Blog do Valdemar

política e teologia

03 de agosto de 2015, 15h17

Eduardo Cunha é a síntese da identidade da comunidade evangélica brasileira?

Não é uma pergunta retórica. Tenho dúvidas mesmo.
Nunca ouvi, li ou soube de qualquer pronunciamento do Cunha sobre pobreza, desigualdade social, comunidades quilombolas, questões indígenas, reforma agrária e vulnerabilidades de segmentos sociais nos centros urbanos. “Amém Igreja?”
Cunha vocaliza o projeto de redução da maioridade penal. Estabeleceu-se como um ícone dessa causa. “Amém Igreja?”
Cunha desdenha dos direitos civis dos homossexuais claramente jogando para a plateia. Só faltou dizer que minoria não tem direitos. Compra brigas pouco se importando com o mérito da questão, desde que atraia os focos das lentes midiáticas. “Amém Igreja?”
Cunha tripudia as questões encaminhadas pelos movimentos sociais sob a roupagem de direitos humanos. Alia-se nessas resistências a Jair Bolsonaro (PP-RJ), Luiz Carlos Heinze (PP-RS), Arolde de Oliveira (PSD-RJ) e Marcos Feliciano (PSC-SP). Portanto, não é à toa que se sagrou Presidente da Câmara de Deputados considerada como uma das mais conservadoras nas últimas legislaturas. Talvez, a mais conservadora do período pós Constituição de 1988. “Amém Igreja?”
A trajetória do Cunha na comunidade evangélica está mais relacionada ao veículo rádio do que com as liturgias dos cultos dominicais nos templos.
Não sei quem o pastoreia, mas inegavelmente o ex-deputado e proprietário da Rádio Melodia FM-RJ 97,5, Francisco Silva, o apascenta há muitos anos através da Igreja em Casa. “Amém Igreja?”
Cunha é veemente contra os projetos do Marco Civil da Internet e de Regulação da Mídia. Diz ele simplesmente que ao “engavetar” tais incômodos está garantido o sacro santo princípio da liberdade de imprensa. Ora, a única coisa que não pode ser mexida nessa panaceia reformista é a área das comunicações. Monopólio da fala e salve o show da fé que tem tudo a ver com o festival de concessões da radiodifusão. “Amém Igreja? ”
Tudo leva a crer que na teologia de Cunha a imoralidade está circunscrita à sexualidade. Teologia da prosperidade faria Max Weber entrar em colapso e concluir que a tal ética protestante como espírito do capitalismo é coisa do passado. A teologia da prosperidade concentra a libido no dinheiro como uma entidade divina. Daí, tanto faz como se chega, o importante é gozar com a fortuna (Money) e não engasgar nos impedimentos da virtude (princípios cristãos). “Amém Igreja?”
A suprema trindade – Garotinho, Francisco Silva e Cunha – foi ativa no governo do Estado do Rio de Janeiro (1999-2002) e chegaram a sonhar com a Presidência da República (eleições de 2002) a partir de uma ampla rede de rádios espalhadas pelo Brasil. No primeiro turno do pleito, Lula (PT) obteve 46,4%, Serra (PSDB) 23,1% e Garotinho (PSB) ficou em terceiro lugar com 17,8%. Nada mal. Em pauta o eleitorado evangélico sensível às ondas curtas, médias e longas. Definitivamente dentro do espectro de frequência política em que o projeto de poder passa pela linguagem bíblica e shows gospel. “Amém Igreja?”
Hoje, para o Cunha, Garotinho é um anjo caído. A irmandade se rompeu e parece que Cunha jura de pé junto que nunca compreendeu essa ideia de três em um. Banido do seu posto de protagonista na relação igreja evangélica e política eleitoral, até quando Garotinho vai ficar calado sobre o seu desafeto a quem tanto ajudou? “Amém Igreja?”
Enfim, Cunha tem a virtude de não se esconder. Parece ter maioria na casa legislativa que preside. Daí a peitar o Ministério Público e tripudiar o Executivo federal… Trata-se de um herói nacional? A encarnação do messianismo político? Ou seria um kamikaze (numa tradução despretensiosa, “vento divino”)? “Amém Igreja?”
Cunha é um nó tático no tabuleiro político. Olha para um lado e age no outro. De duas uma: ou estamos finalmente perante a augusta figura de um impávido estadista ou trata-se do blefe da hora. “Amém Igreja?”
Eduardo Cunha é a síntese da identidade da comunidade evangélica brasileira?
Desconjuro!
Recuso-me a acreditar que a comunidade que tem Jesus de Nazaré como mestre e senhor só tenha isso para apresentar à nação. Minha esperança é que aqueles que estão abobalhados e calados diante de tantos descalabros se ponham a falar a partir das suas experiências de fé. Intuo que o Brasil está querendo ouvir esse testemunho de justiça e paz, respeitoso com as diferenças, em nome de Jesus. “Amém Igreja?”
Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

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