05 de julho de 2018, 20h02

Eleição de Obrador é a esperança de superar a pobreza e derrotar o narcotráfico

O país bate recorde de homicídios, a maioria em consequência da ação do crime organizado, mas se apronta para novos tempos, com a eleição de Andrés Manuel López Obrador, primeiro presidente de esquerda a assumir o país

Um país com extensão territorial de 1.958.201 de quilômetros quadrados, uma população de 130 milhões de pessoas, das quais 43%, ou seja, 55 milhões vivem na pobreza, sendo 10 milhões em condições de miséria absoluta. Além dessas características, o México sofre, ao longo dos anos, com a ação violenta e avassaladora dos cartéis de drogas. A verdadeira guerra entre diferentes facções, que lutam pela liderança do narcotráfico, deixa milhares de mortos e marcas que não cicatrizam nunca no mexicano. A eleição do primeiro político de esquerda para presidente do país despertou a esperança de dias melhores para o povo. Andrés Manuel López Obrador, líder do Movimento Regeneração Nacional (Morena), chega com respaldo popular para dar início a uma nova fase que possa mudar a realidade atual.

Os números da violência no México assustam, principalmente na gestão de Enrique Peña Nieto. Ele vem sendo, sistematicamente, acusado de ter deixado o México se afundar ainda mais na violência do narcotráfico, por ter provocado a fragmentação dos cartéis, fato que beneficiou a cultura da impunidade e a corrupção.

As estatísticas de 2017 apresentaram uma média de 80 mortes por dia, ou 2.400 por mês, o que representa o recorde de homicídios em toda a história do país. Para se ter uma ideia, até o final de novembro, foram assassinadas 26.573 pessoas, a maioria em consequência da ação do narcotráfico.

O avanço no índice de homicídios no México, na avaliação de especialistas, é reflexo das políticas de segurança mal elaboradas, da fragmentação e competitividade dos cartéis e da diversificação das atividades ilegais desses grupos. Além disso, todos esses fatores são sustentados por uma cultura de corrupção e impunidade, de alianças entre o crime organizado e dirigentes políticos e por um contexto de profunda disparidade política e econômica entre a elite e a maioria da população.

A cultura do narcotráfico no México está em todos os cantos. O exemplo mais recente é o do ídolo Rafa Márquez, que, aos 39 anos, acabou de disputar sua quinta Copa do Mundo, no momento em que está sendo acusado de suposto envolvimento como testa de ferro do narcotráfico. Os cartéis têm tentáculos que atingem toda a sociedade mexicana. O jogador está sendo acusado pelo Departamento do Tesouro norte-americano de ter vínculos com narcotráfico. Em agosto de 2017, a Agência de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA incluiu o jogador em uma lista com outros 21 nomes apontados como supostos laranjas do narcotraficante Raúl Flores.

A notícia sobre o ídolo abalou os mexicanos. Para alguns, parecia inacreditável que seu ídolo e capitão da seleção tivesse seu nome manchado por envolvimento com uma organização criminosa. Depois da notícia, empresas como a Procter & Gamble e a Nike cancelaram seus contratos de mais de dez anos com Rafa Márquez.

Origem

O desafio do novo presidente não é pequeno. Para começar, é imprescindível conhecer a origem do problema. “Toda violência afeta a população. E para se resolver a questão é preciso ir às suas raízes. O problema do México é a falência de um modelo, ao qual seus últimos governos se ajoelharam: o modelo neoliberal, que, desde o início dos anos 2000, vem degringolando e, recentemente, chegou a ser criticado até mesmo em relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, analisa Yuri Martins Fontes, doutor em História Econômica, pesquisador, escritor, jornalista e colunista da Fórum.

Para ele, é evidente que a violência afeta todo o povo. O resultado, inclusive, está nas urnas, com a recusa do neoliberalismo, que no restante da América já perdeu a confiança da opinião pública há duas décadas, mas, no México, esse processo somente agora mostra seu efeito. “A proximidade com os Estados Unidos, certamente, conta muito no problema do narcotráfico. E não apenas pelo mercado consumidor grandíssimo do Norte, mas, especialmente, pelo fato de o país ser uma das nações mais influenciadas pelos norte-americanos na história. Há uma frase que vi pichada em muitos muros mexicanos, que diz: ‘Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos’. De fato, cerca de três quartos das exportações do México são para os EUA. Imagine o percentual do comércio de drogas!”, observa Martins Fontes.

Yuri Martins Fontes: “Se os cartéis conseguem arregimentar jovens para atividades ilegais, é porque esses jovens já não enxergam outra possibilidade de inserção social” – Foto: Arquivo Pessoal

A verdade é que os cartéis do narcotráfico, dentre eles os principais, Beltrán Leyva, Golfo, Sinaloa, Loz Zetas, Juarez, La Familia e Tijuana, detêm muita força e ainda são responsáveis por uma série de assassinatos no país, inclusive de pessoas que não possuem envolvimento com o crime.

Para Martins Fontes, o fator corrupção sistêmica é relevante como causa desse poder de atuação dos cartéis, mas essa corrupção faz parte da própria essência da cultura capitalista. “Conforme observa Samuel Pinheiro Guimarães, que foi embaixador, secretário-geral do Itamaraty e ministro para Assuntos Estratégicos, o narcotráfico, assim como o terrorismo, tem relação direta com um aspecto: após a derrota da União Soviética na Guerra Fria, os EUA precisavam de uma outra justificativa para seguir dominando mais e mais o mundo, para seguir impondo, por meio da força, seus interesses econômicos. Essa nova justificativa seriam as ‘novas ameaças’, os ‘novos temas’ que passam a ser estudados nas Relações Internacionais. Passa-se então a apresentar qualquer ameaça aos interesses da ‘hiperpotência’, como ameaça à ‘civilização’, para ganhar aceitação da opinião pública nacional e internacional”, reflete.

O problema do México, prossegue o pesquisador, é o mesmo de todos os Estados periféricos do sistema-mundo capitalista: “É uma nação subalterna, constrangida pela estrutura global a produzir e vender matérias-primas sem valor agregado, e a comprar produtos industrializados a preços muito superiores; uma ‘seminação’ sem autonomia, sem soberania nacional, sem soberania alimentar, um Estado que não logrou completar seu projeto de nação, e assim se mantém sujeito aos interesses dos Estados mais fortes, enfim, do Imperialismo”, afirma.

“Digo isso para mostrar que é justamente a questão social mal resolvida que gera problemas como o do narcotráfico. Se os cartéis conseguem arregimentar jovens para atividades ilegais, é porque esses jovens já não enxergam outra possibilidade de inserção social, de sobrevivência. É o mesmo caso das favelas, em que grupos criminosos crescem e ganham poder. Por quê? Porque eles cumprem a função que o Estado não cumpre: ou seja, dão emprego, segurança para as comunidades, dão até mesmo assistência social”, acrescenta.

Além dos homicídios associados ao narcotráfico, os registros de mortes atribuídas à violência doméstica ou contra as mulheres (mais de 1.500 processos foram abertos por feminicidio em 2017) aumentaram muito. Essa violência, segundo Martins Fontes, está ligada não só à falência das políticas de segurança pública, mas às políticas sociais como um todo (das quais faz parte a segurança de modo geral), uma característica do Estado neoliberal.

Diálogo

Antes mesmo de ser eleito, Obrador declarou que não descartaria a possibilidade de dialogar com representantes dos grupos criminosos para acordar uma espécie de anistia, que permitisse reduzir a violência. “Precisamos dialogar e nos esforçar para acabar com esta guerra e garantir a paz. As coisas não podem continuar como estão”, disse, em um comício no estado de Hidalgo.

Para Martins Fontes, Obrador poderia dar um passo grandioso, como fez o Uruguai, e legalizar o consumo das drogas no país” – Foto: Wikimedia Commons

Para Martins Fontes, o presidente eleito chega ao poder com um discurso-programa de centro-esquerdista, de aliança nacional, “à semelhança dos demais neodesenvolvimentistas na América, de Lula a Correa, passando por Chávez, guardadas as nuances que os distinguem um pouco. Se ele conseguir cumprir suas propostas políticas voltadas ao combate à pobreza e redução do abismo social entre ricos e pobres, isso, certamente, vai logo refletir na diminuição do poder dos cartéis de drogas”.

No entanto, o pesquisador faz um alerta: “Como nos demais governos nacional-desenvolvimentistas, as alianças são um problema. Acordos com as elites (corruptas, mesquinhas e violentas, sejam elas de empresários “legais” ou ilegais) são necessários, mas são sempre temerários. Entretanto, como se sabe, sem alianças não se alcança o poder em uma ‘seminação’, incompleta em seu processo de efetiva independência, como é o caso do Brasil ou do México”.

Martins Fontes avalia que o fato de Obrador ter obtido maioria no Parlamento é muito positivo. “Ele poderia dar um passo grandioso, como fez o Uruguai, e legalizar o consumo das drogas no país, o que reduziria grandemente o problema do narcotráfico, como mostram diversas pesquisas especializadas sobre o tema”.