era no 2° andar.

Pensei: ah, o hotel tá funcionando, devem ter colocado a entrada lateral pra não atrapalhar o funcionamento e além disso, eu tô com uma caixa com uns respingos de chuva. Ok.

Cheguei na portaria de serviço, caçambas de lixo, funcionários da limpeza batendo ponto, eu e minha caixa. Um dos funcionários com espanto me pergunta o que eu tô fazendo ali, a entrada é pela outra porta. Eu disse que o outro moço tinha me mandado ir pra lá, por causa do congresso. Ele me responde que não era não. Mas já que eu já tava ali, me falou pra ir até o funcionário do balcão. Esse, constrangido, me mostra onde é o elevador. Entro no elevador, todos me olhando sem entender muito bem, no 1° andar, entra uma funcionária com lixo que pediu desculpas pelo lixo e meio sem graça de estar dividindo o espaço comigo.

Cheguei no 2° andar, fiz o check in no evento. Olhei a minha volta, a ficha caiu mas eu não quis acreditar. Me senti enojada, desci pelo elevador social e passando pelo funcionário que abre a porta dos carros ouvi “e aí? Conseguiu achar o congresso?” Sorri sem graça e fui pra casa.

No dia seguinte, perguntei à organização do evento sobre alguma orientação específica para as caixas de pôsteres. Pra minha surpresa, a organizadora e professora da UFRJ, quem tinha me mandado o e-mail convidando para o evento era a segunda negra participante do evento. Questionei, contei o que havia acontecido. Ela incrédula disse que iria falar com o gerente do hotel e que aquilo era inadmissível. Apresentei meu trabalho, fui pra casa.

Sábado, chego no congresso. A professora vem falar comigo, o gerente quer pedir desculpas formais. Aquela torta de climão constrangedora. Eu, o gerente e mais uma funcionária numa salinha. Todos visivelmente constrangidos e eu irritada. Contei de novo o que tinha acontecido. O homem começa a falar, diz que houve algum erro, que não sabia qual funcionário tinha me dado a orientação e blá blá blá. Eu já querendo meter a mão na cara do homem, soltei um discurso que nem eu esperava:

Olha, eu não sei quem deu a ordem pra quem. Mas eu estou nesse congresso como convidada! Eu sou professora da UFRJ, aluna de doutorado e se você olhar em volta, eu e a professora somos as únicas negras participantes desse evento. Eu e ela estamos num local onde não temos o mínimo de representatividade. Nós somos a representatividade! Vocês esperam que pessoas como nós, estejam numa posição de servir como os outros negros que se encontram servindo o café, tirando o lixo! Mesmo que eu fosse a entregadora de pizza! É desumano subir junto com o lixo! Reveja esse racismo institucional de vocês, eu não piso mais nesse hotel.

Depois disso o homem me solta: olha, nós não somos racistas. Só olhar pros nossos funcionários.

A moça só abaixou a cabeça, acho que de vergonha.

Depois disso, não quis mais ouvir. Saí da sala, falei com os meninos da organização que estava indo embora. A professora estava mediando uma conferência, não pude ir lá falar com ela. Minha vontade era de jogar uma bomba no hotel. Enfim.

Ah, mas você só vai expor isso no Facebook? Não. O e-mail pra rede de hotéis, já está na minha caixa de rascunhos. Ah, você só quer atenção! Por que não foi na delegacia? Não fui, AINDA. Mas já sabe, né. O cara vai rir de mim, falar que é mimimi e que eu sou vitimista. Ah então pra que você tá contando essa história enorme? Porque a minha mãe ao saber me disse: Infelizmente, minha filha, nem um monte de diploma te deixa imune ao racismo.

É isso, não pisem no Windsor. Eles são racistas.

Em nota a Rede de hotéis Windsor, lamenta o ocorrido 

A Rede Windsor lamenta que a Professora Universitária tenha se sentido de alguma forma ofendida com o episódio ocorrido em uma de nossas unidades, no qual afirma ter sido discriminada ao ser orientada por um de nossos funcionários a utilizar a entrada lateral do hotel, por estar se dirigindo à área de eventos portando uma caixa de papelão.

Esclarecemos, nesse sentido, que a entrada de pessoas com materiais para a realização de eventos no Hotel, por questões logísticas, é realizada pelo acesso lateral e não pela entrada principal. Infelizmente, tomamos conhecimento de que este procedimento, naquele dia, não teria sido adotado em relação à totalidade das pessoas que se dirigiam ao local do evento, o que gerou a sensação de que a orientação teria sido dada somente para a Professora, quando, na verdade, várias pessoas adentraram tanto pelo acesso lateral quanto pelo principal.

Consideramos inadmissível qualquer tipo de discriminação e prezamos pelas relações de respeito às pessoas independentemente de credo, raça, religião, cultura. Lidar com diversidade é, inclusive, uma das características mais notórias da Rede Windsor de Hotéis. Por isso mesmo, o fato narrado pela Professora causou perplexidade e será objeto  de rigorosa apuração interna.

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