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04 de abril de 2019, 23h02

É o genocídio, estúpido!

“Bolsonaro e seus asseclas criam e executam ações de governo para semear, diuturnamente, a morte aos milhares e ‘fechar’ as contas para a ‘economia’ da Nação”, diz Marcos Danhoni

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Por Marcos Cesar Danhoni Neves* Diante da cruel realidade que vivemos pós-golpe de 2016 e pós-golpe eleitoral de 2018, temos que buscar uma chave de compreensão daquilo que todos denominam de DESGOVERNO, até para entendermos o que está ocorrendo nesse mundo que se tornou distópico praticamente da noite para o dia. Na verdade, precisamos olhar o passado recente e divisar a perspectiva trágica que este governo traçou para a população brasileira. Vamos primeiro aos fatos: – A liberação da posse de armas (até quatro) para os cidadãos; – O Massacre na Igreja Matriz de Campinas; – O Massacre na escola...

Por Marcos Cesar Danhoni Neves*

Diante da cruel realidade que vivemos pós-golpe de 2016 e pós-golpe eleitoral de 2018, temos que buscar uma chave de compreensão daquilo que todos denominam de DESGOVERNO, até para entendermos o que está ocorrendo nesse mundo que se tornou distópico praticamente da noite para o dia. Na verdade, precisamos olhar o passado recente e divisar a perspectiva trágica que este governo traçou para a população brasileira. Vamos primeiro aos fatos:

– A liberação da posse de armas (até quatro) para os cidadãos;

– O Massacre na Igreja Matriz de Campinas;

– O Massacre na escola pública de Suzano;

– A não renovação e contratação de radares nas rodovias do país;

– O aumento abusivo do preço do gás de cozinha;

– A destruição do programa “Mais Médicos”, que resultou em comunidades completamente desatendidas profissionais da medicina;

– A destruição da Farmácia Popular;

– O pacote anticrime de Sergio Moro;

– O aumento em quase três vezes dos crimes de feminicídio;

– A possibilidade de livramento automático de policiais que assassinaram suspeitos em ações envolvendo supostas trocas de tiro.

Todos estes fatos resultaram em milhares e milhares de mortes por tiros, facadas, queimaduras (causadas pelo uso de outros recursos para esquentar comida), acidentes de trânsito, desassistência médica, falta de remédios e vacinas etc. É necessário e urgente o levantamento estatístico deste aumento espetacular e cruel do número de mortes por estas causas desde 2016.

Durante a campanha presidencial de 1991, Bill Clinton venceu o seu quase insuperável oponente, George Bush pai (“herói” da 1ª Guerra do Golfo Pérsico), ao cunhar, graças ao seu assessor e marqueteiro, James Carville, o mote que fez aquele vencer as eleições: “É a Economia, estúpido!”. Esta curta frase sintetizava de forma definitiva as apreensões dos norte-americanos que amargavam uma recessão feroz. No caso brasileiro, das eleições de 2018, não tivemos algo parecido, mas tivemos a vitória das fake news (mamadeiras de piroca, Kit Gay etc.). Talvez pudéssemos adaptar o mote de campanha de Bolsonaro como: “É a [a sua] Hipocrisia, estúpido!”. Porém, isso ficou num nível subliminar que nos colocou numa situação muito semelhante ao distópico e tenebroso mundo da série televisiva “The Walking Dead”, um país de zumbis…

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Porém, o que isso tem a ver com os fatos listados acima? Tudo! Neste momento, em que termino de escrever estas linhas, ainda estamos sob o impacto da coça tomada por Paulo Guedes ao ter sido desnudado pelo deputado Zeca Dirceu, identificando-o como um “tigrão para os pobres e tchutchuca para os banqueiros”. A proposta de Guedes não é factível, não é minimamente defensável. É o “bode na sala” para, talvez, em futuro brevíssimo, fazer aprovar o outro projeto, igualmente desastroso, do desgoverno golpista de Michel Temer. Passando um ou passando outro, a depauperada população brasileira sofrerá ainda mais, ao contrário dos banqueiros que se locupletarão com títulos ou planos de capitalização ou coisa que o valha. Se passar, passou …, se não passar, a população está sendo exterminada, abreviando-lhe a vida e mandando ao cemitério milhares e milhares de jovens e velhos a uma velocidade inacreditável.

Ao manter o clima de extrema polarização, com a chama alimentada por um discurso e por ações governamentais de ódio, os mais pobres morrerão vítimas de suas condições precárias que estão sendo ainda mais precarizadas. Serão baleados, queimados, chacinados, torturados ou morrerão de fome, frio ou nas imundas cadeias brasileiras. Porém, a sabuja classe média morrerá também baleada, escondida em seus condomínios ainda não pagos, ou dentro de seus veículos (que não são seus, pois as parcelas ainda indicam que os bancos são os donos legítimos), nos acidentes estradais onde carecem radares e poderão, assim, experimentar velocidades muito altas para matar e serem mortos. Morrerão também num SUS fraquejado pela despolítica bolsonarista, pela falta de remédios e vacinas e na troca de tiros em suas esperadas discussões de trânsito ou saídas de baladas.

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Este número de mortos é essencial na equação de Bolsonaro-Guedes-Moro! Não passando a Previdência assassina é necessário por in moto o bordão “É o Genocídio, estúpido!”.

Esta lógica do capitalismo selvagem ganhou sua visibilidade cruel quando a Ford norte-americana lançou um carro popular chamado “Ford Pinto” (o nome não ajudaria, caso ele fosse lançado no Brasil…). Lançado no início da década de 1970, o Ford Pinto vendeu milhões de unidades, até que … o carro começou a matar.

O veículo tinha um erro de projeto: seu tanque de combustível localizava-se atrás do eixo traseiro que, em caso de colisões, quando a traseira era atingida, rompia a tubulação do bocal do tanque sujeitando o carro a pegar fogo e explodir. Após centenas de mortes, descobriu-se que a Ford já tinha conhecimento desse problema, mas seus empresários realizaram um cálculo genocida: era mais barato pagar indenizações por mortes e feridos do que realizar um recall do modelo. Absurdo! O conserto no recall custaria U$ 11,00 por unidade. Pelo número de unidades vendidas, a Ford teria que desembolsar 137 milhões de dólares. As indenizações somariam “apenas” 49 milhões. Então, segundo a lógica fordista, expressão máxima do capitalismo selvagem, era melhor o genocídio. O recado aos clientes era: “Que morram!”.

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Somente após uma titânica luta por seus direitos de consumidores e que chegou à Suprema Corte Norte-Americana, é que a Ford resolveu realizar o recall necessário, mas sem antes deixar milhares de mortos e inválidos para toda a vida.

A história do capitalismo é essa. Bolsonaro e seus asseclas não somente sabem disso, como criam e executam ações de governo para semear, diuturnamente, a morte aos milhares e “fechar” as contas para a “economia” da Nação, como gostam de afirmar. É o genocídio, estúpido! … Só isso!!!

*Marcos Cesar Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá, autor do livro “Lições da Escuridão” entre outras obras.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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