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17 de outubro de 2011, 14h41

Ele quebrou o silêncio

Isaias Rodrigues, 60 anos, foi peça-chave no restabelecimento da democracia na Venezuela Por Renato Rovai   Após a divulgação da renúncia de Hugo Chávez Frias instalou-se na Venezuela certo clima de expectativa pelas cenas dos próximos capítulos, como se o polêmico presidente fosse algo do passado. Os veículos de comunicação apressaram-se em tratar o civil […]

Isaias Rodrigues, 60 anos, foi peça-chave no restabelecimento da democracia na Venezuela

Por Renato Rovai

 

Após a divulgação da renúncia de Hugo Chávez Frias instalou-se na Venezuela certo clima de expectativa pelas cenas dos próximos capítulos, como se o polêmico presidente fosse algo do passado. Os veículos de comunicação apressaram-se em tratar o civil golpista Pedro Carmona Estanga como presidente de direito. Mas Isaias Rodrigues, 60 anos, Fiscal Geral da República, não fez parte desse script. Ao ver que o Estado de Direito em seu país havia sido golpeado por articulação de setores militares e civis, fez o que poucos teriam coragem. Convocou uma coletiva de imprensa em que, se imaginava, renunciaria ao cargo. Quando TVs e rádios estavam a postos, ao vivo, denunciou o complô. Sua fala repercutiu no mundo inteiro e também entre os venezuelanos, que desceram o morro e garantiram a democracia.

O que o senhor fez quando foi informado de que o presidente da República havia renunciado?
Fiquei sabendo da suposta renúncia na madrugada de 11 de abril, pela TV, como todos os venezuelanos. Na manhã do dia 12 fui ao Ministério Público para exercer minha função de Fiscal Geral e enviei a diretora de Direitos Constitucionais e dois fiscais de Direitos Fundamentais para conversar com o presidente da República. Ele estava privado de liberdade e encontrava-se em Forte Tiuna, uma instalação militar. Foram impedidos à força de fazer o contato com ele. De qualquer forma, dei instruções para que solicitassem a renúncia escrita e assinada pelo presidente. Essa carta nunca foi entregue. Requisitei que fizessem contatos com alguns fiscais militares para que tentassem contato com o presidente. Nesses contatos, os fiscais que haviam conversado com o presidente informaram que ele havia lhes dito que não tinha renunciado. Com esses elementos, convoquei uma coletiva de imprensa. Os jornalistas estavam interessados em saber se eu iria renunciar ao cargo e, talvez, mais por isso que por outra razão, a assistiram. Comecei a coletiva dizendo que o presidente não havia renunciado. Disse que não havia carta de renúncia e que se ele houvesse renunciado a carta deveria ser apresentada ao Parlamento. Isso foi às 12h30 de 12 de abril. Naquele momento em que estava falando já haviam sido realizados alguns atos que pretendiam ser de governo, como a dissolução da Assembléia Nacional. Apontei que estavam sendo violados a Constituição e o Estado de Direito e que estávamos vivendo um golpe de Estado. No momento em que disse isso as televisões tiraram minha entrevista do ar.

Depois dessas declarações o senhor recebeu ameaças? De quem e como?
Sim, comecei a recebê-las lá pelas 17h. Foram por telefone e de pessoas indefinidas. Em alguns momentos pessoas que estavam com a junta de governo, e que não vou identificar por razões muito pessoais, ligaram e disseram que minhas declarações eram certas, mas iriam produzir um banho de sangue no país. Diziam, “por favor, pare de falar isso e se esconda, pois sua vida corre perigo”.

Como suas declarações repercutiram?
Agradeço muito e de maneira especial à CNN, à BBC de Londres e a algumas emissoras da Argentina, da Espanha e também do Brasil, que trabalharam essa informação no contexto real do que estava ocorrendo no país. Isso produziu uma grande repercussão internacional que acredito ter sido fundamental para que voltássemos ao Estado de Direito.


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