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30 de outubro de 2014, 11h34

Economia: qual projeto foi derrotado nas urnas?

A sociedade brasileira, diante de dois projetos econômicos para o país, escolheu um deles. Mas parece que não houve eleições e querem emplacar no novo governo eleito as ideias derrotadas.

Curso normal, não seria necessário escrever esse artigo. Afinal, a sociedade brasileira, diante de dois projetos econômicos para o país, escolheu um deles. Pela quarta vez consecutiva, o mesmo projeto sofreu derrotas. Mas parece que não houve eleições e querem emplacar no novo governo eleito as ideias derrotadas. Contudo, é incrível, por vezes, obtiveram sucesso com a mesma atitude. Conseguiram colocar o velho para pilotar o novo, o vencido dirigindo o vencedor.

Um projeto de país, seja qual for, depende de um modelo econômico e especialmente de um conjunto de políticas macroeconômicas. Cada projeto de políticas sociais tem o seu projeto econômico correspondente. Não há projeto social sem financiamento proporcionado pelo modelo econômico. E é a partir do Ministério da Fazenda e do Banco Central que um modelo econômico é conformado, dia-a-dia.

À frente da Fazenda e do Banco Central, já tivemos em 2003 a dupla Palocci-Meirelles.  A sociedade votou em 2002 por mudanças, mas ganhou continuidade. Não havia diferença entre Malan-Armínio, do período FHC, e a nova dupla. Em 2007, com a ajuda fortuita de um caseiro dada em 2005, a composição da equipe se aproximou mais de uma aliança de centro-esquerda. A dupla que comandou a economia foi Mantega-Meirelles. Na crise de 2009, enquanto o Ministério da Fazenda tomou uma série de medidas emergenciais já partir de setembro de 2008 para conter a crise, o Banco Central somente iniciou o movimento para reduzir juros em janeiro de 2009.

Guido Mantega, ministro da Fazenda de Dilma: ideias implementadas na macroeconomia foram as ideias derrotadas nas urnas em 2010 (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Guido Mantega, ministro da Fazenda de Dilma: ideias implementadas na macroeconomia foram as ideias derrotadas nas urnas em 2010 (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Na primeira vitória de Dilma, a composição da equipe econômica ficou bem representativa dos votos que recebeu. A dupla foi modificada mais uma vez. A equipe econômica foi liderada por Mantega-Tombini. Tudo parecia “arrumadinho”: uma presidente economista, de esquerda, desenvolvimentista e dois aliados à frente do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Mas as ideias implementadas na macroeconomia foram as ideias derrotadas nas urnas em 2010. A política macroeconômica de 2011 se fosse conduzida por Malan-Armínio seria a mesma. Juros foram aumentados, houve elevação do superávit primário, foi estabelecido contingenciamento de gastos e o câmbio foi valorizado.

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O resultado foi um desastre. A economia que havia crescido 7,5% em 2010, em 2011, cresceu 2,7% – um crescimento cortado drasticamente e expectativas de novas desacelerações foram disseminadas. A partir daí a crise internacional chegou e o governo adotou políticas de estímulos pelo lado da oferta (redução do preço da energia elétrica, desonerações e juros baixos para o financiamento do investimento). Resultado: irrisório. Políticas pelo lado da oferta são sempre bem-vindas, mas somente funcionam quando uma economia está em trajetória ascendente de crescimento.

Chega-se a 2014, uma disputa acirrada, difícil. De um lado, candidatos que afirmam que um ajuste fiscal é inevitável. Ajuste fiscal tem nome. Chama-se austeridade que significa corte de gastos públicos e contenção do crédito. Afirmaram que o salário mínimo está alto demais e que o desemprego precisa ser aumentado para que a inflação seja reduzida. Propuseram ainda o fim das políticas de intervenção cambial. Apresentaram também propostas de mudanças estruturais tais como a independência do Banco Central e o esvaziamento das funções dos bancos públicos. Só assim, segundo a oposição, seria recuperada a confiança no Brasil por parte de empresários que voltariam a investir e a economia voltaria a crescer. Isso não é economia, é ideologia, mas é no que acreditam.

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Tudo isso foi feito durante o governo de FHC (1995-2002). É verdade, os grandes empresários e os banqueiros confiavam no governo, mas não investiam. O Brasil não crescia de forma satisfatória e a inflação era mais alta que a dos dias de hoje.

Não deveria ser necessário lembrar, mas é: essas teses do período FHC foram debatidas exaustivamente e foram derrotadas no recente processo eleitoral. Logo, a nova equipe econômica tem que refletir a vitória das urnas. Nas urnas, existem votos, sentimentos e propostas. A candidata Dilma não foi vista em nenhum momento mostrando qualquer simpatia em relação às propostas que foram derrotadas. Muito pelo contrário.

O Brasil tem que voltar a crescer. Para tanto, será necessário que políticas pelo lado da demanda sejam aceleradas, entre elas as transferências de renda aos mais pobres e o investimento público nas três esferas de governo. A atual política de valorização do salário mínimo tem que ser mantida. Isso é uma sinalização importante para trabalhadores e consumidores. A política de controle da inflação também tem que ser mantida. A inflação não é alta nem está descontrolada, mas a comunicação do governo sobre o tema é muito ruim, o que tem gerado expectativas negativas de forma disseminada. A opção das urnas foi pela retomada do crescimento com distribuição de renda, pleno emprego e ampliação das oportunidades sociais. As eleições já acabaram – pelo menos para o povo brasileiro. Portanto, sua vontade deve ser respeitada.

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As forças políticas organizadas que fizeram campanha de oposição somente passarão a apoiar a presidente se ela mudar de posição. E se isso for feito, banqueiros oferecerão uma estátua para a presidente. No lugar de avançar, teríamos regredido a 2003-4. O momento é delicado, cheio de ruídos e muitas pressões eleitorais que ainda não se dissolveram. Mas não podem ser esquecidos os ganhos políticos e a vitória das urnas. É importante relembrar: Dilma cresceu e reagiu durante a campanha porque foi para a esquerda e porque a militância voltou às ruas com vigor. Muitos jovens ingressaram na política agora, pela esquerda, com Dilma. A valorização da política é também a manutenção de compromissos assumidos publicamente.

Em conclusão, nomear para o Ministério da Fazenda banqueiros (o presidente executivo do Bradesco) ou seu empregado de alto escalão (Henrique Meirelles) será desvalorizar a política e enterrar os sonhos daqueles que foram para as ruas e decidiram a eleição presidencial a favor de um projeto à esquerda. Há também empresários (Josué Gomes da Silva, dono da Coteminas) que apoiaram Dilma que têm sido recomendados para a Fazenda. Não basta ser empresário e ter apoiado Dilma. Tem que ser um adepto do projeto de igualdade de oportunidades, de distribuição da renda e das políticas de estímulo à demanda – porque se é um daqueles que fica animado com políticas de contenção de gastos públicos não vale a pena, a oposição seria mais competente para cometer esse erro. O novo governo tem que ter pessoas e políticas comprometidas com a vontade que foi vencedora nas urnas e nas ruas.